«Erro Tático» de Luís Carito dividiu PSD e CDS de Portimão

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Declarações do antigo vice-presidente socialista da Câmara Municipal de Portimão causaram mal-estar no Partido Social Democrata (PSD). Carlos Gouveia Martins diz que a coligação com o CDS para apoiar Luís Carito nunca foi fechada. João Gonçalves Caetano garante que os centristas vão continuar apoiar a candidatura.

A ideia até poderia ter sido interessante, mas acabou por «dinamitar-se» a si própria, já que «não chegou a entendimento global». Ouvido pelo barlavento, Carlos Gouveia Martins, presidente da Comissão Política de Secção do Partido Social Democrata (PSD) de Portimão, conta como oito anos mais tarde, o socialista Luís Carito volta a entrar na cena política.

«A história é simples de contar. Em setembro do ano passado começámos a falar com outros partidos mais do espectro centro-direita, como o CDS-PP, o PAN, o Nós e outros para criar uma plataforma. Já no início deste ano, em reunião com o CDS começámos a trabalhar a coligação, com propostas, estratégia e distribuição de lugares. Tivemos acesso a um estudo com quatro nomes que foram trabalhados por nós. Em nenhum havia o Dr. Luís Carito», recorda.

Dois dos nomes foram o próprio Carlos Gouveia Martins e Rui André, autarca de Monchique, ontem confirmado por Rui Rio como candidato à Câmara Municipal de Portimão.

«Os outros dois nomes eram mais da ala de esquerda. Um dos quais chegamos a iniciar conversações para cabeça de lista à Câmara Municipal de Portimão e tivemos várias conversas em meados de fevereiro. Mas por motivos pessoais e de força maior, essa pessoa não conseguiu avançar», justifica.

Entretanto, após a desistência do nome forte que Carlos Gouveia não quis revelar, «convocámos o CDS e dissemos que íamos avançar para um candidato do PSD. No entanto, o CDS insurgiu-se dizendo que não e indicou o Dr. Luís Carito».

Então, «o nome surge e levo-o à discussão da comissão política. Houve muito debate interno. Eu disse: se os outros partidos entendem que é o melhor, vamos ver ele tem interesse. Efetivamente, já em março, falamos, eu e o José Pedro Caçorino [do CDS] com o Dr. Carito. Ele disse-nos que ia pensar na sua situação pessoal e profissional», recorda ainda Carlos Gouveia Martins.

Na quarta-feira, dia 31 de março, Carito decide falar à imprensa.

«Mas ainda não tínhamos nenhum acordo de coligação fechado com o CDS. Ele falou e cometeu um erro tático ao dizer que é um candidato independente e que os partidos se quiserem vão atrás. Começou mal, na reação partidária, e entrou logo em clivagem em vários quadrantes porque o PSD não apoia candidatos independentes. O PSD tem os seus candidatos próprios que podem ser até independentes, mas o PSD tem as suas listas próprias», clarifica.

Nessa noite, estava prevista ainda uma conferência de imprensa conjunta com Carlos Gouveia Martins e João Caetano do CDS que acabou por não acontecer, «para dizermos que estávamos a trabalhar numa coligação e que ainda não havia fumo branco em relação a candidatos. Só que com aquela declaração, de facto, ficou tudo tão comprometido que adiámos. Mas não havia acordo de coligação fechado. Não havia».

O que havia, então?

«Iríamos dizer que estávamos a trabalhar, que havia uma base de três pontos de acordo entre partidos, e que tínhamos falado com outras forças, inclusive, a Iniciativa Liberal, de forma informal, e a tentar chegar a um compromisso conjunto. Infelizmente, aquela declaração dinamitou tudo a vários níveis. Houve desagrado no PSD porque ainda nem tínhamos transmitido aos militantes muitos aspetos. O nome de um candidato para ser homologado em concelhia tem de ir a plenário de militantes e nem ainda o tínhamos feito», admite ao barlavento.

No final do desaguisado, «ficou tudo bem, mas houve insatisfação e desconforto por parte do PSD por um candidato anunciar-se antes de o partido o fazer, mas reconheço que percebo a posição do Dr. Luís Carito também», diz.

Carlos Gouveia Martins, agora candidato à Assembleia Municipal de Portimão, sublinha que «não foi desconforto por ser o Luís Carito», protagonista do mediático episódio do «papel engolido».

«Não é isso. O PSD sentiu desconforto de o candidato se anunciar antes de o processo estar concluído».

E mais: «tenho muito respeito pelo Dr. Carito e pelo trabalho que tem vindo a fazer enquanto médico no Centro de Saúde. Quero frisar que a questão legal do Dr. Carito já transitou em julgado. É um não assunto. E acho que julgamentos feitos em praça pública não deveriam ditar que a vida das pessoas deixe de poder ser feita. Desejo-lhe os maiores sucessos pessoais e profissionais».

Rui André, um candidato de segunda escolha?

Depois deste ato falhado, será que o candidato do PSD Portimão não sentirá que é uma segunda escolha? O presidente da concelhia desdramatiza.

«Não por que na verdade, foi até a primeira escolha de todas. Foi o primeiro nome debatido em seio do PSD, o que acaba por ser engraçado».

O que aconteceu é que «fizemos uma pequena curva para adaptar a estratégia a um conjunto de forças num projeto mais agregador» que acabou por não resultar.

«Mas agora, a pessoa já estava escolhida desde o primeiro dia. Esteve ao corrente, sabia que havia essas conversações. Fomos sempre frontais».

Ainda em relação a Rui André, «somos amigos há muitos anos. É um autarca vitorioso com três vitórias consecutivas. É vice-presidente da AMAL e está na Federação dos Bombeiros. É uma pessoa que conhece muito bem a realidade de Portimão e trabalha muitas matérias em conjunto com este concelho».

«É um presidente de Câmara que teve uma dinâmica diferente em Monchique e que a seu tempo terá os seus méritos reconhecidos. Foi uma das primeiras escolhas, pelos dirigentes, em debate interno, em Portimão, e dita em muitos locais como autarca modelo que os munícipes gostam. Tem a sua autoridade política em virtude de várias vitórias e tem visão. Monchique não é a mesma de há 12 anos», afirma.

«E é uma pessoa que teve sempre uma postura muito correta e de elevação para ser sondado. Esteve sempre tranquilo e respeitou muito Portimão e o PSD».

Questionado sobre uma eventual aproximação ou coligação com o Chega!, Carlos Gouveia Martins nem quer ouvir essa sugestão.

«Não. Não conheço o propósito das pessoas que militam nem que linhas traçam em matéria de educação ou habitação para Portimão. Aquilo que li nas páginas oficiais são discursos de extremos e discriminam mesmo alguns grupos. Mas coloco na mesma linha da extrema direita, partidos da extrema esquerda que também têm visões que nunca na vida poderão compactuar com o PSD no qual eu milito. Com todo o respeito por quem lá está, não coloco em causa a idoneidade das pessoas, mas foi o único partido com o qual não tive conversações», conclui Carlos Gouveia Martins.

«PSD tem uma bota para descalçar» considera o CDS

Ouvido pelo barlavento, João Gonçalves Caetano, líder da concelhia do CDS PP de Portimão confirmou ao barlavento que o partido vai continuar a apoiar a candidatura de Luís Carito.

A decisão foi consolidada depois de uma reunião da comissão política concelhia, na noite de segunda-feira, 5 de abril.

«Sim, está confirmado. Já tinha sido aprovada na semana passada quando ainda estava em cima da mesa a negociação da coligação com o PSD. Entretanto, nem houve necessidade de nova votação». Isto porque em termos formais, o procedimento de voto no CDS é diferente do PSD.

«Já houve a deliberação da concelhia que tem de ser confirmada em assembleia de militantes que será marcada, em princípio, para dia 17 de abril, e depois há uma mera ratificação na distrital. Os militantes são soberanos, mas não me parece que haja qualquer tipo de problema. Ou seja, isto só necessitaria de ir a conselho nacional se fosse uma coligação de partidos. Se for uma candidatura do CDS com cidadãos independentes, não carece de ir a Lisboa. Só tem de ser ratificada pela distrital».

Por outro lado, apesar da experiência falhada com o PSD, João Gonçalves Caetano, para já, fecha já a porta a outras forças partidárias para apoiar Luís Carito.

«Está em aberto e tem sido falado com o Dr. Carito. Eventualmente, vamos reunir aqui outros partidos numa coligação formal. Está a ser negociado, com outros partidos que não o PSD, que já desistiu. A questão é saber se entram ou não outros partidos. Quando tivermos essas questão concluída, divulgaremos. Não sabemos ainda», apontou.

O líder dos centristas de Portimão nega, contudo, que tenha sido o CDS a ter a ideia de convocar Luís Carito.

«Isso não é verdade. Sinceramente não estou preocupado com o que o PSD diz. Mas para responder, não fomos nós que fizemos uma sondagem com o nome do Dr. Luís Carito. Foi a comissão política do PSD de Portimão. Essa sondagem, que até tinha outros nomes da área do PS, não fomos nós que a fizemos. Enfim, essa questão a mim soa-me a desculpa tendo em conta aquilo que se passou na sexta-feira passada em Lisboa, porque o PSD Portimão, tal qual como nós fizemos, votou o apoio em comissão política ao Dr. Carito e foi aprovado esse apoio».

«Enfim, eu percebo que o PSD tem uma bota para descalçar. Dizer que fomos nós é tentar sair fora deste esquema só porque aconteceu o que aconteceu na sexta-feira, enfim, cada um responsabiliza-se pelo que pode e tenta desenvencilhar-se das situações em que se coloca», disse João Gonçalves Caetano.

«Tendo em conta o perfil do Dr. Carito foi entendido ter uma pessoa que pudesse encabeçar esta coligação que pudesse abranger o eleitorado que vota tradicionalmente no PS em Portimão. Foi nesse perfil que surgiu o nome, naturalmente».

Questionado sobre se admitiria uma coligação com o Chega!, o líder centrista afirmou que «está completamente fora de hipótese por razões muito simples. Para já, tendo em conta as propostas que o Chega defende e apresenta e o tipo de intervenção política que faz, em relação à qual, nós, no CDS, não nos revemos de forma alguma».

«Ao nível nacional, quando fizemos o acordo de paz com o PSD, foi formalmente acordado entre os dois partidos que estariam excluídas quaisquer entendimentos com o Chega!. Embora estejamos fora desse quadro, mesmo não houvesse esse acordo, para nós nunca haveria coligação com o Chega! porque é um partido que tem uma visão, propostas e uma linha política com a qual não nos revemos», firmou.