Uma brecha no paredão

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Iniciativa da Câmara Municipal de Loulé ao propor-se criar a Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal é uma autêntica brecha no paredão que importa preservar.

Há muitas coisas sobre as quais existe hoje em dia muito maior sensibilidade e conhecimento do que há 50 anos.

Um planeamento urbanístico equilibrado e a preservação de valores naturais e paisagísticos é uma delas. Inconcebível é que se continuem a repetir erros antigos na atualidade.

A ganancia e a especulação imobiliária não se detêm perante nada. É uma raridade encontrar autarquias e autarcas que saibam resistir às pressões.

«Enquanto houver um metro quadrado de zona litoral por ocupar a luta continua» é o lema ainda vigente. Os chamados projetos PIN inventados pelo famigerado ministro Pinho (ou projetos PINHO do ministro Pin…) passaram por cima de tudo e todos, cilindraram competências alheias, em nome da celeridade administrativa.

Os bancos financiaram crápulas sem garantias, um verdadeiro império de patos-bravos (gente fina ou nem tanto, mas todos colunáveis e medalháveis).

Há muitos anos, num relatório que elaborei para a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, sobre Turismo Sustentável, chamava a atenção para os excessos da ocupação do território, e para a capacidade de carga das zonas turísticas que, uma vez ultrapassada, só gera desconforto e disrupção estrutural.

Câmara Municipal de Loulé aprova intenção de criação da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal.Há praias onde fica difícil estender uma toalha. Na época alta, a falta de estacionamentos e a circulação viária tornam a vida num inferno. Em tempo de seca, o abastecimento de água gera preocupações suplementares.

Recolha de lixo, tratamento de esgotos idem aspas. E no Algarve, apesar de todos os instrumentos de planeamento em vigor, a betonização da frente de mar não tem parado.

Um imenso paredão de edifícios tem-se tornado a nova realidade paisagística da região, cujas belezas e património naturais vão sendo destruídas sem dó nem piedade com a cumplicidade de responsáveis técnicos e políticos no ativo. Money, Money, Money!

Uma fuga para a frente, uma febre especulativa que não recua perante nada, ocupando até à exaustão espaços de biodiversidade, zonas de cheia, destruindo paisagens.

Esse tem sido, infelizmente, o caso da zona costeira do Algarve, onde uma frente cerrada de betão tem ocupado impiedosamente sem intervalo o que restava do coberto vegetal. Densidades habitacionais de loucura, cargas humanas insuportáveis.

É por isso de assinalar a iniciativa da Câmara Municipal de Loulé ao propor-se criar a Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal, no limite nascente da cidade de Quarteira.

Uma autêntica brecha no paredão que importa preservar, e que torna evidente a riqueza ambiental que ali temos e que, se calhar, quase todos desconhecíamos na sua real dimensão.

Como é bom saber que naqueles 135,4 hectares existe um ecossistema com uma fauna de 269 espécies diferentes (137 aves, 94 insetos, 18 répteis, 11 anfíbios e nove mamíferos), a que acresce uma flora com 228 espécies diferentes, algumas de elevado valor patrimonial e únicas no mundo.

É uma mais-valia que valoriza Quarteira, um polo de animação para quem a visita, um testemunho do nosso respeito pela Natureza.

Não pertenço à sua tenda partidária, mas isso não me impede de saudar o presidente Vítor Aleixo pela coragem que representa este passo contra a corrente. Oxalá consiga concretizá-lo, e que não se fique por aqui nesta matéria!

José Mendes Bota | Ex-parlamentar e diplomata da União Europeia