Tenham coragem: O Algarve precisa de um Hospital Universitário

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Duas datas: 31 de maio de 2016 e 14 de setembro de 2016. A separá-las? A recorrente incapacidade de cumprimento dos tão apregoados clichés políticos socialistas: «palavra dada é palavra honrada». A primeira, a data anunciada pelo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, para solucionar os problemas e carências do Algarve na sua área de responsabilidade – em particular, a falta de recursos humanos; a segunda, a fronteira temporal entre promessas e atitudes, entre o dito e o feito, entre a propaganda barata e a falta de credibilidade política.

A falta de médicos na região é figura pública: as carências são conhecidas e amplamente divulgadas pela imprensa. Entre tantas, ortopedia, cirurgia e anestesia são especialidades enfermas, carentes de especialistas, por sua vez, em crescente extinção. As consequências são obviamente nefastas. Os incidentes sucedem-se, num atentado à saúde e em reflexo da redução da capacidade de resposta aos utentes, que, devido à falta de médicos, se vêm privados do acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), direito, por si só, incontornável.

Entretanto, tudo isto ocorre numa região que, ao contrário do que muitas vezes é dito, sofre por ser periférica. A ilusão de que o Algarve, por ser uma região litoral, não é uma região periférica, é precisamente apenas isso: uma ilusão! Uma utopia política e ideológica desesperada por intervenções práticas que a contrariem.

As clivagens entre o casco sul e central do país são demasiado acentuadas. Como pode uma região não ser periférica quando os seus 450 mil habitantes – cerca de 5% da população portuguesa – vivem a mais de 300 quilómetros dos centros hospitalares que têm a verdadeira capacidade de resposta? Podemos não ser periféricos em relação ao sol, às vistas para o mar e aos agravamentos de taxas de IMI especiais, mas somos periféricos no acesso à saúde.

Muito se tem falado mas pouco se tem feito a propósito do recorrente problema da falta de médicos. Aliás, a bem da verdade, apenas se têm tomado medidas transitórias, quando o que precisamos são decisões estruturantes que resolvam os problemas de fundo. São louváveis as recentes contratações anunciadas pela Administração Regional de Saúde (ARS), assim como também são louváveis os protocolos para deslocar equipas do Centro Hospitalar Lisboa Norte para o Algarve. Fim. É preciso sermos taxativamente claros: louváveis serão sempre todas as medidas que atentem ao melhoramento do funcionamento, mas que não se utilizem como manobras de camuflagem quanto ao verdadeiro ataque à origem do problema: a atração e fixação definitiva de pessoal médico especializado na região algarvia.

Nesse sentido, e atendendo à leitura dos factos e a um estudo de casos de sucesso, defendo que grande parte deste problema encontrará paz e solução se o governo tiver finalmente coragem de avançar com a concretização de um «casamento» entre o meritório centro de saber que é a Universidade do Algarve e o centro do fazer que é o SNS e as suas unidades regionais. Não é segredo: o Algarve precisa de um Hospital Universitário.

Quanto em causa está a saúde e a falta dela dos serviços hospitalares algarvios, nunca pecará por escasso o trabalho desenvolvido em prol da criação de condições e dinâmicas que promovam a sua potencialização. Para isso conta apenas uma medida na equação: a vontade.

Um Hospital Universitário será indiscutivelmente uma medida de fundo de sucesso a médio prazo, trazendo médicos diferenciados e recém-especialistas, bem como atraindo novos estudantes e fixando cada vez mais internos. Se por um lado a criação deste modelo permitirá atrair profissionais médicos interessados em desenvolver investigação e investir numa carreira académica, por outro, também servirá para tornar a formação mais abrangente e próxima daquilo que é a realidade da profissão. Deste modo, a atração de recursos médicos será uma realidade sustentável e integrada numa lógica que reforça os laços entre os profissionais de saúde, os estudantes, as unidades de saúde e os algarvios.

Paralelamente, esta seria também uma medida de perspetiva, alcance e influência económica: tendo em conta o grande investimento público efetuado, permitiria um aproveitamento e potencialização dos recursos já existentes.

Atualmente, a Universidade do Algarve já dispõe de uma oferta educativa de qualidade na área da saúde, abrangendo desde cursos técnicos, a cursos de gestão de saúde, passando pelas ciências biomédicas, até à medicina. O sucesso desta oferta tem sido evidente, tal como mostra a taxa de empregabilidade no curso de enfermagem (cerca de 100%) ou a classificação obtida no U-Multirank, um ranking apoiado pela Comissão Europeia (melhor classificação nacional na área da medicina). Assim, apenas se pede que, recorrendo a recursos proeminentes e já existentes na região, se resolvam os problemas do Algarve. Uma sequência de encadeamento lógico tão pertinente, que se assoma quase que como obrigatória: é simples, é possível e resolve os problemas recorrentes de há décadas até esta parte.

Coerência, planeamento e estratégica: 3 premissas fundamentais e tão carentes para o governo quanto para o investimento na saúde para o Algarve. 3 Premissas de incomensurável pertinência e necessária aplicabilidade. Exige-se uma leitura sensível entre factos e realidade e essa, diz-nos que estamos ainda longe das concretizações práticas apregoadas por discursos floreados de ocasião.

Acredito, em total honestidade intelectual e política, que as medidas atrás enunciadas responderiam de sobremaneira aos problemas identificados. Um Hospital Universitário daria aos utentes o atendimento condigno a que têm direito e aos estudantes as condições necessárias para o seu desenvolvimento profissional. Atrair mais e melhor, com mais e melhor. Tudo isto, através de uma solução com um impacto positivo na comunidade, globalmente sustentável a médio e longo prazo e que reforça o potencial da investigação já existente na região algarvia.

Não se governa com a boca. Governa-se com as mãos. Com as mãos no sacho que lavra a terra para conhecer o campo que temos. E conhecê-la, é saber assumir as suas limitações e trabalhar com o que temos disponível. Não necessitamos de «vacas a voar» e muito menos de janelas de vistas caras! Precisamos, isso sim, de olhar para os problemas com seriedade e consciência. Afinal, os problemas são como as doenças: não são os sintomas que assustam, são as causas que os levam a surgir.

Carlos Gouveia Martins | presidente da JSD Algarve