Sinais do tempo de hoje

  • Print Icon

1) Manhã de agosto de 2019. Sala de espera do consultório do dentista. Para matar o tempo – pura ilusão – folheio uma qualquer revista descuidada abandonada sobre a mesinha. Um artigo sobre as férias dos políticos europeus prende a minha atenção: Angela Merkel, numa varanda, a ler, domina a fotografia. Concentro-me no livro que Merkel segura nas mãos. Um livro de Stephen Greenblatt, com o título Tyrant: Shakespeare on Power, de 2018. A curiosidade levou-me a pesquisar nos sítios do costume. Fiquei a saber que o autor é um importante professor americano que escreveu diversas obras sobre Shakespeare e que o referido livro é uma obra académica, difícil mas importante para quem acha que a literatura antecipa diversos cenários da vida real. Em Tyrant, o autor deixa a pergunta: como pode uma sociedade forte e sólida acabar por ser governada por um sociopata? A tese propõe-nos que Shakespeare antecipou a resposta, desenhando personagens como Ricardo III, Macbeth ou o Rei Lear, onde estão todos os sinais de corrupção, paranoia, incompetência, narcisismo e mentira permanente. Fiquei a pensar que nos tempos de hoje, da Ásia à América, passando pela Europa, as «qualidades» atrás inventariadas têm tido campo fértil para se espalharem como o vento. Os atos eleitorais dos últimos anos aí estão para comprovar como os tiranos e os ignorantes têm sabido manobrar as multidões e ser eleitos. Um livro é apenas um livro, mas mostra que a chanceler Merkel quer entender a parvoíce em que vivemos. Uma surpresa gratificante.

2) Manhã de outubro de 2019. Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico. A professora sobe a escadaria que conduz à sua sala de aulas, acompanhada de uma aluna, de entre os 8 e os 9 anos. No patamar intermédio das escadas, a janela entreaberta deixa entrar uma leve pena branca que poisa aos pés da professora. Ela apanha a pena branca, mostra-a à aluna, e diz-lhe, com ar sério, tratar-se da pena do seu anjo protetor. A miúda, com ar natural, encara a professora e dispara: – Ah!… Uma pena de gaivota! A professora corrige: – Não, não!… Uma pena do meu anjo!… Chegadas à sala de aula, a professora relata, divertida, o episódio à turma, mantendo a sua versão, e poisa a pena branca numa prateleira do material didático. Sem qualquer comentário. Num dia da semana seguinte, o Pedrinho, em plena aula, levanta-se e dirige-se à professora: – Viste o que deixei na tua mesa?Não – responde ela – o que foi?Mas, não viste mesmo?…Não, diz lá o que foi que me deixaste na mesa? – contrapõe a professora, já impaciente perante o mistério. Ao fim de mais uma insistente pergunta, o Pedrito revela: – Deixei, em cima do teu telemóvel, a pena do teu anjo da guarda que tinha voado para o recreio.

Amigo leitor, sei que uma pena de anjo (ou de gaivota?) não tem boa imprensa. Mas ela pode ser uma boa metáfora. Exposto como está à saturação de imagens, Sophia de Mello Breyner dizia que o nosso olhar avança como o turista desatento que «anota/ mas não vê». E José Mattoso, o grande Mestre-Historiador, fala da «incomensurável relatividade» que a escrita da história precisa de incorporar: «Não dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor». E o que a pequena história da pena branca naquela sala de aula me desafia a reconhecer é uma história de sensibilidade e, no fundo, uma história de amor: um instante de vida, um instante só, vale como ato educativo. E isso deixa-me esperançado relativamente a alguns professores e ao futuro da geração de Pedritos que está aí.

3) Hoje de 2019. Enquanto isso, lá fora, o mundo acontece no seu habitual ritmo sobressaltado, com guerras na Síria e em Israel, com o regresso das mortíferas manifestações na América Latina, com o acordo desacordado do Brexit, com os insultos inaceitáveis a deputadas no parlamento português, as primeiras de raça negra, e com a história local mal contada das responsabilidades sobre a demolição de uma edificação emblemática sobranceira a conhecida praia da nossa região. O meu saudoso professor da escola primária dizia que nunca se aponta o dedo a outros meninos para acusá-los de coisas mal feitas!

Muito menos se nós também temos responsabilidades! É feio acusarmos os outros e não assumirmos os nossos erros (houve decisões, prorrogações, aprovações entre 2016 e 2019)! E eu penso. Não deve faltar muito para que tudo mude para melhor outra vez…

Manuel da Luz | Cidadão algarvio