Pandemia na idade da globalização digital: o que nos diz a História?

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A Humanidade, desde os tempos mais remotos, tem vindo a conhecer várias doenças, epidemias e pandemias.

Desde a Antiguidade que se conhecem grandes epidemias e os números dos que capitularam perante as mesmas, apenas são conhecidos em virtude dos estudos dos historiadores e dos investigadores de vários ramos do saber, sobretudo para os séculos anteriores ao período de Oitocentos.

Isto é, a importância destes profissionais para transmitirem conhecimento é fundamental, sobretudo nestes momentos críticos, em que todos procuram saber o que no passado aconteceu; se existem paralelismos com outras doenças já conhecidas; como é que situações como estas foram ultrapassadas e quais as consequências que daí advieram para a Humanidade.

Comecemos pela mais conhecida e difundida pandemia que existiu: a Peste Negra.

A Peste Negra que vigorou durante duas décadas está centrada no século XIV, tendo causado uma mortandade superior aos 50 milhões de pessoas, tendo como transmissor um animal (o rato).

Não havia as condições de higiene/saúde que hoje existem (mesmo que não uniformizada ao nível de todos os países), nem a Ciência estava numa fase de evolução como existe hoje.

A Peste Negra.

Centremos pois as nossas atenções em Higiene/Saúde e Ciência.

Exemplificamos, seguidamente com a Cólera; a Tuberculose, esta causando mais de mil milhões de mortes entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX; a Varíola; a Influenza, que ficou conhecida pela Gripe Espanhola, esta tendo causado mais de 20 milhões de baixas entre a população mundial; o Tifo; a Febre Amarela; o Sarampo; a Malária e ainda há poucos anos o HIV, com mais de 20 milhões em todo o mundo. O conhecimento do que passou e os estudos seccionados sobre as calamidades do passado são fundamentais para termos padrões de análise e sugerir soluções.

Com o desenvolvimento da economia mundial e os ganhos obtidos com as transações comerciais seria espectável que houvesse mais recursos para a investigação e oportunidades para novos estudos, os quais associados à produção de meios direcionados para a população, os seus destinatários tivessem oportunidade de ter acesso aos mesmos.

O que temos vindo assistir em plena Idade da Globalização Digital é que, se por um lado, o acesso á Informação é generalizado, nem todos os países estão ao mesmo ritmo e no que se refere às redes sociais nem todas são de livre acesso em todo o mundo.

Aliás, os cidadãos até podem ter acesso, mas alguns conteúdos estão vedados.

Estamos pois a viver numa sociedade que tem dois pilares não uniformizados, estando um centrado no denominado Ocidente e outro na Ásia e Extremo Oriente.

A comunicação livre e, tantas vezes massificada, encontra-se no dito Ocidente e uma informação condicionada encontra-se no citado Extremo Oriente, sobretudo em áreas que não estão padronizadas e em sintonia com o Ocidente. O modelo que une estas áreas é a Economia, onde uns (o Oriente) produzem em alta escala para consumo de outros (os do Ocidente).

Na área da investigação, o Ocidente continua a ser o reflexo da inovação e da garantia de uma informação livre.

Por questões culturais e de regime, o Oriente tem feito um esforço para estar a par e passo com o Ocidente, apresentando os seus resultados quando o entende e sempre numa perspectiva de concorrência que tem deixado os ocidentais perplexos com tamanha inovação.

Nesta Idade da Globalização Digital deveríamos ter o mesmo padrão comunicacional e, com certeza, muitas das descobertas, seriam dadas a conhecer muito mais cedo.

Tal como Marco Polo, as noticias sobre o Oriente chegam tarde. Já não chegam a cavalo, nem numa carroça, mas apenas quando se entende serem tempo de as disponibilizar.

Tal como Vasco da Gama, que levava um ano nas suas viagens para regressar a Portugal, ainda é preciso trabalhar muito para estarmos todos (ou maior parte) no mesmo nível comunicacional.

Quando Fernão de Magalhães e outros navegadores e descobridores partiam para as suas viagens levavam consigo tradutores.

Foram fundamentais para a troca de informação entre os povos que encontraram e os membros das suas tripulações.

Hoje, esses tradutores deverão ser os investigadores que estudam o passado e nos dão a conhecer o que descobriram.

Para isso o investimento na Ciência (no geral) é fundamental.

Como é que podemos analisar fenómenos que vivemos sem termos o conhecimento pormenorizado e especifico do que a Humanidade já conheceu?

Estando confrontados com um vírus é novo, temos que ter a coragem de tomar medidas de salvaguarda da população.

Sendo desconhecido, mais vale pecar por excesso do que por defeito. Sobre esta situação ocorre-me a leitura de um livro impresso em 1581, da autoria de um jesuíta espanhol do século XVI, Baltazar Altamariano como título «Tractatus de Visitatione…» datado de 1581, no fólio 91, a respeito de uma visita a Sevilha que o vigário geral realizou a uma igreja no dia 3 de Fevereiro de 1578, tendo sido salientado por um dos seus paroquianos o seguinte: «(…) que por descargo de su consciência, y com zelo de aprouechar à la salud espiritual de su próximo, y por no caer en la censuras y descomunion (…)».

Numa outra conjuntura, é verdade e num outro tempo, esta expressão «salud espiritual de su próximo» pode muito bem adaptar-se ao momento que vivemos.

Devemos ter a noção de é preciso dar conhecimento da realidade, em tempo útil, para que aquilo que se considera nefasto e tenha mais tarde repercussões ainda mais negativas, não venha a acontecer.

Cabe a cada um de nós zelar por nós próprios e pelos outros.

O distanciamento social que nos indicam, esse resguardo é para que não coloquemos em risco a nossa vida e a dos outros.

É preciso não esquecer que um vírus desconhecido, os seus efeitos hoje podem ser muito nefastos como aqueles quando os espanhóis comandados por Cristóvão Colombo descobriram a América e que os indígenas não conhecendo determinadas doenças que os europeus levaram para o seu espaço civilizacional, deram o resultado que todos conhecemos.

Devemos ter presente uma imagem do filme do realizador Ridley Scott, com o título: 1492-Cristovão Colombo datado de 1992, que numa das cenas, quando os espanhóis pisam terra, que hoje pertence às Bahamas, se observa a presença de um rato a descer por uma corda.

A entrada dos ratos e dos vírus que os espanhóis transportaram para a América do Sul deu origem a catástrofe, pela simples razão que estes eram desconhecidos pela população indígena. As consequências levaram à ruptura da sociedade vigente e dos impérios locais.

Muitos salientam que hoje existe uma maior cooperação entre os países e que o princípio da subsidiariedade existe, sobretudo em caso de crises.

Mas quando o problema é global cada um tende a olhar para o seu espaço e só depois se direciona para o que está a acontecer no «quintal» do seu vizinho.

Trata-se, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, de uma pandemia que pode ter consequências devastadoras se não forem observadas rigorosas medidas ao nível do distanciamento social e da higiene individual.

Estamos, pois, em presença de um vírus anti-social que pode por em causa a Democracia e os valores democráticos.

Se a convivialidade, a liberdade de movimentos está em causa, então não estamos com alguns valores democráticos suspensos temporariamente?

A Lepra.

No passado (como ainda hoje em algumas zonas do Planeta) os princípios democráticos não eram vivenciados; os Direitos Humanos não eram respeitados.

Simplesmente não existiam nem estavam consagrados ao nível dos Tratados entre países.

Hoje, em regimes onde as Constituições não reflectem esses valores democráticos a interdição da mobilidade e a obrigatoriedade de recolhimento são mais fáceis de serem colocados em prática medidas extremas ou condicionantes do quotidiano da população.

Nas democracias ocidentais, obrigar que a população hiberne, mesmo que por algum tempo, apenas terá sucesso se a mesma interiorizar essa necessidade e por um período precário.

A cultura de comunidade em muitos países da Europa como em outros países, como os do norte da América.

Os governos tratam do bem comum, mas o individuo tende a pensar nele próprio.

Espera que seja o Estado a tomar conta das suas necessidades e não toma ele próprio as iniciativas para que as suas necessidades sejam concretizadas fruto enquanto membro da comunidade.

Em Portugal já fizemos um esforço nesse sentido, exemplificando com a implantação do Banco Alimentar; das equipas de rua para ajudar os sem-abrigo (um grupo que não tem casa para se recolher e pode ser infectado de forma exponencial através do contacto entre a sua própria comunidade numa interacção com outros cidadãos), entre muitas outras situações.

Com este novo desafio, colocamo-nos nós próprios à prova nesta nova situação.

É algo novo no nosso tempo, mas não é inédito na nossa História.

Por exemplo, quando os nossos reis mobilizaram os reinos de Portugal e o Algarve para as guerras da Independência, os nossos antepassados uniram-se, em comunidade, para fazer frente ao inimigo fronteiriço.

As armas distribuídas aos mobilizados eram outras das que hoje nos são indicadas (e não oferecidas) para fazer face ao desconhecido inimigo.

As armas que hoje estão convencionadas para debelar o intruso, são o álcool e as máscaras. O combate, esse é feito em casa. A estratégia militar também está a sofrer alterações com o COVID-19.

Tradicionalmente quando uma comunidade está em guerra, os mobilizados conhecem o inimigo, defronta-o sabendo quem é e num terreno aberto.

As armas são-lhe disponibilizadas sem que as tenha de adquirir. Neste caso os mobilizados (a população, em geral), adquirem as armas que em tempo de paz tinham um preço simbólico (o álcool, por exemplo, um frasco de tinha o preço de 1 euros, ou até menos) e atualmente uma frasco de álcool etílico de 250 ml a 70 por cento apresenta valores, em farmácia, acima dos 5 euros) e quando é concebido na própria farmácia está a ser comercializado (álcool Gel de 100 ml a 80 por cento) a 10 euros.

Uma encomenda de álcool gel Glow Sangool de 500 ml, fabricado na própria farmácia, apresenta o valor de 29,90 euros.

Estamos em presença de armas que para além do stock estar esgotado, os mobilizados para se auto-protegerem (e combater ao inimigo) têm que as pagar.

De qualquer modo, temos todos de estar do mesmo lado da trincheira (isto é permanecer em casa) e a combater algo novo.

Com esta nova epidemia, as oportunidades de melhoria nas áreas da Saúde e da organização social das populações devem constituir factores a ter em linha de conta para os nossos governantes.

As populações vão tornar-se mais exigentes na salvaguarda dos seus direitos, sobretudo ao nível dos cuidados de saúde.

E se não formos nós a tomar a iniciativa, outros países irão fazê-lo e Portugal terá, por exigências da população, de os adoptar.

Não faz sentido, um trabalhador ter de contribuir para a Segurança Social; ADSE e outros sistemas de saúde como muitos associados a categorias profissionais e simultaneamente ter que se associar a subsistemas de saúde privados atendendo que para aqueles que é obrigado a descontar não lhe dá a resposta às suas necessidades.

Não será mais exequível termos opção de escolha e responsabilizarmos pelo nosso bem-estar sanitário?

Nos Estados Unidos da América (EUA) não existem sistemas sociais de saúde e as valências estatais que existem são residuais. Todos têm que ter um seguro de Saúde.

Perante o estado de emergência nacional recentemente decretado pelos EUA, estamos expectantes como se comportará o sistema privado de saúde norte-americano e se o mesmo tem capacidade de resposta perante esta pandemia.

A História também nos ensina que após o desaparecimento destes surtos, a realidade até então vivida vai ser alterada. Teremos que repensar comportamentos, atitudes e procedimentos.

Os governos terão que equacionar medidas que correspondam aos efeitos deixados pelo surto.

A pulga do rato.

A aposta numa comunicação entre decisores e destinatários terá que ser mais esclarecedora e eficiente.

Nos séculos passados a comunicação fazia-se com muito tempo espaçado entre as várias realidades espaciais.

Hoje, a sociedade digital não se conforma com informações a tempos desiguais e conceitos que contribuem para a iliteracia das populações.

A sociedade, no geral, está envelhecida, mas mais exigente.

Os estratos populacionais actuantes e fazedores do futuro têm hoje um conjunto de ferramentas que fazem com que nós nos adaptemos mais rapidamente às contrariedades e vicissitudes não expectáveis.

Os nossos antepassados quando queriam que algo fosse alterado não tinham as competências que hoje desfrutamos.

Será pelo conhecimento que as alterações que aí vêem serão operadas.

Os Diários de Bordo das tripulações dos séculos XVI e XVII para além de nos darem a conhecer o que se passa abordo das respectivas embarcações também nos dão a conhecer o que essas tripulações viram, testemunhando essa evidência com materiais que de longínquas paragens existiam, quando não com as próprias pessoas que transportavam no regresso a casa.

Hoje, temos a Internet e a constante evolução tecnológica que nos dá para além do texto, a imagem.

Tudo muito diferente no passado.

Contudo, ainda falta muito para ultrapassarmos barreiras, onde a principal dificuldade se centra ao nível da cultura e da consciência crítica.

A História ensina-nos como os nossos antepassados ultrapassaram as suas adversidades.

Naturalmente se tivessem os meios que hoje existem, teriam percebido muito mais depressa que o que acontece a norte pode caminhar para o sul, assim como o que o que aconteceu a este é transversal e poderá chegar a leste.

Com os números conhecidos da mobilidade humana dos nossos dias, o que hoje vivemos seria atempadamente previsível.