Os «Algarvios» e os «Outros»

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Pensávamos ser o Algarve de todos quantos cá vivem, assim como daqueles que, simplesmente, visitando-o, enquanto por cá estivessem. De repente, contudo, ouve-se falar dos «algarvios», sabendo da pandemia corrente, disciplinadamente, autodefender-se, e dos «outros», quais selvagens, que virão de fora infetá-los, havendo que caçá-los, puni-los e expulsar de imediato.

Assim como dos «migrantes» a ter debaixo de olho, esses mesmos «migrantes» que fazem aquilo que, não raro, não queremos fazer, como limpar WCs em centros comerciais ou apanhar fruta nos campos, depois saboreada à nossa mesa. Um autoproclamado «algarvio», enraivecido, gritava na fila de um supermercado: «os filhas da p… dos chineses, como se já não lhes bastasse terem rebentado com todo o nosso comércio, querem agora matar-nos com o vírus!».

Como se não houvesse «algarvios» a frequentarem-lhes, sem haver obrigação disso, os estabelecimentos ou a implorar agora que eles, chineses, forneçam o material médico de que precisam e que, nomeadamente, no Algarve não se fabrica, limitado que se tem, praticamente, à exploração de sol e praia.

Numa pandemia em que nos devíamos sentir, mais do que nunca, irmanados no combate à mesma, sem distinções algumas, eis, pois, que não se resiste à catalogação e discriminação, ao populismo e demagogia, com os bons a sermos «nós» e os maus os «outros».

De resto, quem será mais «algarvio», alguém que cá tendo nascido, um dia, porém, rumou para outro lugar e só cá vem de tempos a tempos, quando vem, ou quem, ainda que nascido fora do Algarve, para aqui veio viver e criou raízes? Ou, se se quiser, o que será, afinal, ser-se ou não «algarvio»?

Em tempo de crises como a agora atravessada, em que se o melhor do ser humano tenderá a vir ao de cima, não faltará, igualmente, o pior e o mais mesquinho dele a emergir, será de relembrar o filósofo Sócrates, quando este, há já milhares de anos, dizia: «não sou ateniense, nem grego, sou um cidadão do mundo».

Entretanto e a propósito, seja-nos permitido terminar, transcrevendo, com a devida vénia, o belíssimo texto de um jovem nascido no Brasil, mas estudando em Portugal, de seu nome Pedro Sampaio Minassa, tempos atrás publicado no jornal Público e encontrado na web:

«Num desses dias dei por mim a ler as frases nas paredes do metro de Lisboa. A que me fisgou, naquela ocasião, dizia assim: Não sou ateniense, nem grego, sou um cidadão do mundo (Sócrates). Aproveitei o tempo de espera até à chegada do comboio para refletir. Foram exatamente sete minutos que acabaram rendendo um ensinamento para o resto da vida. Qual a razão para Sócrates dizer que não era ateniense nem grego? Relatos históricos confirmam a sua naturalidade. Por que razão Sócrates se dizia cidadão do mundo se, à sua época, o meio de transporte disponível o teria levado, quando muito, apenas a algumas milhas de Atenas? Coloquei-me na posição do sujeito daquela frase: Não sou capixaba, nem brasileiro, sou um cidadão do mundo.
Interessante como a boa filosofia é imortal. Consegue eternizar-se nas palavras. Sócrates esteve ali, naquele dia, de alguma forma, do outro lado da plataforma. Sentado, dialogou comigo, um estudante qualquer de um país que sequer pensou um dia existir. O que Sócrates me disse, enquanto esperava pelo metro, dissipou até a minha angústia da saudade de casa. O filósofo foi ateniense, mas não, não era ateniense, pois, embora natural daquela cidade, não pertencia à mesma. Atenas não possuía Sócrates, ele tão-pouco possuía Atenas. Sócrates foi grego, mas não era grego. Não era da Grécia, nem a Grécia era dele.
Ser cidadão do mundo é não ter fronteiras dentro de si. É ser um, com o mundo, e o mundo estar um, em ti. É romper os obstáculos de línguas, culturas, raças e etnias. Para ser verdadeiramente cidadão do mundo, disse-me o filósofo, era preciso sentir-se em casa. Estar em casa não aqui, nem ali, mas em toda e qualquer parte do mundo.
A liberdade consciente é o elemento fundamental da nova onda de cidadania global, que consiste em ser-se semente e não árvore. Sentir-se bem onde estiver e por onde for porque, se o mundo é uma casa, em nada comum, é, em tudo, comunitária. Quando nascemos nesta casa, invariavelmente, imaginamo-nos a morar para sempre num dos seus quartos, e esquecemo-nos da existência de tantos outros a compor, no fim, o mesmo lar.
Em momento algum, Sócrates me orientou a esquecer a minha pátria. Pelo contrário, incentivou-me à reflexão de que para ser cidadão do mundo é preciso transpor as distâncias que separam os quartos. Não é omitir as origens, é sim enxergar as verdadeiras origens, pois elas são comuns à própria casa. Ser cidadão do mundo é ser feliz mesmo longe de tua cidade, é fazer do teu país, a felicidade. Depois daquele dia, o meu passaporte de vida já não distinguia mais o lugar onde nasci dos lugares por onde passei. Os carimbos que então colecionava, agora tornavam-se um: cidadão do mundo».

Luís Ganhão | Jurista