Obrigado, Ilídio, por tudo o que nos deste

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Morreu o Ilídio Poucochinho. Há partidas para o outro lado da vida que excedem o domínio pessoal, pois se configuram como uma experiência de perda coletiva.

Morreu o Ilídio Poucochinho. Normalmente, a partida de uma pessoa para o outro lado da vida tem uma dimensão pessoal e conjuga-se no singular; diz respeito à nossa pequena história, afetando essencialmente os familiares.

Mas há partidas para o outro lado da vida que excedem o domínio pessoal, pois se configuram como uma experiência de perda coletiva.

Escutando o lado público do Ilídio, percebemos como a sua partida teve para muitos de nós essa natureza.

Quando morre uma pessoa como o Ilídio, o que aconteceu é que uma certa ideia de praticar a cidadania morreu com ele.

Pois, nele, os cidadãos de Portimão reconheceram uma sabedoria, uma verdade onde encontraram um modo humano de estar na vida e na cidade, com um raro sentido de humor, intuitivo e natural. Portimão, sem o Ilídio, vai ser outra cidade.

O Ilídio tinha uma rara capacidade de cuidar da ideia de comunidade, sobrepondo o contributo do bem comum aos interesses particulares.

O Ilídio era também um político mas viveu sempre à margem das pequenas intrigas, das pequenas lutas de poder que fazem a vida dos partidos e dos políticos ambiciosos. E foi sempre leal, mesmo não escondendo diferenças no entendimento de certas opções.

O Ilídio Poucochinho fez-me o favor de EU SER AMIGO DELE. E tive dois momentos particularmente saborosos com ele.

Em 2017 e 2018 publiquei dois livros. Tive o prazer de convidá-lo para desempenhar a função de pivot nas respectivas cerimónias de apresentação pública desses livros.

Após expressar algumas breves dúvidas («Eh! Pá!… O que é que eu tenho de fazer?»), o Ilídio disse que aceitava e a sua voz tranquila deu um contributo essencial para que tudo tivesse corrido bem. Foi no Museu de Portimão, lembram-se, os que lá estiveram? O Ilídio era assim: grande disponibilidade para ajudar.

Começo já a sentir a falta do homem, do ser humano, da personagem na cidade. Do sorriso ágil de pássaro que tudo observava com discrição e guardava para si.

Quem conheceu o Ilídio Poucochinho ouviu-o certamente rir e sorrir muitas vezes: com os outros, consigo mesmo, com as histórias que contava, com as suas curiosidades, as suas manhas de contador, e o seu mel travessamente imaginado.

E recordará para sempre essa associação entre alegria e sagacidade, entre aquela extrema simplicidade/inocência que nos surpreende nos muito sábios e aquela inimitável ironia que nele era também um modo de maturação e de juízo.

Por isso, meus amigos, a imagem dele a rir-se vai acompanhar-me por muito tempo. E penso que estará já a preparar-se, no outro lado da vida, para aí vender o mel da única abelha que dizia possuir.