O Museu de Traje e os sinais da decadência dos museus em Portugal?

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Os sinais da decadência dos museus em Portugal têm-se vindo a acentuar de forma acentuada ao longo dos anos da Pandemia. O caso do Museu do Traje de São Brás é um exemplo paradigmático.

Temos notado algumas referências ao caso na imprensa regional, com escasso destaque nos canais nacionais, sendo particularmente relevante o silêncio das organizações representativas dos museus e dos seus profissionais.

A Associação Portuguesa de Museologia (APOM) pela voz do seu presidente João Neto tem procurado intervir de forma construtiva resolver a polémica, grave porque afeta diretamente a capacidade de ação do museus e tem confrontado o seu diretor com questões complexas.

O sinal de alerta data já de junho, tendo o atento José D’ Encarnação dado o grito «Salvem o Museu», acompanhado dias depois pela sempre atenta Dália Paulo.

Os silêncios são muitos e chocantes. Da parte do ICOM nada surgiu.

Poderíamos pensar-se que as férias desviaram as atenções.

Apesar da relevância da querela sobre a gratuitidade das entradas dos profissionais de museus nas exposições temporárias dos equipamentos públicos, mais um sinal da decadência, o caso de São Brás parece estar ausente da sua agenda.

Talvez um sinal do seu elitismo desbragado. Emanuel Sancho parece estar fora do círculo dos amigos.

Mais chocante ainda será a ausência de posição pública do MINOM Portugal. Emanuel Sancho foi presidente desta Estrutura Afiliada do ICOM, salvo erro, em vários mandados (2008-2018), tendo o Museu do Traje de São Brás de Alportel acolhido relevantes iniciativas da Museologia Social, algumas das quais com referências internacionais.

A ausência duma posição pública é sintomático da decadência da museologia social em Portugal, após este decénio alimentado a partir das iniciativas algarvias, em parte apoiadas pelo Alentejo rural.

O que contam nestes casos são os abraços de solidariedade que Emanuel Sancho merece, e o apoio que o seu museu poderá recolher nesta fase difícil, confrontado que está na demonstração da sua relevância do seu trabalho em São Brás e para os museus portugueses.

Porque sendo uma rede não deveriam ser todos solidários, quando uma unidade é afetada?

Eu abraço-o e clamo à solidariedade de quem possa ser solidário.

A questão de fundo, segundo consegui entender, resume-se em poucas palavras.

O Museu do Traje de São Brás é tutelado pela Santa Casa da Misericórdia. Está em jogo a sua autonomia e liberdade, face a uma nova Mesa da instituição.

A forma atual foi a solução encontrada nos inícios dos anos noventa do século passado, quando forças locais, animadas pela dinâmica do desenvolvimento local do Barrocal e da Serra do Caldeirão, ancorados num rede de animadores culturais locais, propuseram a criação de um «Centro Cultural» no espaço do velho casarão herdado pela instituição.

Configurou-se na forma de museu, numa proposta de renovação da figura institucional, acolhendo as iniciativas da comunidade, servindo a comunidade através do trabalho sobre a sua memória.

Pela sua obra ganhou relevância e dimensão internacional. É esse relevante papel que a nova mesa contesta, com a legitimidade do exercício do mandato, mas eticamente inaceitável.

A ação intentada assemelha-se mais a um «domesticação» da ação do museu para propósitos que lhe são externo, onde naturalmente não escapam a leituras sobre reposicionamento dos atores locais com objetivos de poder mais complexos no jogo autárquico local.

Peneirando, o sinal que se percebe é que mais uma vez se escuta «voz do dono» a domesticar a iniciativa local do museu.

O objetivo é torna-lo num instrumento dócil do poder político dominante.

As externalidades dos museus são sempre difíceis de contabilizar.

As vistas curtas levam sempre a insistir nas soluções do passado, que sabemos circunstanciais e predatórias.

Assistimos há décadas a transformação da paisagem, social e natural, do barrocal e serra do algarve. Todos conhecemos bem o que se passa no litoral, mas este museu, neste território sem costa, procura olhar para o seu território no tempo presente.

É um museu com vida!

O museu busca as dinâmicas de transformação. Agora pedem-lhe se torne num museu do passado, dócil e obediente.

Se este museu não continuar entender as oportunidades de enfrentar os desafios sociais ficará igual a tantos outros lugares patrimoniais, mortos, feitos de exposições retratos idealizados dum passado sem vida, alimentados por curadores de ocasião que alimentam egos locais.

Por isso falo na decadência dos museus portugueses, que continuam com dificuldades em encontrar e demonstrar a sua relevância na sociedade. Antero de Quental, nos idos de 1871, conferenciou sobre as «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares».

Eram, de acordo com o seu pensamento positivo, e se a memória não me falha, três as principais causas: religiosas, políticas e económicas.

Religiosas, porque o pensamento inquisitorial tinha toldado a criatividade renascentista; Políticas, porque o centralismo tinha aniquilado a dinâmica dos concelhos; e económica, porque o atavismo do tráfico negreiro (da rapina dos descobrimentos) tinha feito minguar o viveiro comercial nas cidades criativas.

Ao evocar o poeta Antero ao fim de cento e cinquenta anos, temos que dar algum contexto a esta geração, chamada de 70, onde com olhos nesse tempo, se propôs, com diferentes resultado, renovar a vida cultural da pátria.

O pensamento positivo, de busca das causas primeiras como processo determinista de avaliar as consequências (o real observado no tempo), era nessa altura uma forma de pensar emergente, (hoje damos-lhe o nome de estrutura mental) que entretanto se tornou dominante nas universidades.

Também o tema da Decadência era na época moda. Na Literatura e na História: Alimentou por um lado o romantismo literário tardio; e as leituras sobre a marcha para o progresso (civilização) que Arnold Tonybee cristalizou.

Herculano e Martins encarregaram-se de lhes dar relevância, numa escola que teve algum sucesso entre nós nos alvores da república.

Mas vamos aos sinais. No meu ponto de vista estão lá todos os sinais. A nova religião, evocando a sustentabilidade económica, evoca o dinheiro que não entra na caixa do museu, tolhendo a sua autonomia, cerceando a sua liberdade, centralizado a decisão, e condena o museu a um estado vegetativo, Letárgico!

A menos é claro que se curve às lógicas predatórias do turismo e do poder circunstancial deste tempo e das agendas dos seus atores, transformando-se num outro objeto. E o trágico é que estes sinais são comuns a atores, transformando-se num outro objeto. E o trágico é que estes sinais são comuns à maioria dos outros museus em Portugal.

Sinais num país que se indigna perante a fragmentação dos seus objetos patrimoniais e permanece incapaz de enfrentar a grande transição que a complexidade no mundo nos exige nestes tempos de cólera.

PS: Também não será surpresa os silêncios sobre estas questões nas universidades que cultivam os estudos críticos do património. Serão também sinais de decadência?