O espectro da deflação na Europa

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Parafraseando Karl Marx, «há um espectro que assombra a Europa: o espectro da deflação».

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) reportou que nos últimos cinco meses do ano de 2020, a inflação média na Zona Euro foi negativa.

Ao contrário da habitual subida dos preços, os mesmos desceram: a este fenómeno dão os economistas a designação de deflação.

A causa mais evidente para este efeito é a vertiginosa redução da procura agregada decorrente da pandemia de COVID-19, que impactou de forma significativa as economias europeias, levando-as todas para terreno negativo em 2020.

A acompanhar esta redução da atividade económica encontra-se também uma pressão duradoura para a baixa dos preços do petróleo, que auxilia na queda dos preços.

O aparecimento destes efeitos deflacionários é preocupante, especialmente quando são conhecidos os esforços contínuos do Banco Central Europeu (BCE) no seu programa de compra de ativos, e de redução das taxas de juro para terrenos negativos, que teoricamente deveriam empurrar os preços para valores positivos.

A política monetária agressiva dos últimos anos deixou o BCE sem grande capacidade para contrariar a tendência deflacionista.

Se a inflação consiste na subida generalizada dos preços, e a deflação, o seu contrário, não seria esta uma boa notícia? Não seria a descida dos preços numa economia um bom sinal?

A deflação é notoriamente reconhecida pelos economistas como um processo pernicioso, podendo originar processos retroalimentados de redução de procura agregada: uma descida generalizada nos preços origina uma redução na produção, o que leva a descida de salários e nova redução na procura, o que por si leva a nova redução nos preços, e por aí adiante.

A deflação é particularmente perigosa no contexto de pandemia que vivemos; a redução da atividade económica introduziu um elevado grau de incerteza na economia; os consumidores adiam as suas decisões de consumo e as empresas adiam investimentos, mesmo com a reduzida taxa de juro verificada.

Embora se possa verificar algum aumento de poupança, a verdade é que a mesma não é reinvestida na economia, dada a ausência de oportunidades de investimento.

O adiamento de decisões de investimento por parte das empresas tem impacto na criação de emprego e na sua produtividade a longo prazo, sendo muitas empresas forçadas a despedir trabalhadores, dado a sua estrutura ser incompatível com o nível de atividade.

A deflação tem ainda um outro efeito nefasto, que se traduz no aumento dos pesos das dívidas.

Se uma taxa moderada de inflação permite «mordiscar» os níveis de dívida (se os preços dos ativos aumentam no tempo a um ritmo maior do que o juro, a dívida em si reduz-se ao longo do tempo), a deflação tem o efeito contrário, aumentando o endividamento ao longo do tempo, visto que os preços dos ativos diminuem em relação à dívida.

Ora as economias europeias têm níveis relativamente elevados de dívida pública e privada, especialmente no que toca aos países do sul.

Não obstante o crónico endividamento dos países do sul da Europa, é também factual que o combate à COVID-19 implicou uma política expansionista em toda a Europa, tanto em termos de investimentos na saúde, como em termos de medidas de proteção de emprego e de auxílio de empresas, que empurram os níveis de dívida para lá dos 60 por cento de dívida pública em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), preceituados no Pacto Fiscal Europeu.

O aparecimento da deflação poderá tornar mais difícil a gestão desta dívida, com consequências desastrosas de longo prazo para a economia europeia.

É certo que se espera que estas políticas expansionistas, associadas aos novos pacotes de investimento europeus, possam ter efeitos inflacionários que compensem propensões deflacionárias, mas requer-se às empresas europeias que assumam igualmente um compromisso em prol do investimento e do emprego, que simplesmente não se vislumbra enquanto a pandemia continuar.

A pandemia de COVID-19 é o dominó que desencadeou um processo deflacionário com consequências ainda imprevisíveis para uma economia europeia que padece de reduções aflitivas de PIB, níveis crescentes de dívida pública e políticas monetárias de juros historicamente baixos que, ainda assim, não impelem os níveis de investimento.

O espectro da deflação assombra a Europa com cada vez mais terror.