O Algarve tem um rosto

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Hoje o Algarve tem de novo um rosto e uma voz. Cristóvão Norte é o Senhor Algarve.

Recordo com saudade intensas guerras intestinas vividas por dentro do Partido Social Democrata (PSD) no Algarve em que, pertencendo eu a uma jovem geração de «jotinhas», víamos Joaquim Manuel Cabrita Neto, o «patrão» do Algarve, como uma personagem ultrapassada pelo tempo, um arregimentador de massas, à boa maneira caciqueira de antanho.

Ele era o homem do aparelho, o Governador Civil, o presidente distrital do PSD, o líder da Associação dos Industriais Hoteleiros e Similares do Algarve (AHISA), o empresário e filho de empresário, o eterno candidato a deputado, o «único homem que entrava no gabinete de Cavaco Silva, sem pedir autorização», o Senhor Algarve.

E por isso, nós, com alguma rebeldia, víamos Mendes Bota como alguém mais liberal, solto, jovem e mais próximo de nós. Lembro-me de Cabrita Neto estar afastado por doença e terem sido os restantes elementos da direção distrital do PSD a preparar tudo o que respeitou a feitura de umas listas de candidatos à Assembleia da República.

Meses após esse afastamento, na sua primeira reunião partidária, eu e o companheiro Fernando Viegas fizemos Cabrita Neto enfurecer-se por um qualquer pretexto, hoje irrelevante, ao ponto de quase lhe dar um enfarte em plena reunião…

Gostássemos ou não, ele era mesmo o Senhor Algarve e em todo o país ele era escutado. Em boa verdade, Mendes Bota, José Vitorino ou Cristóvão Norte (pai) no lado do PSD ou Luís Filipe Madeira no Partido Socialista (PS) ou Carlos Brito no Partido Comunista Português (PCP) foram (são) rostos fortes do Algarve.

Com personalidade, têmpera e fibra. Muitas vezes causando discórdia, mas sempre escutados. A Universidade do Algarve, a única que a Assembleia da República obrigou o governo a criar, é um exemplo da determinação destes rostos.

E hoje?

Gostemos ou não, há sim, um rosto. Uma petição com mais de dez mil assinaturas pela criação do curso de Medicina no Algarve – hoje reconhecido internacionalmente; a rutura civilizacional que representa o atual estatuto civil dos animais; a batalha pela redução do preço das portagens na A22; a luta pela decência nos impostos sobre os combustíveis; a defesa do Hospital Central do Algarve. Estas causas têm um rosto associado, uma voz do Algarve.

Como os da geração anterior, não vamos concordar sempre com ele. Isso faz parte de quem não é alforreca nem plasticina. Gostamos ou discordamos, mas reconhecemos clareza, coragem, convicção e, sobretudo, honestidade intelectual.

Ter convicções e assumi-las, significa correr riscos. Quem toma posição em situações de escolha, pode não acertar no resultado, mas quando as posições são assumidas por quem não é cobarde – sem ser arrogante, por quem é destemido – sem ser temerário, por quem é convicto – sem ser convencido, por quem é assertivo – sem ser arrogante, aqueles que estão de boa fé aplaudem!

Gosto de aplaudir o deputado Cristóvão Norte. É verdade que tenho tido a felicidade de com ele concordar a maioria das vezes, mas testemunho que outros que com ele discordam amiúde, gostam também de o aplaudir. Também já discordei frontal e lealmente dele.

Recordo um episódio em que, fazendo parte da sua equipa disse-lhe frontalmente que estava contra a sua posição.

E ele pediu-me: «vota como quiseres, mas peço-te que quando acabar a reunião assumas comigo o resultado e me ajudes defendê-lo».

E assim fizemos. Sim, quando percebemos o objetivo maior e quando reconhecemos as qualidades e a vontade positiva do nosso líder, podemos – devemos – estar com ele quando internamente já definimos o rumo.

Hoje o Algarve tem de novo um rosto e uma voz. Cristóvão Norte é o Senhor Algarve.

Tiago Botelho | Economista, militante e ex-dirigente distrital do PSD Algarve