Miopia ou simplesmente cegueira?

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Li e reli o texto de Fernando Silva Grade, com o título «As vistas de Olhão» e decidi alinhavar estas linhas, não tanto para responder ao cidadão, mas para recordar e desmistificar ideias (serão mentiras! Medos! Desejos escondidos!) que o ilustre articulista debita.

Os olhanenses mais velhos ainda se recordam como Olhão era conhecida pelo mau cheiro, por ser o bairro industrial de Faro e pela expressão corrosiva de «porta sim, porta não…».

O que algumas pessoas ainda não perdoaram é que Olhão se tenha libertado desses epítetos e seja hoje o nono destino português recomendado pelo site tripadvisor.

O que algumas pessoas não perdoam é que a zona histórica e a malha urbana em geral esteja, desde há anos, talvez 15 a 20, protegida de construções de mamarrachos, depois de vicissitudes para esquecer ou recordar no baú da história e que a sua recuperação esteja a acontecer, não só nos largos como nas casas, que adquiridas na maior parte por estrangeiros que colocam na sua recuperação, sob a sindicância da Câmara e muitas vezes da Direção Regional da Cultura, um particular carinho e bom gosto, recentemente elogiado num programa de televisão.

O golpe baixo de referenciar casos de urbanismo inqualificável não os datando no tempo e deixando pairar a ideia que esses erros se prolongaram no tempo e ainda hoje acontecem, raia a desonestidade intelectual.

O que algumas pessoas não sabem é que o aproveitamento parcial do plano de água entre o cais de embarque e o hotel, pode e irá potenciar o desenvolvimento da economia turística em Olhão, como aliás já vem acontecendo desde a construção do Hotel Real Marina.
Por muito que custe a alguns iluminados, a história não para e Olhão não é mais o bairro de Faro. É antes, e pelo contrário, o local onde muitos não olhanenses vêm degustar o bom peixe, o bom marisco.

Temos pena, mas os saudosistas ficam sempre à beira da estrada, carpindo as mágoas e anunciando desgraças. Está, aliás, hoje muito na moda política o anúncio diário de pragas e flagelos quase bíblicos e candidatos a Moisés pululam. Às vezes, faz-me lembrar a aldeia do Asterix cercada de romanos e com o céu a lhes cair em cima, mas eles, lá se vão aguentando. É a Vida! Ou como diria o outro: «é a economia, estúpido!»

Como eu recordo, o coro de desgraças que se entoavam por causa dos campos de golfe que iriam destruir a fauna, nomeadamente a galinha da água! Basta visitá-los e verificar-se-á que «o medo, o diabo e a desgraça anunciada» não se concretizaram.

É fácil, para manipular a opinião pública, pedir emprego e desenvolvimento económico às segundas-feiras, e às terças e quartas protestar contra as marinas, os hotéis e os turistas!

Começa o articulista, no seu texto, por lamentar que Faro não possa crescer para a Ria por causa do caminho-de-ferro, mas, em Olhão, onde esse óbice não existe, repudia o crescimento virado para a Ria.

Afinal em que ficamos? Afinal o que queremos mesmo?

Maldizer, assustar, dar brilho ao nosso intelectual umbigo, ou contribuir para o progresso, para a economia e para o emprego, ainda que correndo sempre risco de errar aqui ou acolá, de confrontarmo-nos com exageros quer em nome da economia, quer em nome do ambiente.

Viver e governar é fazer escolhas e correr riscos!

Por isso estas opções são sempre apreciadas nas sessões de Câmara, nas Assembleias Municipais, nos organismos estatais (vários, às vezes excessivos) e pelo povo em geral na rua, se necessário.

Veja-se o movimento dos «Ilheús» contra as demolições nas ilhas!

É gente que não se perde a degustar croquetes e bolinhos de bacalhau em vernissages muito charmosas e cheirosas.

Felizmente, em Olhão mandam os que cá estão, e em frente iremos, com prudência, claro! Com reflexão sobre os erros cometidos pelos outros e por nós, mas o passado não condicionará o nosso futuro comum, pelo contrário, orientará.

À beira da estrada a carpir é que não, ou não seja Olhão, a nobre Vila da Restauração, terra de mareantes e da canção de Zeca Afonso «Óh, Vila de Olhão, amiga do povo, madrasta é que não»

PS – Aproveito o ensejo para homenagear o grupo Íris, sedeado na Fuzeta, concelho de Olhão, pelo seu percurso artístico, ressaltando aquele refrão que ficou famoso «Moce, vai dar banho ao cão»…