Ler em Férias?…

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1) Ao chegar a esta altura do ano, surgem-nos, de diversas proveniências, as mais variadas sugestões de leitura para férias. Não sei se serão de grande utilidade. Quem está habituado a ler ao longo do ano não precisa de recomendações.

Quem, por razões profissionais, passa o ano a fazer leituras obrigatórias julga que, nas férias, poderá recuperar outro género de obras sempre adiadas. Para quem não adquiriu a paixão dos livros, não vai ser nas férias que a vai ganhar.

Entretanto, um estudo recente do Pew Research Center, avança alguns números preocupantes sobre a leitura. Cerca de 33 por cento dos americanos que terminam o ensino secundário nunca mais leram um livro até ao fim da vida.

Ficámos também a saber que 42 por cento dos licenciados jamais leram um livro depois da faculdade e que 70 por cento dos adultos norte-americanos não entraram numa livraria nos últimos cinco anos. Num estudo similar regista-se que 80 por cento das famílias norte-americanas não compraram nem leram um livro em 2018.

Assiste-se, um pouco por todo o mundo, a «uma certa desvalorização do livro» no conjunto dos estudos sobre consumo de bens culturais. Estima-se que a queda do mercado do livro, em Portugal, se situe entre os 20 e os 30 por cento nos últimos cinco anos, o que tem obrigado os editores a manobras de gestão.

Neste clima, percebe-se como é que um livro chega ao «top semanal» com cerca de 300 exemplares vendidos, quando há cerca de 10 anos precisava de atingir a meta dos mil.

É claro que existe o festim do digital. Nas viagens de comboio e de metro as mãos raramente estão ocupadas com livros ou com jornais. Um pequeno objeto pode ser usado para acesso à Internet, à visualização de fotos, vídeos, leitura de livros, jornais, revistas e, ainda, jogos para entretenimento.

Aparentemente, os hábitos de leitura não só não se perderam como até se intensificaram e aumentaram os «escritores».

As mãos estão sempre ocupadas a receber e enviar mensagens. A Internet e as suas redes até possibilitam o acesso a bibliotecas inteiras. Mas é preciso recordar que a edição de livros em formato digital nos EUA, Reino Unido e França – onde existem estatísticas nessa área – registou uma descida acentuada tanto em valor como em número de exemplares vendidos.

2) É hoje impossível mascarar a crise da leitura, um pouco por toda a parte. No que ao nosso país diz respeito, é cada vez mais necessário que os responsáveis do sistema educativo compreendam até que ponto a iliteracia cultural entrou nas escolas, apesar de insistirem na «vitalidade» das suas instalações, das suas bibliotecas e dos seus «planos de atividades».

Aliás, a linguagem oficial sobre leitura é cada vez mais penosa, mais redonda, enfadonha e desligada da realidade.

Não se percebe, hoje em dia, a existência de uma orientação estratégica eficazmente responsável pelo que deveria ser a leitura pública e o fomento da leitura em ambiente escolar. E é necessário que se diga que isto acontece apesar do esforço e dedicação de muitos professores ainda não contaminados pelo linguajar oficial.

Acresce que os programas de televisão sobre livros (se é que existe algum rigorosamente dedicado aos livros!) passam a horas impróprias, parecendo estar arrumados de modo a desmotivar eventuais interessados.

Mais. É possível passar pela adolescência sem ter lido três ou quatro romances do cânone literário nacional. Pior: ninguém consegue identificar uma estratégia política que traduza preocupação pelo «estado das coisas», que compreenda o papel central que a leitura e o livro ocuparam na nossa cultura e na nossa história.

3) O jornal espanhol «El Mundo» reproduzia, há tempos, uma afirmação, produzida pela Sociedade Espanhola de Neurologia, que vale a pena recuperar: «Enquanto lemos, forçamos o nosso cérebro a pensar, a ordenar ideias, a relacionar conceitos, a exercitar a memória e a imaginar, o que nos permite melhorar a capacidade intelectual estimulando os neurónios.

Além disso, a leitura também gera tópicos de conversação, o que facilita a interação e as relações sociais, outro aspeto importante para manter o nosso cérebro exercitado».

Somos filhos do livro. Os nossos livros de criança eram objeto de veneração. A verdade saía a cantar desses livros. O poder encantatório das palavras escritas constitui a matriz ancestral que, desde muito cedo, nos faz inteligentes, ou seja, ligados, conectados a outros seres humanos.

Há livros, alguns, pelo menos, que melhoram a alegria de viver. É, por isso, urgente convocar autores, leitores, editores e livreiros para que os decisores políticos compreendam e atuem.