Lagos e o 27 de outubro

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Se observarmos bem a razão da escolha dos feriados municipais, apenas sete municípios do Algarve comemoram datas históricas. As restantes estão associadas à hagiografia da Igreja Católica.

Foi nos séculos XVI a XVIII que o Algarve conheceu um maior número de terras elevadas a cidade. Localidades importantes como Aljezur, Castro Marim, Lagos, Loulé, Tavira, apenas para citar alguns exemplos, detêm documentação que nos indica a respetiva importância na construção de Portugal.

Comemora-se no dia 27 de outubro de 2015, 44 anos que o município de Lagos festeja o seu feriado municipal (Decreto 517/71 de 23 de novembro). Contudo, a sua elevação a cidade, no dia 27 de janeiro de 1573, aconteceu há 442 anos, no reinado de D. Sebastião, associando-se este facto histórico a circunstância de ter sido a única localidade, durante o seu reinado (1557-1578), a usufruir de tal distinção.

Para que Lagos viesse a usufruir de um feriado municipal que se diferenciasse da maioria dos restantes, é preciso não esquecer a importância da comunidade religiosa local, sobretudo a associada a São Gonçalo de Lagos. Grandes festividades eram realizadas em sua honra, nascido na então vila medieval, no ano de 1360 e que viria a falecer em Torres Vedras no ano de 1422.

A data de 27 de outubro entronca em festividades religiosas (embora os padres agostinhos a comemorem a 21 do mesmo mês). Esse dia, sobre o qual nada se sabe, não se relaciona com o dia do nascimento do beato (com honras de santo apenas em Portugal), nem com o dia do seu falecimento, a 15 de outubro de 1422, em Torres Vedras. Também não encontramos justificação para a escolha desse dia como feriado municipal na data da sua beatificação por Pio VI, no dia 27 de maio de 1778.

Não encontramos documentação elucidativa sobre a importância que seria dada a esta data histórica para Lagos, ao longo dos anos. Tanto mais que, quando a estátua a El-Rei D. Sebastião, de João Cutileiro, foi inaugurada em 1973, já o feriado municipal estava estabelecido como sendo a 27 de outubro (comemorado havia já dois anos desde o ano da sua aprovação).

A circunstância do chefe de Estado de Portugal estar presente em Lagos, não o foi pela importância da obra escultórica (a qual parece não ter tido a sua especial atenção), nem porque Lagos comemorava o seu feriado municipal, no dia 27 janeiro de 1973. As comemorações que tiveram como convidado de honra, o Presidente da República, Américo Thomaz, relacionaram-se com a efeméride dos 500 anos da elevação de Lagos a cidade, como data simbólica, e não como feriado municipal.

Sabemos, contudo, que a partir de 1760, «a nobreza e o povo de Lagos juraram São Gonçalo de Lagos por seu padroeiro e protetor». Provavelmente, será a data em que as festividades em sua honra se consubstanciaram até aos nossos dias, e fortaleceram o pedido desta comunidade religiosa junto da Câmara Municipal no primeiro ano da década de 1970, para que fosse aprovado dia 27 de outubro, como feriado oficial.

Não sendo uma data que esteja associada a factos históricos importantes relacionados com São Gonçalo de Lagos – este dia é consagrado, em vários calendários litúrgicos, a São Frumêncio, Bispo (séc. IV) e a São Elesbão (Monge anacoreta do séc.VI).

Relaciona-se com a periodização das festas anuais, em sua honra, na cidade de Lagos, onde a tradição e o desconhecimento (?) da data da elevação de Lagos a cidade, ou o pouco ou nenhum interesse pela comemoração desta data, pelas autoridades municipais de Lagos do início da década 1970, poderão ter influenciado a escolha do dia 27 de outubro para o seu feriado municipal.

Pela importância do facto histórico da sua elevação, deveria ter sido o dia 27 de janeiro de 1573, atendendo que em 1971 parece que ninguém sabia disso ou seria esquecido ou simplesmente não haveria interesse em relembrar tão importante data, porque à mesma estaria associada a perda da independência e a sua associação a um rei que nos deixaria mercê dos espanhóis?

Se assim aconteceu, porque é que a Câmara Municipal de Lagos teria encomendado e pago a obra (não o trabalho do autor, porque este foi oferecido pelo próprio, mas, sim, os materiais para a concessão da mesma) cuja escultura viria a ser uma das mais proeminentes do século XX?

Como exemplos de municípios que têm como Padroeiro S. Gonçalo, mas que comemoram os seus feriados municipais com outras datas, destaca-se Torres Vedras, no dia 11 de novembro, quando o dia da sua elevação a cidade foi a 2 de março de 1979, enquanto a data da morte do seu Santo Padroeiro foi a 15 de outubro de 1422, em Torres Vedras.

Em Lagos, o seu padroeiro, tanto mais que tem associado o nome da sua terra natal ao seu apelido, nunca será esquecido. Perpetuar a sua memória e proteção (como se afirmou no século XVIII), foi-lhe erigido um monumento que foi inaugurado a 30 de junho de 2001, encontrando-se uma réplica do mesmo, com 50 centímetros de dimensão, no Museu do Vaticano, desde o dia 4 de julho de 2007 e recebida pelo Papa Bento XVI.

Opinião de José Martins | Historiador