História do Turismo Algarvio – o Hotel Bela Vista em Portimão

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Comemorou-se em 2011 o primeiro centenário do turismo português, mercê da realização em Lisboa do IV Congresso Internacional de Turismo, que em 1911, há mais de um século atrás, serviu de baptismo internacional à recém implantada República.

Acorreram à capital lusa milhares de estrangeiros, desejosos de comprovar com seus próprios olhos a aceitação e o sucesso do novo regime. Em boa verdade, regressaram às suas origens com a ideia de que Portugal era um país com aptidões naturais para prosperar na emergente indústria do turismo.

Por isso alguns algarvios, nomeadamente Tomás Cabreira, Jaime de Pádua Franco, Jacinto Parreira e Mateus Moreno, personalidades imorredoiras, cujo espírito de iniciativa, inteligência e percepção do futuro, merecem a veneração das gerações vindoiras, decidiram replicar o evento no seu Algarve natal, promovendo a realização do 1.º Congresso Regional Algarvio, realizado no Casino da Praia da Rocha, em 1915. As comemorações centenárias dessa notável iniciativa, que teve um enorme impacto regional, tiveram lugar em 2015 um pouco por todo o Algarve.

Panorâmica da Praia da Rocha vendo-se o hotel Bela Vista.

Impõe-se a todo o instante realçar e distinguir algumas das figuras que estiveram na origem do processo nacional de fomento turístico. Manda a verdade, dizer aqui que a maioria dessas personalidades estão hoje injustamente esquecidas e ignoradas, mercê do processo evolutivo dos tempos, mas também da ignorância e insensatez de que enfermam as recentes instituições regionais de instrução e cultura. Acresce a tudo isso a estupidez institucionalizada pelos partidos do arco do poder, que têm manietado o aparelho educativo nacional, para transformarem uma nação com um glorioso passado, num país periférico sem memória nem futuro. É a esta apagada e vil tristeza que nos tem conduzido o centralismo político, sobretudo a partir do momento em que o nosso país se transformou no capacho da Europa.

De empresário marítimo a hoteleiro

Dentre as muitas personalidades que estão ligadas à História do Turismo no Algarve, ocorreu-me lembrar hoje a figura de Albino Paulino de Jesus, que foi Oficial da Marinha Mercante e empresário de turismo, natural de Ferragudo, onde, aliás, sempre residiu, vindo a falecer no hospital de Portimão, vítima de um lamentável acidente, a 27-9-1954, com 67 anos de idade.

Herdeiro de uma das mais conhecidas famílias do barlavento algarvio, que desde há décadas se havia envolvido no sector da Marinha Mercante em que Albino Paulino de Jesus ascendeu ao honroso posto de comissário, mercê dos seus dotes de inteligência, do seu trato afável e espírito empreendedor. Ligado aos transportes marítimos foi para Lisboa, onde abriu um escritório comercial na Rua de S. Julião, por cujas instalações passavam ao fim do dia muitos algarvios, desejosos de receber encomendas, levantar dinheiro, receber notícias dos seus familiares e até fazer alguns dos chamados negócios de oportunidade garantida.


Com os lucros do escritório lisboeta, montou um negócio de moagem no Alentejo que lhe permitiu juntar largos capitais financeiros. Ciente de que o Algarve era uma região de futuro, com emergentes potencialidades no sector do turismo, então largamente incentivado pelas instituições públicas e pela máquina de propaganda fundada pelo famoso António Ferro, de quem era, aliás, particular amigo, decidiu regressar à terra-mãe.

O regresso à terra-mãe

Quando veio para o Algarve apercebeu-se que o apalaçado edifício da antiga Vila de Nª Senhora das Dores, situado nas arribas da então designada Praia de Santa Catarina (hoje Praia da Rocha), a cuja inauguração assistira em 1918, e que pertencia ao famoso industrial conserveiro António Júdice de Magalhães de Barros, estava muito degradado pelo abandono a que fora votado. Com efeito, a belíssima residência de traço neogótico, cujas janelas em arco ogival eram, e são, a sua principal característica arquitetónica, fora construída no topo da falésia, que debruçada sobre o mar permite o privilegiado visionamento daquela magnífica baía, de mar chão e doiradas areias, que se estende desde a Ponta do Altar, em Ferragudo, até quase à Ponta da Piedade, em Lagos.

A majestosa casa estivera ao abandono durante uma década, precisamente desde 1924, quando faleceu a esposa de Magalhães de Barros, até 1934, quando Henrique Bívar de Vasconcelos, que já possuía uma pensão no centro de Portimão, convenceu os herdeiros a arrendarem-lhe a «casa branca» para nela instalar uma moderna unidade hoteleira, que viria a ser inaugurada em 1936 sob a designação de Hotel Bela Vista.

Face à crise económica que desde 1929 se instalara na América e se estendera à Europa (dando origem à escalada política do nazi-fascismo), muitas das casas bancárias e grandes industriais do país sofreram processos de insolvência que os obrigaram a vender o seu património. Alguns deles não aguentaram a vergonha nem o opróbrio social da falência económica, tendo-se suicidado.

O imóvel agora transformado em Hotel foi um desses exemplos. Mas apesar de todas as contingências políticas e económicas desses conturbados anos, o turismo prosseguia o seu caminho, não só de preenchimento do lazer e revelação do hedonismo, mas também de novas terapias contra os flagelos da tuberculose, da asma e afecções pulmonares, contra o raquitismo, as artrites reumatoides, a psoríase e tantas outras doenças, para cujo combate e restabelecimento da saúde muito contribuíram as praias, os puros ares das montanhas e as águas medicinais das termas.

O Hotel Bela Vista precursor do turismo algarvio

O turismo algarvio dava então os primeiros passos, fazendo da Praia da Rocha e das termas de Monchique os seus principais polos de atração, tendo como oferta a amenidade do clima, a paradisíaca envolvência das suas praias, e os seus novos hotéis. A par dessa oferta e da evolução dos tempos, despontavam também os casinos, que acompanharam o desenvolvimento turístico da orla costeira.

O Hotel Bela Vista foi um dos precursores do turismo moderno, com boas condições de higiene, de conforto e de recato. Talvez por isso os seus primeiros hóspedes tenham sido estrangeiros, da orla mediterrânica, sobretudo espanhóis, gente rica, educada e empreendedora, que fugia dos horrores da guerra civil. Parece que entre esses clientes estavam figuras da política e da cultura ibérica, atraídos pela família dos irmãos Feu, industriais conserveiros oriundos da Andaluzia que também aqui se refugiaram no último quartel do séc. XIX, decidindo fixar-se em Portimão e investir no mesmo ramo industrial em que eram reconhecidos peritos. É curioso assinalar que o turismo, uma nova indústria relacionada com o lazer da burguesia, esteve em muitos aspectos diretamente relacionada com as origens da indústria conserveira em Portimão.

A década de trinta foi conturbadíssima na Europa. A crise económica desacreditou a democracia e deu origem a regimes políticos autocráticos e centralistas, estribados na ordem, no autoritarismo e na força militar. Em Portugal emergiu o Estado Novo, sob a figura emblemática de Salazar, cujo regime designado por Corporativismo era um decalque, mais suave e menos militarizado, do fascismo italiano. Apesar da não participação na II Guerra Mundial, o nosso país passou por uma difícil crise económica a que o turismo não poderia ficar incólume. Portugal transformou-se numa pátria de exílio para muitas coroas reinantes que haviam sido destituídas com a guerra, mas também foi um local de refúgio para muitas famílias abastadas, empresários, proprietários, artistas e dealers de toda a casta de mercadorias, proliferando o mercado paralelo e os negócios obscuros, sobretudo do ouro e do volfrâmio.

Muitos dos estrangeiros que aqui procuravam a paz, o sossego e a segurança, eram judeus, fugidos às desumanas perseguições dos nazis alemães, a célebre «solução final», como lhe chamou Hitler, que visava o extermínio raça hebraica, e o apagamento da cultura e da religião judaica. Por isso, o nosso país transformou-se, nesses primeiros anos da década de quarenta, numa espécie de plataforma de fuga para a América, ou, mais concretamente, numa plataforma de saída da Europa.

No rescaldo da II Guerra


Não admira que, nestas circunstâncias, os hotéis de Lisboa, mas também os da linha costeira até ao Estoril e Cascais, estivessem totalmente preenchidos de clientes, a maioria dos quais em trânsito. E no meio dos clientes mais abastados camuflavam-se os espiões de ambos os lados do conflito.
O turismo no Algarve pouco benefício teve com a guerra, ou melhor, com a estadia e passagem dos refugiados. Por isso os hotéis, nomeadamente o da Bela Vista, não conseguiram sobreviver face às dificuldades de abastecimento, à carestia de vida e às dificuldades de acesso ao financiamento. O resultado prático foi a insolvência da maioria dessas novas unidades.
Foi no rescaldo desses conturbados anos da guerra que regressou ao Algarve um dos seus filhos pródigos, Albino Paulino de Jesus, detentor de um invejável pecúlio financeiro e decidido a investir na Praia da Rocha, aonde viria a refundar o conhecido Hotel Bela Vista, à frente do qual se manteve como sócio-gerente durante largos anos. Também pensou fazer o mesmo na praia do Estoril, mas quedou-se apenas pela aquisição de uma bela vivenda onde passava férias ou se hospedava sempre que ia a Lisboa.
Com o avançar da idade decidiu recolher-se à sua aldeia natal, a bonita freguesia de Ferragudo onde comprou um antigo e amplo moinho no cimo duma colina sobranceira ao rio Arade, de onde desfrutava uma soberba panorâmica sobre a foz e a linha prateada da costa marítima. Acalentava o sonho de restaurar o velho e altaneiro moinho para nele instalar uma pousada turística, cujas obras estavam placidamente evoluindo. Porém, um estúpido e fatídico desastre interrompeu o mais bonito sonho da sua vida.
O acidente deu-se na Praça Visconde de Bivar, em Portimão, quando o infeliz Albino Paulino de Jesus, que pretendia tomar lugar na camioneta da carreira para Faro, se deixou atropelar pela mesma ficando praticamente esmagado pelos rodados do pesado veículo. Expirou pouco depois no hospital local, sem que os cuidados médicos de que foi alvo pudessem evitar o triste desenlace.
Era casado com D.ª Alda Reis Paulino de Jesus e foi pai da Dr.ª Maria Carolina Paulino de Jesus, de D. Maria Celeste, de Fernando e de Adelino Reis Paulino de Jesus. Era irmão de António e de Artur Paulino de Jesus, que foram ambos muito conceituados e experientes comandantes da Marinha Mercante.