Fugi da escola… e agora tenho de fazer de professor!

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Enquanto adolescente dediquei muita da minha energia ao desporto sem nunca deixar a escola para trás, mas sem atingir os resultados académicos que me possibilitassem entrar no curso de Biologia Marinha. Um ano mais tarde e após dedicar mais tempo ao desporto, acabei por entrar no curso de Professores do 1º Ciclo – Variante de Educação Física.

Este curso tinha vertente educativa e como objetivo capacitar professores para lecionarem no 1º Ciclo e no 2º ciclo em Educação Física.

Mas eu, ainda no segundo ano do curso, decidi que não queria ir para a escola, não queria ser parte de um sistema de ensina desligado da realidade e pouco eficiente no processo na aquisição de conhecimento e desenvolvimento de competências.

O facto de ter terminado um curso que me capacitava para ser professor e ao mesmo tempo não querer fazer carreira como docente, lembro-me que criou algum desconforte tanto na família mais próxima como nos amigos de sempre.

Uns e outros pressionaram-me para concorrer a um lugar no sistema de ensino nacional e eu assim o fiz.

O que hoje aqui revelo e que apenas eu sabia, foi que apenas concorri para as três escolas do 2º ciclo que existiam no raio de 1 quilómetro da casa dos meus pais, onde eu vivia. Desta forma reduzi a zero as probabilidades de iniciar a carreira de docente no sistema de ensino.

Este foi o momento em que «eu fugi da escola…».

Sempre entendi a função de professor como uma função nobre, uma das mais importante senão a mais importante da sociedade ocidental. É a classe profissional que tem a responsabilidade de preparar, de dotar de conhecimento e experiência os mais novos, capacitando-os para num futuro mais ou menos próximos serem os cidadãos ativos, os decisores, os empreendedores, os novos professores.

A COVID19 obrigou-nos a adotar um comportamento de quarentena, e a todos sem exceção, obriga-nos à reorganização, adaptação, reação aos constrangimentos de um distanciamento físico e de uma nova realidade social.

Acordei à hora do costume, preparei-me, acordei a minha filha, dei-lhe o pequeno-almoço e executamos todas aquelas tarefas sociais e de higiene iguais a sempre.

Mas é aqui que a nova realidade chegou, hoje, após 20 anos de ter «fugido da escola», vejo-me obrigado a fazer de «professor». Não estou confortável, nem o faço por opção!

Ainda assim sinto-me intrinsecamente feliz por não estar em idade escolar. E-mail, WhatsApp, Skype, Escola Virtual, Moodle, Tele Escola, Manuais, Zoom, e outras tantas plataformas têm os alunos que dominar para cumprir com os objetivos do programa curricular.

O poder político que implementa o Simplex é o mesmo poder político que não assume a responsabilidade de definir plataformas e métodos de ensino segundo critérios de simplificação do sistema de ensino, associados às novas tecnologias.

Ao nível universitário ou mesmo no Secundário esta diversidade de plataformas de apoio ao estudo e aprendizagem curricular não me choca, porém quando falamos de crianças de 5º, 6º ou mesmo do 3º ciclo, não podemos permitir que os alunos corram de um exercício num manual para uma classroom na Zoom, ou para uma atividade personalizada por Skype, a cada 30 minutos.

Só quem não entende a ineficiência deste processo, que não se preocupa minimamente com a formação académica destas crianças, pode ser indiferente ao stress, ansiedade, e frustração que dia após dia se vão intensificando nestas crianças e na relação com a «nova escola».

Muitas vezes os 30 minutos de aula não são suficientes nem para ler, quanto mais para apreender e menos ainda para realizar exercícios ou atividades.  A sobrecarga de trabalho a que estas crianças se viram sujeitas de um dia para o outro é abismal e resulta na inexistência de tempo para brincarem.

Como «novos professores» na era COVID, surgem os pais, que numa angustia constante tentam criar as condições para os seus filhos, «alunos», tenham o computador disponível para acederem às plataformas, tenham a internet com a velocidade e gigabytes suficientes para responderem às exigências de velocidade e capacidade das plataformas de ensino.

Estes novos professores têm ainda de ser capazes de coordenar todas as plataformas e métodos de ensino dos seus filhos, mas não é tudo. Este pais e novos professores têm de ser capazes de articular a sua nova função social e familiar com os verdadeiros professores.

O desafio que o novo Coronavírus nos colocou está a levar-nos ao limite das nossas capacidades da nossa resiliência e da nossa energia. No final,e de forma honesta, cada cidadão português está a dar o seu melhor, está a superar-se e preocupado com quem está a seu lado.

E agora tenho de ir fazer de professor…