Frei Tomás e o erro no fecho dos Cuidados Intensivos em Portimão

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Saímos no passado dia 2 deste mês de estado de Emergência. Parece que já foi há muito tempo e já está tudo normalizado mas, para avisar os distraídos, ainda vivemos em estado de Calamidade e – sabendo que não iremos voltar à «normalidade» a que nos acostumámos no passado recente e no mais longínquo – continua o planeta Terra sem Vacina e cura para o vírus SARS-COV-2 que origina a doença COVID-19. Logo, todo o cuidado é pouco.

Fomos surpreendidos pela notícia, porque a ninguém atento surpreende a necessidade evidente das obras referidas (que são alertadas há pelo menos dois anos), de que o Hospital de Portimão iria encerrar a sua Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) dedicada aos doentes COVID-19 devido à necessidade de fazer obras num dos acessos por decisão do Conselho de Administração do CHUA na presença de um Secretário de Estado e responsáveis locais e regionais.

Há matérias em que, para se adquirir mais conhecimento, devemos ouvir todas as partes. Neste caso, nem é preciso questionar. Podemos logo tirar conclusões demasiado evidentes sobre a decisão do Conselho de Administração do CHUA sobre o início destas obras, com duração de dois meses, na UCI do maior Hospital do barlavento algarvio.

Numa altura em que começámos a primeira de três fases graduais de abertura da economia (4 de maio, 18 de maio e 1 de junho) e que o desconfinamento quer-se gradual, é epidemiologicamente impossível prever como estaremos dentro de duas ou mais semanas face à COVID-19.

Disse, e concordo, o primeiro-Ministro que «se correr mal, voltamos atrá», a propósito da saída do estado de Emergência e das medidas de regresso a uma nova «normalidade».

Neste caso, de fecho da Unidade de Cuidados Intensivos, durante dois longos meses será impossível voltarmos atrás na decisão.

Para já, sabemos que esse fecho obrigou a que os três doentes, com a COVID-19 que permaneciam internados e ventilados na UCI de Portimão, fossem transferidos para a UCI adstrita a casos COVID-19 existente no Hospital de Faro. Portanto: Foram de Portimão para Faro.

Segundo as declarações públicas, a reunião em que ocorreu esta decisão é datada de há três semanas. Ora, há três semanas estava o país parado em estado de Emergência e a viver sem saber como era o dia seguinte por respeito à violência do vírus SARS-CoV-2.

Porém, algures no Algarve, havia quem entendesse «com dons de futurologia» que em Portimão e na região seria tudo calmo e pacífico relativamente à COVID-19 dali a três semanas semanas (data do fecho da UCI) e que tudo irá melhorar (que tenham razão!).

Com tamanha certeza no futuro, oxalá acertem, havia plenas condições de se fechar a UCI de Portimão durante dois meses.

Dizem os jovens há mais tempo que «bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz».

É o que melhor se pode aplicar ao Conselho de Administração do CHUA!

Numa altura em que todas as entidades de saúde, da Direção-Geral de Saúde à Organização Mundial de Saúde, do primeiro-Ministro à ministra da Saúde e inclusive o Presidente da República, defendem que devemos ter «tudo a postos» para qualquer eventualidade, o Conselho de Administração do CHUA deu o mau exemplo de decidir que podia fechar uma Unidade para doentes COVID-19.

É um exemplo de descrédito ao mesmo nível do que assistimos no dia 1 de maio em que, quando a 10 milhões de portugueses se pedia confinamento, se autorizava a nível superior a que um milhar de pessoas se concentrasse em Lisboa (com o distanciamento social a espaços).

São dois exemplos que retiram credibilidade a estas decisões.

Entenderíamos, todos, que esta obra tivesse sido realizada há um ano e até podia ser em igual dia e mês do ano. Somos forçados a entender que, por ausência de interessados a concurso público da obra, não tenha sido possível ter sido feita no passado.

Mas não entende o Algarve, os profissionais de saúde na sua maioria e qualquer português que, quando não se sabe muito sobre o evoluir epidemiológico nesta altura de desconfinamento, um Conselho de Administração, decida contra tudo o que se recomenda a subtrair resposta à COVID-19 quando devemos «ter tudo pronto e na máxima força».

Numa altura em que, inclusive coincidente com a realização de testes sorológicos que demonstram valores que exigem atenção na região, não podemos prever o que aí vem, é um erro evidente o que foi decidido pelo CHUA.

Não é futurologia, é responsabilidade. Não é necessidade, foi falta de sensibilidade.

O dia de hoje não é muito diferente, em receio, do que era durante o estado de Emergência. Hoje, a nível de cura, estamos iguais há três semanas ou há dois meses. Não há, à data, vacina e tratamento para a COVID-19.

Numa fase em que os algarvios e os portugueses irão começar a sair, gradualmente (esperamos!), de suas casas e a ter maior dificuldade em manter o distanciamento social, o que devemos e queremos ter é a resposta de saúde a 100 por cento.

No Algarve, entendeu que tomou a decisão, que 50 por cento de resposta efetiva de UCIs é suficiente. Os ventiladores são os mesmos, não diminuíram, mas só a demagogia poderá dizer que diminuir a área e Unidades de resposta é igual para um caso de emergência.

Espero eu, e qualquer algarvio ou português, que tenham razão aqueles que decidiram. Em primeiro lugar, o Conselho de Administração do CHUA, mas sem esquecer os membros do governo de Portugal presentes, autarcas locais favoráveis à decisão e quem deu aval no Serviço do Hospital de Portimão para se fazer nesta altura do calendário.

A causa pública e política é feita de escolhas e, felizmente em democracia, tudo deve ser responsabilizado. Mesmo que acertem, erraram. Se falharem, que saibam assumir o erro aos algarvios.

Que nem seja precisa a UCI de Portimão nem a UCI de Faro, que não haja mais um único caso no Algarve e no país. Que os futurologistas do CHUA tenham sorte na previsão!