Fórmula 1 em Portimão, o Elogio do Esquecimento

  • Print Icon

1. Vários amigos, pelos quais tenho particular consideração, telefonaram-me, nos últimos dias, saudando a vinda da Fórmula 1 para o Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão e, no mesmo passo, assinalando a ausência de um ministro com peso político na cerimónia de anúncio formal da prova.

Associei-me às boas-vindas e estranhei a ausência de um ministro: na minha contabilidade, a equação «dois secretários de Estado = um ministro» é falsa. Por onde andaria o ministro da Economia nesse dia? Impus-me, entretanto, o desafio de, com um amigo, trocar algumas memórias sobre o assunto.

2. No princípio era o sonho. E, com o seu quê de shakesperiano, foi-me apresentado numa noite de verão de 2000, num restaurante debruçado sobre a ria de Alvor. Era um layout, onde predominava – ainda me lembro – o verde esperança: foram os primeiros desenhos que, oito anos passados, viriam a dar origem ao projeto do Autódromo do Algarve, em Portimão.

Era eu Presidente da Câmara de Portimão e os dois alucinados que partilharam o seu sonho dão pelo nome de Horácio Nunes, engenheiro, na altura dono de uma empresa de nome bem firmado na região, a Bemposta, e Paulo Pinheiro, engenheiro, colaborador da mesma empresa e o grande criativo da ideia.

Pediam, essencialmente, três coisas: apoio político indispensável para um projeto de tal envergadura, designadamente influência junto das entidades institucionais (nacionais e regionais) que haveriam de pronunciar-se sobre o assunto, a cedência de terreno público para a instalação de tal equipamento e a aprovação atempada da tramitação administrativa da competência da autarquia.

Fiquei conquistado pela ideia, por aquilo que ela continha, potencialmente, de alavanca económica para o Algarve, de alternativa complementar ao turismo de sol e praia e de criação de emprego.

Pela primeira vez, nesta terra, surgia alguém disposto a arriscar um projeto inovador, que não apostava na área do turismo tradicional nem no imobiliário. Mas o país não estava culturalmente preparado para um tal projeto nesta região («já tinhamos o Estoril, em Lisboa», dizia-se em certos círculos).

Em 2006, o Executivo Municipal e a Assembleia Municipal aprovaram os projetos apresentados e a cedência, mediante protocolo, de 43 hectares de terreno destinados em PDM para equipamento, bem como a responsabilização da autarquia pela construção dos acessos àquela infraestrutura (que acabaram por ser construídos pela Parkalgar), e, ainda, a isenção do pagamento de taxas de IMT e de IMI. Seguiram-se protocolos na área da promoção entre uma empresa municipal e a Parkalgar.

A empresa, por sua vez, viu-se na necessidade de adquirir mais 300 hectares. Depois, foi o calvário. Era a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, o governo, o Turismo, o Ambiente, a Economia e por aí fora. Um ror de gente a pronunciar-se, além da luta pelo suporte financeiro. Participei, em nome do município, em diversas reuniões com instituições governamentais, regionais e nacionais, bem como com organismos internacionais ligados à área em causa, dando a cara pelo projeto em que acreditei.

O processo começou no último governo do primeiro-Ministro António Guterres, passeou pelos gabinetes do governo de Durão Barroso, a seguir pelo curto governo de Santana Lopes e desaguou no primeiro governo de José Sócrates.

Foi, então, aprovado como projeto de Potencial Interesse Nacional (PIN), o único, aliás, que se concretizou no Algarve! Tinham passado oito longos anos de lutas e expectativas e com a oposição, mais ou menos silenciosa, de muito boa gente, que hoje se excita com o evento do próximo outubro.

É evidente que a grave crise financeira internacional instalada a partir de 2008 veio destruir as legítimas expectativas criadas. O resto é uma história de resistência e resiliência que culminou, 20 anos depois, na vinda da Fórmula 1. O grande objetivo fundador foi atingido. Mas, só fará sentido, para o Algarve, se for para continuar. De outro modo, não passará de um sonho de uma noite de verão.

3. Amigo leitor, a Grécia antiga deu-se ao trabalho de personificar a figura do Esquecimento numa divindade: Mnemosine (a palavra «amnésia» aqui, lembram-se?) foi objeto de culto em alguns santuários (séc. V a.C.). Também ali se criou a imagem de rios cujas águas, bebidas, faziam esquecer vidas passadas. Inscrições funerárias gregas do séc. IV a.C. referem o rio Lethes como rio do Esquecimento.

Uma tradição muito antiga, no norte do nosso país, conta que, no ano 137 a.C., legiões romanas, chegadas às margens do rio Lima, face à beleza e tranquilidade da paisagem, temeram ter chegado às margens do rio Lethes. Uma dúvida cartesiana me assalta: poderá o rio Arade gozar do mesmo estatuto de rio do Esquecimento?

A história do Autódromo Internacional do Algarve é também passado. E passado é passado. O gesto de esquecer e deixar para trás é uma decisão cultural necessária. Mas, relembrar ajuda a colocar as coisas no seu lugar.