Faro 2027: Horizonte ou miragem?

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Faro, 16h05, tarde solar de outubro. Sentado numa esplanada de café na Rua de Santo António, observo o muito pouco movimento. Os empregados dessa instituição de luxo, que são as lojas António Manuel, vestidos de preto, vão e vêm num vaivém entre lojas.

Alguns turistas e um grupo de jovens asiáticos, dois deles de turbante, dão um toque de cosmopolitismo ao cenário. Um ou outro transeunte de passagem, alguns clientes à porta da farmácia.

A tarde está amena, estou na artéria mais comercial da cidade que é capital da região mais turística do país. Imagino-me um viajante que aqui chega, tento colher impressões, apreciar o lugar. Ao sol, desfruto do gostoso calor desta agradável tarde de outono.

Ao lado, vejo anunciado um recital de piano no clube Farense, à noite. Aqui está a possibilidade de um momento bem passado. E o vetusto Lethes, um pouco acima, do qual tenho o programa, tem uma programação regular de teatro e música. Imagino-me aqui, depois de ter estado noutras cidades, as duas últimas Cádiz e Sevilha, na vizinha Andaluzia, e pergunto-me onde estão as pessoas.

Assisti, via Facebook, à apresentação do Plano Estratégico para a Cultura do município, bem elaborado, bom design, ambicioso, sabendo envolver, como é uso atual, as questões do território, da inclusão, das comunidades.

Acredito que os responsáveis políticos estão sinceramente empenhados em criar novas dinâmicas culturais na cidade, tendo em vista a candidatura Faro, capital europeia da cultura.

Mas será possível insuflar vontades de modo institucional, de cima para baixo?…

Em vez das muitas setas e esquemas do Plano, do bonitinho que o documento é, mais valia sair para a rua, passear a pé por ruas e pracetas, interpretar e interpelar a cidade fora dos gabinetes.

Lembro-me de quando estive ligado à direção dos Artistas, andar pela Baixa, onde por vezes jantava, fazendo tempo para a reunião, por volta das 10 horas da noite; era triste a desolação humana, a vida tão recolhida.

No café Aliança, de então, na pequena sala lateral, alguns velhotes adormeciam a solidão frente à televisão. O Aliança é uma triste metáfora da Baixa. Fechou, abriu, fechou, abriu e voltou a fechar.

Aliás, a cidade cometeu o erro fatal de deixar morrer o St. António, renovado teria sido uma excelente sala de espetáculos no coração da cidade.

Batalha perdida do Cineclube de Faro, que tanto se bateu pela sua conservação, face ao poder da especulação imobiliária e à inércia da gestão autárquica.

Mas Faro é burguesa e vive bem acomodada em casa. Encontro uma amiga. Irrequieta, mãe mas não totalmente domesticada, fala-me de algumas coisas que vão acontecendo na cidade. Gosta de sair, dos concertos na Associação de Músicos e está inscrita num curso de formação de atores no JAT: Janela Aberta Teatro. (O que me faz pensar em desistir deste artigo).

Mas Faro culturalmente sempre teve o que as associações generosamente tornaram possível. Pequenos oásis no deserto urbano. Ativistas das artes e da vida cívica no meio do imobilismo político gestor.

Observo agora o gerente da Palloram, ora assumando à porta ora recolhendo, com o seu casaco azul claro, lencinho no bolso. Recordo-o de miúdo, quando até do Barlavento algarvio se vinha às compras à Rua de St. António.

Impecavelmente vestido, agora de máscara, mãos cruzadas atrás das costas. A mesma postura enfática, perscrutando eventuais clientes.

Mas a rua permanece pouco movimentada, monótona, e apenas a alegria de alguns jovens estudantes em trânsito a anima. Qual a relação entre estas impressões e a política cultural? Muitas.

A área de expansão urbana alarga-se, novos prédios preenchem antigos arrabaldes, há mais trânsito. A cidade por vezes é tão mais cidade naquilo que menos interessa: ruído, carros a mais, prédios de volumetria e escala desadequada, alteração de enquadramentos e perspetivas urbanas antes harmoniosas, árvores a menos.

Aliás, a palavra cultura, só por si, soa para a grande maioria das pessoas como mundo à parte e privilégio de uns poucos. Quase não a devíamos pronunciar se queremos fazer passar a mensagem a muitos mais.

Fundamental é ter uma visão estratégica que tenha em conta uma rigorosa noção de planeamento ao serviço dos cidadãos e contra os interesses de grupo. Não fazer para turista ver, pois ao desenvolver para quem cá está proporcionamos também o melhor a quem nos visita.

Importa requalificar ruas e praças, reabilitar e renovar casas, plantar árvores nas ruas e cuidar de quem habita. E o município de Faro tem reabilitado, há novos projetos: tais como o Quilómetro Cultural, que visa a requalificação da zona ribeirinha frente ao tecido urbano mais antigo e histórico; avança a ciclovia na avenida Calouste Gulbenkian; o Largo do Pé da Cruz também será requalificado; foi comprado e será recuperado o Celeiro de S. Francisco, etc. A cidade evoluiu.

O investimento privado tem ajudado a recuperar e criar novos negócios. E tudo alicerça o futuro. Mas ainda é pouco, e talvez tarde de mais, para uma cidade que ambiciona ser Capital da Cultura. Há mais oferta cultural, sem dúvida, o Teatro das Figuras está ao nível dos bons exemplos de outras capitais de distrito.

Mas o que é isso sem uma vida sustentada na rua, prolongando as emoções das artes de palco numa vida quotidiana de cafés, praças e jardins, numa Baixa palpitante de vida…

Faltam espaços verdes na cidade e os mesmos devem ser definidos em função das necessidades dos cidadãos e não a reboque dos interesses da especulação imobiliária, como parece ser o caso do Parque das Amoreiras, na entrada norte da cidade.

Falta, sobretudo, o gesto largo e ousado de quem define novos horizontes.

Bilbau, cidade industrial, durante décadas marcada pela decadência e revolta, soube renovar-se de modo harmonioso como um todo, ruas, edifícios, praças, (conseguindo até acalmar a conflitualidade social e política aí existente), guiada por esse farol de modernidade e cintilante arquitetura que foi o museu Guggenheim, sabendo afirmar-se como cidade icónica nas rotas culturais da península.

A nossa Viana do Castelo, com o seu magnífico centro histórico, muito bem preservado, soube também convidar arquitetos portugueses para projetar a contemporaneidade nalguns equipamentos públicos.

Siza Vieira desenhou a biblioteca municipal e Eduardo Souto Moura o Centro Cultural. Ambos os edifícios integrados no plano da marginal de Viana, da autoria de Fernando Távora. Há mais edifícios dignos de atenção e o município resolveu criar a rota da arquitetura contemporânea na cidade.

Kassel, na Alemanha, cidade dos encontros de arte Documenta, viu serem plantados 7000 carvalhos, numa intervenção de Josef Beuys, artista com preocupações ambientais.

De novo, o viajante. Faro com a Formosa Ria aos seus pés é muito bela vista de cima.

Mas a expetativa, ao aterrar, vai-se esvaindo ao percorrer ruas e avenidas, ao sabor do acaso.

Pergunto-me que cidade é esta?… Pergunto: Uma cidade que se ambiciona mais cidade, que se quer uma smartcity, é compatível com um comboiozinho turístico a circular pelas suas artérias principais, como se Faro fosse a Praia de Carvoeiro…

Levanto-me, desço a rua, a outrora entrada do cinema/ centro comercial é agora um luxuoso restaurante italiano, mais abaixo corto numa transversal, passo frente à desaparecida livraria Europa-América, agora uma imobiliária.

Cansa-me este Algarve povoado de imobiliárias, ocupando os centros de vilas e cidades. Avisto um bistrot, nome muito em voga para agradar à nova invasão francesa. Maldita subserviência turística.

As cidades podem ser mais ou menos estimulantes, provocam-nos estímulos diferentes conforme os movimentos das pessoas nos espaços públicos, as montras das lojas e a moda, os seus jardins e parques, restaurantes e livrarias, os transportes públicos, o património e os museus, etc.

Estímulos de ordem afetiva e intelectual. De simpatia e repulsa. Estão na corrida à organização da Capital Europeia da Cultura 2027, juntamente com Faro, Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Guarda, Leiria, Oeiras, Viana do Castelo e o Funchal também já manifestou a intenção de se candidatar.

Esta última apresenta como argumento ter sido a primeira cidade construída por europeus fora do continente, o comissário é o artista plástico Rigo e tem como lema «Ir mais além» procurando capitalizar caraterísticas diferenciadoras.

Como algarvio ficaria satisfeito com a vitória de Faro. Acredito num horizonte digno de novos e mais belos anseios citadinos, mas para o alcançar não podemos iludir-nos com a miragem.