Eu habito, tu habitas… o outro habita

  • Print Icon

Este admirável novo mundo urbano e humano, frente ao qual é difícil ser neutro, coloca novas e pertinentes interrogações. Em primeiro lugar, a cidade passou a ser um dos problemas centrais, convertendo-se no espaço que melhor articula todas as variantes culturais, sociais e antropológicas. Assim, há urgência em repensar a cidade e o modo como a habitamos.

Por outro lado, com a progressiva desterritorialização do político, do ideológico melhor dizendo, a cidade passa a ser um lugar mais real. A abstração crescente que afecta os sistemas de representação política, inscritos na tendência cada vez mais forte da globalização, faz com que a defesa do local adquira uma dimensão nova e mais significativa na definição do que somos e do que identifica o nosso viver em sociedade.

O espaço coincidente com o território do local chama-se cidade, comunidade urbana, área metropolitana, região, etc. Porém, de todas estas variantes, é a cidade a que melhor define a particularidade das formas de habitar. Daí a importância de Faro se definir como cidade rosto e exemplo sério de toda a região. O que infelizmente não tem acontecido, apesar de ser a cidade do Algarve com mais património edificado classificado e com áreas urbanas históricas bem definidas e estudadas.

Na cidade projecta-se, constrói-se o espaço social e cruzam-se todos aqueles sistemas de símbolos e signos que a partir da apropriação individual tornam possível uma identidade cultural. Ao mesmo tempo, a cidade, essa magnífica (e também horrível) organização humana desde a antiguidade aos nossos dias; esse gigantesco coração humano, todo ele alegrias e tristezas, esplendores e misérias, é espaço de representação por excelência de novas tensões sociais, culturais e políticas do mundo contemporâneo.

E a cidade é cada vez mais um cenário de derivas e fluxos, encontros e fugas, produzidos no território que articula sujeitos que a percorrem, a habitam, com suas formas de vida, suas necessidades e ansiedades. E nas cidades do Algarve, em toda a região, há um mundo cada vez mais plural e intercultural, no qual se cruzam diferentes destinos: do jovem paquistanês ou da mulher marroquina, migrantes da necessidade e quase sempre mal pagos e explorados nas estufas onde trabalham, aos franceses que fogem do medo e investem numa casa a sua reforma dourada; dos chineses das lojas fechados no seu universo comercial e na barreira da língua, aos algarvios naturais que somos diferentes do que fomos.

Enfim, desenha-se um novo cenário humano, uma nova complexidade de relações, olhares, tolerâncias e também discriminações, reconhecimentos que confrontam e colocam novos desafios urbanos ao entendimento das diferentes formas de habitar e projetar a cidade.