Esta região não é para algarvios

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Viver no Algarve tornou-se extremamente problemático para quem trabalha. A região é vista e gerida como um parque de diversões. Afinal de contas, o que sobra para os algarvios?

Falar de turismo não é propriamente um assunto que gere grandes paixões. Parece um tema demasiado genérico para alguém querer realmente falar sobre ele. Há boas razões para isso. O turismo, enquanto indústria, é o reverso invisível de uma medalha que vende o romantismo associado às viagens de lazer e que garante as condições para que tal aconteça. O trabalho em si não é propriamente o sonho de alguém. Nunca ouviremos uma criança dizer aos pais que quando for grande quer ser rececionista de hotelaria ou trabalhar numa rent-a-car.

Da hotelaria à restauração, o trabalho é, regra geral, precário, mal pago, sazonal e sem grandes expectativas de progressão na carreira. Não é difícil imaginar quão pouco reconhecimento social isso gera, e quão pouca realização pessoal isso provoca em cada trabalhador. E este nem sequer é o lado mais dramático da coisa.

Por outro lado, podemos afirmar que o turismo e as atividades económicas que ele promove como a construção civil, tem sido o maior responsável pelo crescimento económico da região e da sua transformação naquilo que o Algarve é hoje.

Alguém consegue contabilizar o dinheiro que o turismo fez circular na economia do Algarve desde o início dos anos 1970 até hoje? E quanto, desse dinheiro, chegou à conta bancária de cada trabalhador da indústria? Seria bom que se fizessem essas contas para que se percebesse quanto dinheiro é criado e quanto é distribuído numa indústria de mão de obra intensiva em que os trabalhadores são imprescindíveis. Perguntado de uma forma mais marxista, qual a relação entre o valor criado por cada trabalhador e quanto desse valor lhe chega as mãos?

Se calhar até nem é preciso fazer muitas contas. Basta saber que a média salarial na indústria é baixíssima, que a informalidade num sector ainda dominado por pequenas e micro empresas é elevada, que a rotatividade de trabalhadores é enorme, que é cada vez mais intermediada por empresas de trabalho temporário (autênticos cancros das relações laborais) e ancorada numa crescente massa de trabalhadores imigrantes que, querendo fixar-se em Portugal, é obrigada a aceitar para obtenção do título de residência.

Entretanto, olhemos para a região propriamente dita. Poderemos até pensar que, se calhar, estes trabalhadores não ganham esse dinheiro diretamente, mas o dinheiro canalizado para impostos é de tal forma alto que esse dinheiro acaba por ser devolvido através de serviços públicos de apoio social como creches com horários alargados e adequados a servir estes trabalhadores, transportes públicos gratuitos que façam os trajetos das zonas residenciais para as zonas de trabalho, e habitação social a preços suportáveis para a classe de trabalhadores. Infelizmente, não.

Nada disto existe, ou, existindo é insignificante e desadequado às necessidades dos trabalhadores e das suas respetivas famílias, principalmente numa altura de transformação demográfica. Isto tudo, é claro, para não falar no nível de preços na região, que é o mais alto do país.

Viver no Algarve tornou-se extremamente problemático para quem trabalha. Como se não bastassem as condições de trabalho miseráveis e a autêntica exploração a que a maior parte destes trabalhadores assalariados são submetidos, ainda são depois confrontados com autarcas que não fazem nada por eles e que acham que estão a gerir um hotel, colocando em primeiro lugar a satisfação dos desejos dos turistas e só depois a dos residentes que aqui nasceram, vivem e trabalham.

A região é vista e gerida como um parque de diversões. Depois de terem desbaratado quase todo o espaço que havia junto à costa (e os algarvios foram os primeiros em Portugal a conhecer o significado de gentrificação, apesar do termo só ter passado e ser veiculado pelos órgãos de comunicação social quando o fenómeno atingiu a grande capital), os algarvios vêm-se encostados contra a parede da casa que não têm.

Afinal de contas, o que sobra para os algarvios? Reparem, nem o discurso político para o interior é condizente com a ação.

Numa altura de crise habitacional, verificamos que, ao invés de flexibilizarem a ocupação do interior, mais ou menos periférico, por parte de quem sente a necessidade de o fazer, promovendo uma relação com o meio rural que importa salvaguardar num contexto de alterações climáticas e de necessidade de proteger o espaço florestal, humanizando-o através das atividades tradicionais que garantiam a sua manutenção, os autarcas parecem convictos do que o melhor que têm a fazer é perseguir os algarvios que a estes terrenos recorrem para se fixar porque não tem alternativa. E entretanto, o que resta de edificado em ruínas acaba nas mãos de quem tem dinheiro para comprar, normalmente turistas que querem uma segunda casa para passar as férias ou a reforma.

Viver no Algarve tornou-se extremamente problemático para quem trabalha. A região é vista e gerida como um parque de diversões. Afinal de contas, o que sobra para os algarvios?

Ou seja, estamos a assistir no interior o mesmo processo que assistimos no litoral, sem que ninguém chame à atenção para este absurdo que é de uma injustiça social atroz.

E assim, de processo de gentrificação em processo de gentrificação, vai o Algarve expulsando quem aqui nasceu (muito provavelmente para as grandes cidades do país ou para a emigração nos países ricos da Europa), tornando-se numa enorme colónia de férias desses mesmos países, onde só fica quem lhes faça as camas, lhes sirva as refeições e lhes faça as marcações do próximo tempo no campo de golfe.

Foto: Tiago Grosso.