E depois do Adeus… ao Coronavírus?

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De repente, confinados em casa, prestamos comovidas homenagens aos profissionais de saúde, por se encontrarem na linha da frente do combate à pandemia vivida, assim como descobrimos a condição humana de  quem recolhe o lixo por nós produzido ou nos traz a carta a casa, sujeitando-se  a um maior risco de contágio do microscópico vírus que, na nossa, não rara, soberba de homem sapiens, nos remete para a realidade de quanto, no fundo, seremos seres frágeis. Tudo, como se, anteriormente, o profissionais de saúde  não lutassem todos os dias contra todos os tipos de doenças ou quem recolhe o lixo e nos traz o correio a casa não o fizesse sob sol ou  chuva, frio ou calor, e, consequentemente, não devesse merecer a nossa consideração e estima.

Havendo quem crie a expetativa, pela experiência agora vivida,  que depois da pandemia, para melhor, nada será  como dantes (oxalá assim seja!), receamos, contudo, que muita coisa possa vir a permanecer na mesma, nomeadamente, o voltarmos a esquecer o valor dos profissionais de saúde,  o ser humano existente em quem o nosso lixo recolhe ou a nossa  correspondência deposita na caixa do correio, num mundo/sistema cada vez mais competitivo e de menos solidariedade, de consumismo supérfluo, predatório de recursos naturais e destruidor do meio ambiente, com, por exemplo,  um milhão de espécies de animais e vegetais em perigo de extinção por via disso, conforme relatório recente de peritos da ONU.

Se, mesmo em plena pandemia, podemos ler que máscaras sociais com certificados falsos estarão a ser vendidas por dezenas de empresas, usando nome do CITEVE e prometendo 100 lavagens, quando modelos patenteados não darão para mais de cinco, conforme publica o Jornal de Notícias, o que se esperar depois dela no tocante a «princípios»  como estes ?

Os dinossauros, enquanto espécie dominante muito tempo atrás, terão acabado por desaparecer da superfície da Terra por via dum fator externo à sua existência enquanto tal: um meteorito, com o nosso planeta colidindo, terá tornado a atmosfera imprópria para nela poderem continuar a sobreviver, assim se assistindo à sua extinção.

Se os dinossauros, por via desse fator externo, desapareceram, interrogamo-nos se a espécie humana não estará, também, ela, talvez mais cedo do que, porventura, se poderia esperar, sujeita a desaparecer, não por um qualquer fenómeno a si estranho, mas, ao invés,  pela forma predatória e destruidora como se comporta, seja em relação aos recursos naturais e ao meio ambiente, seja em relação a si própria, de que o caso da venda das máscaras viciadas será, apenas, um pequeno exemplo.

Temos vindo a viver num sistema capitalista cada vez mais selvagem, sem regras, de cada um por si sem olhar a meios, onde o omnipresente «mercado» se sobrepõe à governação de cidadãos para cidadãos, gerando no seu seio um cada vez maior número de contradições e crises, delas emergindo fossos cada vez maiores entre ricos e pobres; um sistema onde se assiste, acentuadamente, à privatização de lucros e socialização de prejuízos, como podemos,  mais uma vez e à semelhança do ocorrido no tempo da troika, observar, com muitos de mão estendida ao Estado,  quando, em tempo de «vacas gordas», o  vilipendiavam, não lhe entregando os impostos devidos, refugiando-se nos mais diversos paraísos fiscais que o sistema para esse fim teve o cuidado de gerar; um sistema onde se gasta em armamento o que, depois, falta em hospitais, em cuidados de saúde e dando à luz «marionetes»  como um Trump ou Bolsonaro.  

         Falar-se em combate às alterações climáticas, sem se ter  a coragem de questionar este modelo capitalista selvagem, não passará de mero oportunismo, será, como já tivemos oportunidade de escrever  nas paginas deste mesmo  jornal,  como tentar-se  tapar o sol com uma peneira.

   Tal como nunca existiram  impérios, por mais duradouros,  que sempre durassem,  dir-se-á que igual destino terão os sistemas socioeconómicos e que se os anteriores, como o  esclavagismo e o feudalismo, acabaram por sucumbir face a novas necessidades sentidas pela humanidade, também o vigente acabará por ser substituído por um outro melhor, de maior justiça social, de mais fraternidade, mais amigo do meio ambiente, em que os cidadãos, que não os «mercados», sejam quem mais ordena.

           A dúvida, porém, é saber, dado o seu acentuado carácter predatório e destruidor, se haverá tempo útil para que um novo e melhor o possa vir a substituir, antes que a espécie humana chegue a um ponto sem recuo conducente à sua extinção enquanto tal.

           Certamente, dependerá de cada um de nós, da capacidade da nossa militância cívica para o conseguir, por mais incompreensões e resistências que isso possa enfrentar, em particular dos mais novos, a quem  um amanhã será devido.

Luís Ganhão | Jurista