Deputados viram amanuenses!

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Conhecemos a expressão «ganhar na secretaria», muito usada no mundo do futebol, mas agora traduzida para a política pelo Dr. Paulo Portas, numa intervenção que proferiu na passada noite de 30 de outubro, creio que em Santa Maria da Feira.

Afirmou o Dr. Portas, que se o Partido Socialista e os «outros radicais», constituírem uma coligação «negativa» – porque é que as coligações à direita são positivas, mesmo que gerem resultados negativos, e as de esquerda são logo à partida negativas? – será uma vitória na secretaria.

Ficamos assim a saber que o Dr. Paulo Portas acha que o jogo parlamentar e a constituição de maiorias no seio da Casa da Democracia – ou agora já não é! – se lhe não forem favoráveis são meros truques de secretaria.

Que a Assembleia da República e o regime parlamentar não mereça crédito de partidos não democráticos, é compreensível, pois, para estes, ali se sentam os burgueses que constroem negociatas contra o povo.

Para o Dr. Portas esta nova visão «revolucionária» do funcionamento do Parlamento, é uma novidade, ou será um sinal de desespero?

Aliás, o Dr. Portas tem vivido estes últimos tempos entre duas angústias, a saber:

Se o PS e o PSD se entendessem, o CDS deixaria de ter a força que tem na atual coligação e seria dispensável.
As suas birras e as decisões irrevogáveis fariam parte de um programa de humor e não passariam de «fait-divers».

Se a coligação se situar à esquerda, o Dr. Portas deixa de governar e corre o risco da sua coligação se desfazer, quando cada um começar a acusar o parceiro sobre quem foi o culpado por não alcançarem a maioria absoluta.

Note-se aliás que, já hoje, o discurso do PSD aparentemente dialogante e conciliador com o PS – tardio, hipócrita e oportunista e ainda por cima verbalizado pelo Dr. Marco António Costa – não coincide com as declarações azedas do Dr. Paulo Portas.

Com que então ganhar no Parlamento é uma vitória de secretaria!

Isto é, as coligações só são democráticas se forem à direita. À esquerda são instáveis e contra natura!

Ao Dr. Paulo Portas só falta ouvi-lo dizer que a força do povo está nas ruas!

Mas quando os partidos «radicais» se juntaram ao PSD e ao CDS para chumbarem o PEC IV e derrubar o governo do PS, essa convergência foi natural e democrática e esses votos não estavam infetados, como agora!

Aí ninguém se preocupou com os compromissos europeus, com a NATO, etc, etc…

Calma e caldos de galinha não fazem mal a ninguém, reconfortam os nervos e retemperam a memória.

É da vida, Dr. Portas…

Opinião de António Pina | Militante Socialista