Como apanhar um Unicórnio?

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No fundo, todos os blocos fundamentais estão presentes no Algarve. Quem sabe, se não aparecerá um unicórnio no horizonte?

Há algumas semanas saiu neste jornal uma reportagem sobre Miguel Fernandes, cofundador da agência digital Dengun, e presidente da Algarve Evolution, uma associação empresarial que representa o sector digital da região.

Nesse artigo, o empreendedor reiterava o potencial da região para o acolhimento e criação de startups, empresas de crescimento exponencial; indicava ainda a esperança de ver uma destas ascender ao estatuto mítico de «unicórnio», uma empresa com uma avaliação acima de 1000 milhões de dólares. Poderá realmente o Algarve gerar uma empresa deste calibre?

À primeira vista, a probabilidade é parca. Um «unicórnio» é, tal como o animal lendário que lhe dá o nome, absolutamente raro; apenas sete empresas «nacionais» reclamam esse estatuto: a Farfetch, a OutSystems, a Talkdesk, a Feedzai, a Remote, a Sword Health e Anchorage Digital.

As aspas na palavra «nacionais» prendem-se com o facto dalgumas destas empresas não serem verdadeiramente portuguesas, mas por apenas apresentarem um fundador português. Por outro lado, das 50 startups com maior crescimento no país, não encontrei nenhuma que tivesse sede na nossa região.

Escavando um pouco mais, os dados não parecem abonatórios para o Algarve; os dados do Inquérito Anual sobre Inovação (CIS- Comnunity Innovation Survey) mais recentes colocam o Algarve como a segunda pior região do país para empresas inovadoras; apenas 43,5 por cento das empresas algarvias desenvolveram atividades de inovação durante o ano de 2020, contra os 52,2 por cento da Área Metropolitana de Lisboa e os 51,1 por cento da região Centro.

É a região que apresenta piores resultados tanto para empresas que introduziram inovação de processo (quando as empresas procuram melhorar processos ou metodologias), tanto como para inovação de produto (quando desenvolvem os produtos existentes ou criam novos produtos).

Os dados relativos ao impacto no volume de negócios da introdução de produtos verdadeiramente inovadores, ou seja, não comercializados por nenhum dos concorrentes, são também desencorajadores: representam apenas 1,4 por cento do volume de negócios no Algarve, o valor mais baixo verificado nas regiões analisadas.

As empresas apostam muito pouco na inovação no Algarve e, em consequência, retira-se muito pouco proveito da mesma.

A ideia de que o Algarve possa gerar um unicórnio parece, à luz destes argumentos, muito pouco convincente. E no entanto, talvez não devamos perder a esperança…

Brad Feld, no seu livro Startup Communities (cuja leitura sugiro a todos os que se interessam pela matéria), identifica na sua Tese Boulder, quatro componentes fundamentais para o desenvolvimento de um ecossistema de inovação de sucesso: deverão ser os empreendedores a liderar a comunidade; a existência de um compromisso e visão de longo prazo; a comunidade de startups deverá manter uma atividade contínua de forma a envolver os diferentes atores; e por fim, a comunidade deverá ser inclusiva para todos os desejam participar nela.

O Algarve corresponde positivamente a todos os componentes desta estrutura.

Ao contrário de muitas iniciativas que vemos no resto do país, no ecossistema digital do Algarve são os empreendedores que, através da Algarve Evolution, lideram o processo, trabalhando em conjunto com a Universidade do Algarve e com as demais instituições municipais e regionais.

O compromisso dos diferentes atores do ecossistema parece ser genuíno. Continuam a surgir iniciativas de divulgação e capacitação do ecossistema de inovação a um ritmo que não sugere que se tenha perdido o ímpeto.

A inclusividade do ecossistema de inovação mede-se não só pelas gentes que as move, mas também pelo grau e quantidade de eventos e grupos que surgem no seio deste ecossistema; nos últimos anos, o Algarve viu desabrochar uma série de iniciativas que, embora informais, beneficiam e introduzem dinâmicas de rede e de partilha de conhecimento que as embebem no ecossistema de inovação.

Por outro lado, o Algarve posiciona-se cada vez mais como destino de nomadismo digital, com profissionais qualificados, cosmopolitas e com outra bagagem de competências, que trazem sangue novo e novas ideias à comunidade local.

Grupos e iniciativas mais ou menos informais como o GDG Faro, o Free Code Camp Algarve, as Geek Sessions – Faro ou o Lagos Digital Nomads tem uma enorme importância enquanto cola para a comunidade de inovação digital do Algarve e devem ser saudadas e incentivadas.

No fundo, o que me dá esperança para o futuro da região, enquanto polo de desenvolvimento digital, é que, apesar dos dados estatísticos desencorajadores, todos estes blocos fundamentais estão presentes e posicionados para a criação de uma comunidade dinâmica e viva, liderada pelos integrantes da comunidade, autoalimentando-se e gerando, pouco a pouco, uma força gravitacional suficiente para atrair mais e melhores empresas para a região. Com tudo no lugar, quem sabe, se não aparecerá um unicórnio no horizonte?

António Guerreiro | Economista