Casa Inglesa celebra Centenário (1922 – 2022) ao serviço de Portimão

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A Casa Inglesa, fundada em 1922, comemora o centenário, um lugar de encontro e uma referência no mapa mental e mnemónico de Portimão.

A Casa Inglesa, fundada em 1922, comemora o seu centenário no presente ano. Embora sem o brilho e o vigor de outrora, não deixou de ser um lugar de encontro e uma referência no mapa mental e mnemónico da cidade.

A sua fundação deve-se a Pedro Joaquim Dias, um republicano com simpatia pelas ideias anarquistas que nasceu em Alcantarilha, em 1888 e morreu, com 55 anos de idade, no dia 4 de fevereiro de 1943, em Portimão.

Segundo o historiador António Ventura, foi negociante de frutos secos e conservas, viajante, marinheiro e «maçon», iniciado a 30 de janeiro de 1928, no triângulo nº 277 (GOL) de Portimão com o nome simbólico de «Reclus». Deste braço do Grande Oriente Lusitano foi também tesoureiro.

Do advento da 1ª República até 1913, Pedro Dias foi proprietário da Havaneza de Lagos, que em setembro desse ano passou a ser explorada por António da Silva Penna Peralta, um enérgico comerciante abastado que se dividia entre Lagos e Vila Nova de Portimão.

Por sua vez, a Havaneza de Portimão, propriedade do Salvador, situada numas antigas casas em frente do Dias Fotógrafo, hoje CTT Manuel Teixeira Gomes, que entretanto foram demolidas, passou para o edifício onde hoje se situa o Millennium BCP (antiga residência da Viscondessa de Alvor), à direita do espaço onde Pedro Dias iria inaugurar a sua nova Havaneza, a partir de 1922.

Estes espaços onde se podia apreciar com requinte finos tabacos e charutos cubanos, tiveram a sua origem numa ideia de dois comerciantes vindos de Antuérpia, François Caen e Charles de Vendin, na capital do reino já no ano de 1864, com a abertura da Havaneza do Chiado.

Desde sempre estes espaços estiveram ligados à modernidade, a uma certa intelectualidade artística e às tertúlias políticas, conforme nos dá nota Eça de Queirós, nas suas obras.

A Casa Inglesa, situada na antiga praça Visconde de Bívar, era uma sociedade com Augusto Mira Leal, diretor do jornal «Comércio de Portimão».

Segundo o seu antigo sócio Mira Leal, numa nota publicada por ocasião da sua morte, Pedro Joaquim Dias era um homem com excelentes qualidades morais, sendo estimado por todas as pessoas com quem conviveu, embora fosse um homem pouco comunicativo.

Curiosamente, embora em campos políticos opostos, Pedro Dias tornou-se sócio com Augusto Mira Leal e Luís Moutinho da empresa tipográfica Lúmen Lda, situada na rua Machado Santos, n.º 10 – Portimão, em 1925.

Esta sociedade com Mira Leal terminou em 1927, ano em que se iniciou a publicação do único órgão noticioso da cidade em defesa do regime e da região, durante cerca de trinta anos.

A Casa Inglesa ocupa desde a sua inauguração uma parte do prédio da Viscondessa de Alvor onde antes existiram as cavalariças e o palheiro.

No jornal «O Portimonense» de 5 de Outubro de 1922, podemos ler o seguinte: «Acaba de inaugurar-se nesta Vila o novo estabelecimento de Havaneza, livraria, papelaria e artigos de escritório que se denomina Casa Inglesa. A firma tem a designação de Pedro Dias, Lda. e é composta de três sócios sendo o senhor Pedro Dias o seu gerente, indivíduo bastante conhecedor deste ramo de comércio, pois vem-no exercendo com muito tato há alguns anos na cidade de Lagos, onde é proprietário da Havaneza daquela localidade. Este senhor dispõe da melhor competência para desenvolver as bem montadas secções de papelaria e livraria que tivemos ocasião de observar no ato inaugural. A instalação deste estabelecimento é muito elegante, sendo vasto o sortimento de livros com especialidade de obras de fundo. Os proprietários não se pouparam a despesas e cremos ser, no género, a mais completa e bem montada casa da província, que está também habilitada com um esmerado serviço de restaurante. Fica desde agora esta vila dotada com mais um estabelecimento rico de arte e conforto mercê do bom gosto artístico do senhor Dias. Os seus visitantes são todos unânimes em renderem-lhe as melhores referências que vêm confirmar o que aqui dizemos».

Após a morte de Pedro Dias em 1943, passaram a gerir a famosa casa os senhores Casimiro Calvário e mais tarde Júlio Marreiros.

Nas décadas de 1950 e 1960, era o ponto de encontro de Portimão. A existência de duas mesas para os jogos de damas e xadrez e duas mesas de bilhar (onde davam lições o Coelho e o Canelas), secções de livraria, papelaria com edição de postais ilustrados, perfumaria e tabacaria, tornava o espaço de cafetaria e restauração seletivo da clientela portimonense e dos ilustres visitantes.

Recorda Luís Anacleto que discutiam-se os faits divers da cidade, relatavam-se os últimos boatos políticos (os agentes e informadores da PIDE vigiavam e a pouco e pouco aproximavam-se dos grupos, que prudentemente mudavam para o tema futebol).

Já tinham sido levadas a cabo as obras que aumentaram o espaço do estabelecimento, criando a zona chique, popularmente conhecida por «Aquário», e a notável livraria.

«Lembro o sabor ímpar dos pingados que, como miúdo, era o máximo que almejaria saborear em bebidas de café. Também recordo a impressionante máquina de café, com filtro de flanela, que produzia um verdadeiro néctar e não uma bebida sensaborona. As mesas fervilhavam de comentadores sobre os fait divers e, quando aquecia o tom, eu recebia instruções discretas para ir brincar lá para fora».

«Lembro também um Natal frio, porta semicerrada para proteção (os estabelecimentos da época aqueciam-se com as perdas caloríficas dos frequentadores…), em que subitamente entrou, com etílica efusividade, o conhecido Mr. Thyler, morador e benemérito de Ferragudo, que vinha com um tonitruante Merry Christmas!, saborear mais um cafezinho e, talvez, rematá-lo com um medronhito».

Os mais antigos frequentadores, como Constantino Romão, acrescentam que era na Casa Inglesa e na sede do Portimonense «que se sentia verdadeiramente o pulsar da cidade. Não era toda a gente que frequentava a Casa Inglesa. Já não falando de mulheres, era sabido que pescadores e operários raramente passavam por lá. Era local de encontro e convívio de industriais, comerciantes, professores ou empregados de escritório. Havia um canto da sala um espaço reservado aos jogadores de xadrez; eram pessoas que ali passavam parte do seu tempo livre numa atitude silenciosa e pensativa que intrigava quem não percebia nada daquele jogo».

A Casa Inglesa possuía anexa ao café uma livraria onde se encontravam as edições mais recentes num tempo em que em Portugal a saída de um livro constituía um acontecimento.

Rolando Rebelo recorda ainda que logo após a assinatura dos Acordos de Alvor [15/01/1975], toda a comitiva, pelo menos a portuguesa, foi beber café à Casa Inglesa.

«Eu no alto dos meus sete anos, lá estava. Não para assinar, mas curioso do porquê da presença de tantos militares, de tanto carro luxuoso, e de tanta gente interessada, no lado de fora. Recordo-me perfeitamente de ver o general Costa Gomes, figura que reconheci dos noticiários televisivos e dos jornais da época».

No seu interior entre outras peças artísticas decorativas, podemos apreciar a icónica tela de Max Tams. A personagem retratada é José Costa, natural das Caldas de Monchique, em quatro poses diferentes, provavelmente em fases etílicas diferentes por ação do medronho que segura na mão.

Max Tams era um, dizia-se, dinamarquês que se instalou nas Caldas de Monchique nos anos da Segunda Guerra Mundial. Segundo se dizia também era engenheiro químico e dedicava-se à pintura. No final da guerra deixou Monchique e ninguém mais o viu, o que alimentou a suspeita de que seria um espião alemão…

Embora não tenha lugar, por razões que desconhecemos, na obra de Fernando Franjo, 50 Cafes Historicos de España y Portugal, estamos certos que a Casa Inglesa é o mais antigo do género no Algarve e o primeiro a completar 100 anos de existência sem nunca ter fechado portas.

Parabéns, Casa Inglesa!