Carta a Rui Rio

  • Print Icon

Divergências ideológicas à parte, devo confessar que não deixei de nutrir toda uma simpatia por si quando, no início da campanha eleitoral, o vi manifestar-se, sem tibiezas, contra esse «cancro» que vem grassando na nossa sociedade e que se traduz em julgar-se na praça pública o que tem um lugar próprio onde ser feito, nos tribunais. Julgamentos esses em que as pessoas, ainda que, depois, absolvidas no local próprio, se acabam por ver com marcas que, dificilmente, serão apagadas com o tempo, se é que alguma vez virão a sê-lo. Veja-se, a mero título de exemplo, o passado com o seu próprio companheiro de partido Miguel Macedo, enquanto ministro da Administração Interna, no «caso dos Vistos Gold».

Isto, quando outros responsáveis políticos se escudam num «à política o que é da política e à justiça o que é da justiça», como se a política não se devesse pronunciar sobre essa pseudo-justiça traduzida nos ditos julgamentos na praça pública, numa negação daquilo que deverá ser, verdadeiramente, um Estado de Direito.

Todavia, igualmente, confesso, que a simpatia, foi, infelizmente, de pouca duração.

Na verdade, na procura embriagada do poder, o Dr. Rui Rio não resistiu, logo a seguir, a alimentar o que, anteriormente, denunciava, ao, no «caso Tancos», dar como verdade adquirida, antes de ela ser apurada em Tribunal, que o ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, teria tido conhecimento antecipado da «farsa» da descoberta das armas. Só porque o MP disso o acusou, como, também, acusara em tempos Miguel Macedo, mau grado Azeredo Lopes continuar a negar tal facto e indo, por isso, pedir a respetiva abertura de instrução.

Talvez, por «reviravoltas» assim, é que o cidadão comum se mostre descrente na «classe política», com elevadas taxas de abstenção nos atos eleitorais, descrença de que o Dr. Rui Rio, curiosamente, tanto se queixa e tem vindo a denunciar!

Luís Ganhão | Advogado