Bilhete de ida e volta na linha modernista Lisboa-Algarve

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Quem entrar na «Brasileira do Chiado», em Lisboa, observará ao fundo um painel, que é o central, assinado pelo pintor Bernardo Marques. «A Brasileira» foi o templo do modernismo português nos anos 1920 tal como o «La Coupole» e o «Flore» no boulevard montparnasse parisiense.

O historiador José Augusto França, em «O Modernismo» (2004), salientou o importante papel de Bernardo Marques na segunda geração do modernismo, sendo que a primeira foi a do movimento Orfeu. De facto, foi a Bernardo Marques que foi encomendada a decoração de «A Brasileira» em 1924. Sigamos então as pegadas desse pintor a quem França disse ter sido «o mais talentoso evocador da paisagem portuguesa».

Bernardo Marques nasce em Silves em 1898. Termina o curso liceal no Liceu de Faro, numa época em que apenas havia 6º e 7º ano (atuais 11º e 12º anos) na capital do Algarve. Contudo, o destino bateu-lhe à porta. Desse provável ano de 1915, ou mesmo de 1916, Bernardo Marques recorda que, enquanto «estudante do Liceu de Faro, ali assistiu a uma exposição de pintura de Jorge Barradas e Carlos Porfírio, que de Lisboa tinham ido expor ao Algarve» segundo o testemunho de Marina Bairrão Ruivo (in «Bernardo Marques», 1993). Os dados estão lançados: surpreende-se assim uma inesperada movida modernista no Algarve, centrada em Faro e protagonizada por gente muito jovem.

Carlos Porfírio, apenas três anos mais velho que Bernardo Marques, nascera em Faro e já flirtara com o impressionismo (cf. a tela «Amendoeiras em flor» no Museu Etnográfico de Faro) e passara tempos por França enquanto Barradas, embora não sendo oriundo do Algarve, desenhou desdobráveis de partituras para «corridinhos».

Mas a grande surpresa surgiu logo a seguir em 1917: o grupo Orfeu prepara-se para lançar a revista «Portugal Futurista» mas não encontram em Lisboa ninguém que arrisque ser o editor.

A participação é constituída por Santa-Rita Pintor, Almada Negreiros, Amadeu de Sousa Cardoso, e Fernando Pessoa, entre outros… Surge então de novo, Carlos Porfírio a responsabilizar-se pela edição. Na revista eram apenas mencionados dois locais de venda: uma livraria na Rua do Ouro, em Lisboa, e a tabacaria Havaneza (Tavares Belo) em Faro, o que indicia uma grande cumplicidade entre as vanguardas estéticas de Lisboa e as do Algarve.

Entretanto, entra em cena a polícia da Primeira República e apreende a revista à saída da tipografia. Talvez por isso seja de realçar a injustiça com que José Augusto França contempla Porfírio pelos modos menorizadores como o trata.

Entram também em cena Roberto Nobre, bem como o provável Duarte Pacheco, sendo que este último, nascido em Loulé em 1900, termina o curso liceal em Faro, em 1917. E terá muito provavelmente participado na movida modernista de Faro, pois 10 anos mais tarde, já diretor do Instituto Superior Técnico, encomenda o projeto de arquitetura das novas instalações daquela escola. Não o faz aos arquitetos do quadro, mas sim a um exterior, o modernista Pardal Monteiro.

Roberto Nobre nasceu em São Brás de Alportel. Terá participado na mesma movida liceal tornando-se o marcador ideológico da segunda geração do modernismo, ao considerar Eça de Queiróz um pedante. Ao mesmo tempo que alça Ferreira de Castro como sua bandeira. E tanto ele como os restantes modernistas compõem capas para o livro «A selva».

Roberto Nobre vai residir para Olhão antes de partir para Lisboa em 1926. E aí encontra Francisco Fernandes Lopes, o homem que definira Olhão como «vila cubista» e ao qual Fernando Pessoa escreve em 1919, solicitando-lhe a fundação de uma revista de cultura, por só nele confiar para esse fim.

Reconstitui-se assim a rede da movida e de muito precoce constituição. A investigadora algarvia Patrícia Palma descobriu muito recentemente que o vocábulo «futurismo» apareceu pela primeira vez na imprensa escrita portuguesa em 1909, a bordo do jornal «O Heraldo», então publicado em Tavira (PALMA, Patrícia de Jesus – «Novos dados para a história do Futurismo em Portugal», in Modernista: Antologia de artigos da revista Modernista. Lisboa: IEMO / CHC – FCSH-UNL, p. 113-126).

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Jacinto Palma Dias licenciou-se na Universidade Paris VIII. É autor dos livros «Algarve Revisitado» (1994); «A metáfora da água…» (1999) e «Algarve 3D» (2012). É fundador da Quinta da Fornalha (Castro Marim) e agricultor biológico durante 20 anos.