Autárquicas com pequenas vitórias e grandes derrotas

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Seguiram-se este fim de semana mais umas eleições autárquicas, que infelizmente confirmaram algumas tendências menos positivas.

Primeiramente, a taxa de abstenção foi altíssima, apesar de ligeiramente inferior a 2013.

O Algarve em particular teve uma abstenção acima da média, com cerca de 54 por cento.

Isto quer dizer que os problemas que continuam a impedir o interesse e participação na política subsistem, com tendência de agravamento.

Algumas das propostas já debatidas para endereçar este problema continuam na gaveta ou adiadas, como por exemplo, os círculos uninominais.

Sobre os resultados, o PS domina completamente o Algarve no que toca Câmaras Municipais e representantes nas instituições autárquicas. Nos 16 municípios algarvios, elevou de 10 para 12 o número de câmaras que lidera na região. Assim, tem o triplo dos eleitos da força política em 2º lugar, o PSD.

A tendência foi de consolidação neste domínio, com a vitória em municípios que anteriormente eram dos social-democratas, como Monchique e Vila Real de Santo António.

As grandes vitórias do PSD em Lisboa, Coimbra ou Funchal não se replicaram no Algarve.

Não é que faça grande diferença na noite de Rui Rio, porque consegue claramente cumprir muito mais do que todos esperavam, apesar de ter objetivos modestos para a dimensão do partido.

Mas conseguiu silenciar a oposição e muito provavelmente ganhará as eleições internas do partido, partindo para as legislativas com alguma posição de força.

O Algarve em nada muda esse facto, mas deixa as estruturas regionais fragilizadas pela diminuição de poder local que o partido tem tido no distrito.

Existe também uma grande ameaça ao PSD no Algarve, a chamada «bazuca» europeia que irá disponibilizar fundos para o desenvolvimento regional.

Não é coincidência a constante referência a esta «bazuca» por parte de António Costa durante a campanha para as autárquicas (o que alguns poderão referir, com razão, de pouco ético).

Os fundos vão permitir o melhoramento dos equipamentos e infraestruturas em basicamente todas as áreas de atuação, na maioria dos concelhos.

Este tipo de obra muitas vezes vence eleições. É uma das razões pelo facto de ser tão difícil ganhar eleições a um autarca que está no poder.

A nível nacional, a CDU (mais especificamente o PCP) foi o grande derrotado, perdendo mais uma vez uma série de bastiões, sobretudo no Alentejo, mas também a grande surpresa Loures.

No Algarve, a CDU tem uma câmara, a da minha cidade, Silves.

Depois de 16 anos de PSD, a CDU venceu as autárquicas de 2013 em Silves. Voltariam a vencer em 2017 com maioria absoluta, maioria essa que repetem agora em 2021.

Existe, no entanto, uma tendência que acompanha as restantes eleições do PCP dos últimos anos, a da diminuição de relevância.

A CDU em Silves perdeu quase 2000 votos e um deputado municipal. Provavelmente conseguiram manter a maioria absoluta no executivo porque existiram muitos mais votos em partidos mais pequenos do que o normal, como Chega e IL (juntando ainda BE e CDS-PP) e também pela diminuição dos eleitores do concelho.

Esses votos foram diluídos e assim impedidos de contar para um possível vereador extra do PSD ou PS.

No entanto, a Assembleia Municipal fica agora aberta a uma nova presidência, tendo em conta que a CDU não está minimamente alinhada com qualquer outro partido com assento naquele órgão.

A queda do PCP está ligada ao envelhecimento demográfico português, sendo que o seu eleitorado é tradicionalmente mais velho. Os mais novos de ideologias semelhantes não são captados, e aqui, o BE funciona como uma barreira.

O aparecimento de outros partidos como o Chega também acelerou a sua degradação. No entanto, nos últimos anos, por força da chamada geringonça, o PS tem atraído bastantes antigos eleitores do PCP, aliás como se viu nestas autárquicas, com uma série de câmaras municipais a trocar comunistas por socialistas, inclusive bastiões históricos como Montemor-o-Novo.

É também importante mencionar os novos partidos, Chega, IL e PAN. Todos derrotados, devida à sua estrutura local praticamente inexistente.

No entanto, o Chega teve um crescimento superior aquele que foi o crescimento do BE aquando da sua fundação.

O Chega apenas é derrotado porque (ao contrário do PSD) elevou demasiado a fasquia, acreditando numa estrutura e num eleitorado que não (ainda) existem.
O Chega, tal como o BE, é um partido de causas. Apesar de bastante diferentes, não são partidos autárquicos com estrutura condizente.

Essa é a razão das suas derrotas (o BE nunca teve bons resultados autárquicos, salvo pequenas exceções).

O Chega de facto está instalado no nosso país, mas nada indica que pode passar a barreira dos 15 por cento.

A única forma seria atrair a abstenção, que é altíssima, mas tal não se verificou em nenhuma eleição. O eleitorado base do PSD não vota Chega, e o CDS-PP já não tem mais eleitores para dar, sendo que se tornou quase irrelevante.

Por ultimo, o CDS-PP é uma força política que se assemelha ao PAN em termos de eleitores a nível nacional, valendo entre 1 a 2 por cento.

Ainda assim vive das suas estruturas autárquicas bem assimiladas e conseguiu alguns bons resultados.

Bons resultados esses que não irão nunca apagar o facto de se ter tornado irrelevante politicamente a nível nacional, estando mesmo em risco de sair do parlamento em 2023.

Convém também mencionar que muitas dessas estruturas locais vivem de acordos com o PSD, pelo que há o risco da criação de uma relação parasitária caso a deterioração do CDS-PP acelere ainda mais.

Miguel Braz | Consultor Internacional de negócios