António Guterres e a diplomacia portuguesa

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António Guterres é, por estes dias, a figura central da malha mediática portuguesa e internacional. Em causa está a sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, que acolheu, na semana passada, a unanimidade dos membros do Conselho de Segurança. Embora o favoritismo recaísse sobre a candidatura de uma mulher ou de um representante do Leste, Guterres demonstrou, durante as seis rondas de votação, ser mais constante e consistente.

Do lado britânico, obteve um importante apoio diplomático, beneficiando do afastamento – político e ideológico – que o Reino Unido tem para com a União Europeia. O eixo franco-alemão demonstrou-se inoperante, com a França a apoiar o candidato português, numa clara demarcação da posição alemã, apostada na candidata Kristalina Georgieva. Os Estados Unidos da América depositaram o seu voto de confiança na argentina Susana Malcorra, mas cedo viram em Guterres uma alternativa viável, sobretudo após as primeiras votações que mal posicionavam esta candidata. A Rússia apoiou Irina Bokova, embora fosse claro, nas votações finais, que Guterres colhia as simpatias russas. A República Popular da China não colocou obstáculos às pretensões portuguesas, e foi fundamental a tendencial neutralidade com que se posicionou no processo.

A diplomacia portuguesa correu todos os bastidores internacionais, e demonstrou, durante toda a candidatura de Guterres, ter força e influência suficientes para se posicionar entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, os quais detêm poder de veto sobre todas as questões que lhe são apresentadas. O cenário político internacional, beneficiou também o candidato português. A crescente tensão entre os EUA e Rússia, despoletadas pelas crises Crimeia e Síria, fortaleceram o ensejo de intensificar os entendimentos diplomáticos, iniciados por Guterres, enquanto Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

A estratégia de segundas escolhas justificam, em parte, o sucesso. Não descurando o mérito de Guterres, os esforços diplomáticos portugueses prestaram um grande e decisivo contributo no planeamento da candidatura. Em termos simplificados, criaram as condições necessárias para que os membros do Conselho de Segurança convergissem, aguardando que as divergências afastassem os candidatos designados em primeira linha. A estratégia diplomática foi um sucesso, digna de elogios por parte das restantes delegações internacionais.

Contudo, e em bom rigor, o trabalho árduo está ainda por vir. Ao assumir o cargo de secretário-geral da ONU, Guterres ver-se-á em mãos com questões internacionais bastante delicadas. Se a crise dos refugiados é um assunto incerto na ordem do dia, por outro, a solução para o conflito da Síria exige diligências sensíveis. A problemática do Médio Oriente e a dispersão do terrorismo, a par da crescente onda dos nacionalismos ocidentais, parecem desestabilizar a paz mundial, e alimentar um clima de permanente tensão. Ao nível interno, isto é, do funcionamento da ONU, exige-se um equilíbrio de poderes, dado que o peso dos Estados ocidentais no Conselho de Segurança, mina a representação dos restantes, nomeadamente dos Estados Árabes, Africanos, e de Leste.

Ainda é cedo para prognósticos e se fazerem análises das intenções de António Guterres. Porém uma coisa é certa: é um ótimo princípio para o diálogo e para a concertação mundial, que haja um consenso inequívoco em relação ao próximo secretário-geral.

Diogo Duarte | Jurista