António Aleixo, um Homem Singular

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«Os poetas não têm biografia.
A sua biografia é a sua obra».
Octavio Paz

A literatura é coisa para letrados, supõe-se. Por isso um poeta que mal sabe escrever é qualquer coisa de raro e de inesperado. Mas pode acontecer. Porque o talento, o dom e o gosto pelo sabor das palavras não se confina nem limita às suas expressões escritas. Há também que contar com a oralidade. Que pode valer muito. É o caso de António Aleixo, um homem natural de Vila Real de Santo António. Vila onde nasceu em Fevereiro de 1899, para morrer em Loulé passado meio século.

Sofreu muito, que a pobreza e a doença nunca o deixaram de atormentar e penalizar. Mas, ainda assim, não conseguiram abafar a consciência de si, do seu mérito e da capacidade de exprimir o seu sentir em versos de uma qualidade singular. Viveu pouco e mal. Mas soube ver e exprimir o que via de injustiças e agravos que aos pobres e insubmissos eram feitos. Numa sociedade, tal como hoje, profundamente desigual. Sempre com a esperança de que as coisas haviam de mudar. Era assim o nosso António, esse poeta genial.

António ALEIXO, quadras manuscritas sobre papel, s./l., s./d.

Calcularia ele que, passados setenta e dois anos sobre o seu falecimento, a sua obra (composta por quatro livros e três autos) teria sido alvo de 55 edições? Que seria o segundo poeta português com mais livros de poesia vendidos, só ultrapassado por Pessoa? E o Torga até deixou escrito, num dos volumes do seu Diário para quem o quisesse ler, que as quadras do Aleixo eram superiores às «quadras ao gosto popular » do Pessoa. Palavra de escritor. Mas quem foi este António?

***

António Fernandes Aleixo nasceu a 18 de Fevereiro de 1899, em Vila Real de Santo António. E nessa vila foi baptizado a 24 de Junho do mesmo ano. Em 1906 vem, com a sua família, para Loulé. Em Loulé cumpre as primeiras letras. Mas, por falta de dinheiro, deixa a terceira classe incompleta. Vai trabalhar com o Pai, na fábrica de tecelagem de Manuel de Sousa Ignez.

O Pai, José Fernandes Aleixo (n. Loulé, 1870), era um operário de tecelagem incomum para a época, dado que apresentava raras características para um simples operário: sabia ler e escrever, tinha dotes de oratória e gostava de tocar guitarra e de compor versos de improviso. Fora isso, foi um destacado «propagandista social», uma espécie de sindicalista dos nossos dias. E, nessa qualidade, esteve na fundação de três Associações de Classe de Operários Tecelões no Algarve – a da Faro, em 1902; a de Vila Real de Santo António, em 1903; e a de Loulé, em 1915. Associações de Classe que tinham, normalmente e quase sempre, o anarco-sindicalismo como base ideológica.

Deste modo, entre 1912 e 1919, ou seja, entre os seus treze e vinte anos de idade, o jovem António vai trabalhar com o seu Pai. É aprendiz de tecelão. Vive e apreende muitas das preocupações sociais defendidas pelo seu progenitor. Preocupações que o seu inquieto espírito mais tarde traduzirá na sua mensagem poética. Aleixo era, por essa altura, um «poeta em construção». E o meio proletário a sua verdadeira «escola da vida». Ou não tivesse ele, mais tarde, cantado:

«Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado;
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado».

Irá cumprir praticamente todo o seu serviço militar em Faro e em Tavira, como o soldado nº 1.242 da 5ª Companhia do Regimento de Infantaria nº 4. Primeiro como «soldado aprendiz de corneteiro» e, meses mais tarde, como «2º Cabo Corneteiro ». A musicalidade sempre presente. Na vida, como na tropa. Terão tido os sons tirados da corneta uma influência no desenvolvimento e melhoramento da sua rara capacidade de métrica mental?

Concorre a uma vaga na Polícia Cívica de Faro. Ganha o concurso. Entra nessa corporação policial. E nela irá permanecer cerca de dezoito meses (de 7 de Julho de 1922 a 8 de Janeiro de 1924). Não se adapta à função. Como era previsível. Porque dificilmente as funções inerentes a um polícia se coadunariam com o seu espírito livre. Assim, sem surpresa, pede a sua própria exoneração. Regressa a Loulé.

De novo em Loulé casa, em Março de 1924, com uma empregada da fábrica de tecelagem, colega do Pai, Maria Catarina Martins. Têm sete filhos – um morre prematuramente, restando quatro meninas e dois rapazes; o mais novo deles ainda hoje vivo.

Em 1928 chega a vez de emigrar para França. À procura de melhor sorte. Anda por Marselha, Lyon, Toulouse, Paris, entre outras cidades, sempre a trabalhar como servente de pedreiro. Em 1931 regressa a Portugal. Voltava a não se adaptar.

De 1931 a 1933 é cauteleiro e vende gravatas. O seu génio é, de todos, já bem conhecido. Participa em vários Jogos Florais. Num deles, em 1937, conhece, na sede do Ginásio Club de Faro, Joaquim Magalhães. Ficam amigos para a vida.

Entretanto, a saúde do poeta piorava – seria mesmo operado em Lisboa, no hospital de Santa Marta, a uma úlcera e a uma hérnia do estômago, em Março de 1941 – e a sua situação económica também.

Em 1943 é editado, pelo Círculo Cultural do Algarve, o seu primeiro livro. Joaquim Magalhães, compilador e organizador dessa publicação, dá-lhe o título de um dos seus versos – Quando começo a cantar…

E apresenta a poética do autor do seguinte modo: «a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso» [Cf. Joaquim MAGALHÃES (1943), «Explicação Indispensável », in Quando começo a cantar…, Faro, Círculo Cultural do Algarve, p. 8]. Palavras certeiras. E o sucesso foi imediato: 1.100 exemplares vendidos em apenas dois meses. Ajuda preciosa para quem sempre sofreu de carências financeiras.

Mas a saúde não o deixava de atormentar. E, no início de 1943, é-lhe diagnosticado uma tuberculose pulmonar. Doença séria, mortal para época. E não restava outra alternativa do que o internamento. Entre Junho de 1943 e Julho de 1949 foi doente interno no Hospital Sanatório da Colónia Portuguesa do Brasil, no sítio dos Covões, em Coimbra. E ainda vê serem-lhe editadas duas obras – Intencionais, em 1945, e o Auto da Vida e da Morte, em 1948, ambas, novamente, pelo Círculo Cultural do Algarve. Porque o Auto do Curandeiro só seria publicado em 1950, poucos meses após o falecimento do poeta.

Durante esse período Aleixo conhece, convive e amiga-se com personalidades do meio cultural coimbrão. Convive com homens do teatro (Manuel Deniz-Jacinto, Paulo Quintela e Tóssan), com poetas (Afonso Duarte e Joaquim Namorado), com escritores-poetas (Miguel Torga), com escritores neorrealistas (Arquimedes da Silva Santos e João José Cachofel) e com médicos (Armando Gonsalves), que lhe fornecem um caldo de erudição cultural, até essa altura, pouco frequentado pelo poeta. As suas amizades enriquecem-se. O poeta erudita-se. E a sua mensagem poética marxiza-se, como é disso exemplo a seguinte quadra:

«A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
– Ganharmos em relação
Com o que se produzisse».

Estadia profícua, pelo menos ao nível intelectual. Que a doença nunca conseguiu ser convenientemente tratada. A estreptomicina, além de cara, chegara tarde. Joaquim Magalhães, anos depois, diria que, «em Coimbra, Aleixo aproveitou a sua estadia para se licenciar em letras e doutorar-se em Teatro». Palavra de «secretário».

Voltaria para Loulé em Julho de 1949. Para junto dos seus. Onde morreria na manhã cinzenta de 16 de Novembro de 1949. O poeta morreu, mas a sua obra perdura e perdurará para sempre. Haverá algum dia outro génio igual?

João Romero Chagas Aleixo | Investigador Integrado do Instituto de História Contemporânea – NOVA FCSH