Aljezur e o Foral de D. Dinis: o nascimento do concelho em 12/11/1280

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Embora sendo D. Afonso III, o primeiro rei de Portugal que assumiu verdadeiramente o Algarve, como parte integrante do território nacional, foi com D. Dinis, na vila de Estremoz, no dia 12 de novembro de 1280 que concedeu a primeira Carta de Foral à povoação de Aljezur, dando-lhe, deste modo, o estatuto de concelho.

Apenas no reinado D. Manuel I, Aljezur viria a conhecer uma segunda Carta, esta com características diferentes da primeira, marcadamente centralizador nas suas prerrogativas em relação ao poder régio e a consecutiva perda de influência dos senhores da terra seriam os fatores determinantes dos chamados Forais Novos, a maior parte, para o Algarve, datados de 1504.

Nas comemorações dos seus 740 anos tentaremos traçar um itinerário da origem do seu concelho associado à Ordem de Santiago e da sua igreja matriz, com destaque para o sino da igreja de Santa Maria de Alva, o qual constitui, eventualmente a maior manifestação da religiosidade da vila que chegou aos nossos dias e que nos transportam para os tempos medievais vividos pela população de Aljezur a partir de 1280.

1) A tomada do castelo pela Ordem de Santiago nos finais da primeira metade do século XIII

O castelo como zona estratégica de defesa do seu rio e da orla marítima (localizada a longa distância), apoiado por um conjunto de atalaias, sobretudo as edificadas junto à sua costa, nomeadamente as da Arrifana, do Medo e de Torre de Espada, possui uma grandeza e localização excecionais.

A tomada deste castelo aos mouros ter-se-á dado sem grandes sobressaltos através da rendição (ou de algumas escaramuças entre as partes) de em pouco expressivo grupo de guerreiros muçulmanos que estavam no castelo quando da investida dos espatários liderados por D. Paio Peres Correia, passando, doravante, a fazer parte da propriedade régia.

Não faz, pois, sentido o que ancestralmente tem sido registado como tradição prefigurando um conjunto de lendas que ainda hoje se vinculam e que têm emoldurado a cultura popular, tanto de Aljezur como da historiografia regional.

Aliás, a consistência das mesmas, na historiografia local, continua a perpetuar-se no Tempo, quando a História nos ensina que não faz sentido assumi-las quando não existem documentos estando estes, como sabemos, na origem de uma determinada localidade.

Conhecemos a lenda de D. Paio Peres Correia que terá tido a ajuda de uma moura, de nome Maria Aires para entrar no castelo, aproveitando uma tradição local da sua população e da guarnição do castelo, pois no dia 24 de junho as gentes da terra tinham o costume de irem a banhos na praia da Amoreira.

Os cruzados terão entrado no castelo e os mouros dando conta da invasão do mesmo, depressa terão saído da praia para entrarem no castelo onde, ao tentarem na fortificação, terão sido chacinados e as suas cabeças atiradas para as encostas do castelo. Hoje ainda se mantém na toponímia a rua com o nome de cabeças e a zona onde os mouros foram mortos tem o nome de degoladouro.

O recurso a estratégias de amores proibidos e de seduções religiosas antagónicas encontra-se frequentemente presente na historiografia da Idade Média, sobretudo quando se pretende enaltecer as forças vitoriosas em presença.

Outra lenda também muito conhecida, esta deveras interessante, refere-se à guarnição do castelo repleta de guerreiros comparativamente com as tropas dos Cruzados, que estes, nas vésperas da conquista, terão degustado um caldo à base de batata-doce, o qual lhes terá dado uma força desmentida e ânimo tais que irromperam pelo castelo e mataram os muçulmanos que defendiam a fortificação.

Como é do conhecimento geral, este tubérculo apenas entrou na Europa (via Cristóvão Colombo) em 1495 e em Aljezur, sobretudo no século XVI ou XVII.

2) Do rei conquistador ao súbdito de Afonso X de Leão e Castela

Afonso X rei de Leão e de Castela, também conhecido pelo Sábio, reclamando que as terras do reino do Algarve seriam propriedade sua, tendo como justificação que desde o reinado de D. Sancho II, os portugueses tinham a obrigação de o ajudar com um exército de 50 lanças nas campanhas contra os mouros, foi sucessivamente contrariado por D. Afonso III sobre tal sujeição.

Após dois anos de lutas pela resolução do diferendo, foi firmado um acordo entre ambos, tendo ficado assente que quando nascesse o seu neto (o futuro rei português, D. Dinis, filho de D. Afonso III e do seu segundo casamento com D. Beatriz de Castela, filha bastarda de Afonso X), Portugal deixaria de estar sujeito à obrigação de auxiliar o rei castelhano.

Porém, isto só viria a acontecer a 16 de fevereiro de 1267 (tendo D. Dinis nascido em 1261) por carta dada por Afonso X, conhecida como o Tratado de Badajoz, no qual se ordenava que se entregassem ao rei português, os castelos de Tavira, de Loulé, de Faro, de Portimão, de Silves e de Aljezur e toda a terra do Algarve com suas pertenças e direitos.

Com este Tratado, as fronteiras entre os dois reinos passaram a ter o rio Guadiana como limite e a partir de 1268, D. Afonso III assume o título de rei de Portugal e do Algarve. Porém, seria no reinado de D. Dinis (Tratado de Alcanizes de 12 setembro de 1297) que as fronteiras a norte e a sul ficariam delimitadas entre os dois reinos.

3) A edificação da Igreja de Santa Maria de Alva com as Armas da Ordem de Santiago

Embora não tenha chegado aos dias de hoje, conhece-se a existência da igreja, pelo menos desde 1320-1321 onde estava incrustada a pedra com a heráldica da Ordem de Santiago na fachada da mesma (hoje depositada no Museu Municipal de Aljezur), assim como a existência de dois sinos no seu campanário, restando atualmente apenas um que apresenta várias características muito importantes, encontrando-se à observação do visitante no Museu de Arte Sacra da Santa Casa da Misericórdia de Aljezur.

Provavelmente é um dos mais antigos sinos existentes dos séculos XIII-XIV. Equacionamos a possibilidade de o templo estar construído quando da primeira visita de D. Dinis ao Algarve (1282), tanto mais que Aljezur já detinha Foral, mas de certeza que já estava aberta ao culto dos seus habitantes quando da sua segunda visita em 1302 ao reino do Algarve.

Esta hipótese assenta no propósito de que D. Dinis anos, mais tarde, manda fazer um levantamento da população do País e em 1320-1321 sabemos tanto da existência desta igreja como do cômputo da sua população onde são mencionados 10 Besteiros do Conto. Isto é, o sino referido, se não é datado do século XIII é pelo menos datado dos anos 20 do século XIV.

Ao efetivar-se este nosso raciocínio e tendo presente alguns elementos inseridos no sino medieval (embora o mesmo possa ter sido refundido posteriormente, indiciando esta constatação alguns vestígios dessa possibilidade estar associada à sua asa não se apresentando a mesma integrada no todo da peça, mas como parte integrante, terá sofrido uma junção motivada, por exemplo, por quebra violenta) o corpo ou barriga do sino apresenta vários carimbos (que começaram por ser em madeira, sendo depois passados a cera e subsequentemente a bronze), os quais foram implantados.

Apresenta ainda dois cordões com legendas (de um conjunto de quatro) em letra carolíngia-gótica, típica dos finais dos séculos XIII-XIV, embora não coloquemos de parte a presença apenas da letra gótica neste sino, muito expressiva também neste período. Dos elementos incrustados na barriga do sino destacamos três, sendo também os únicos, que merecem uma reflexão mais pormenorizada. Em primeiro lugar a imagem da padroeira da igreja, Santa Maria de Alva.

Sino da antiga igreja de Santa Maria de Alva patente no Museu de Arte Sacra da Santa Casa da Misericórdia de Aljezur. Possivelmente, um dos mais antigos de Portugal.

De relativas dimensões em função do corpo do sino no seu todo, apresenta a imagem de Nossa Senhora coroada com o Menino ao colo, ambos enquadrados por um arco gótico, realçando o esplendor de ambos, qual moldura geométrica de expressão icónica da Arte Sacra e Litúrgica da Igreja Católica.

Tanto Nossa Senhora como o Menino estão envoltos num manto, diríamos mesmo, um manto celeste, protetor e que tem um efeito radiante exposto à luz natural. Para a Ordem de Santiago, a presença de Nossa Senhora é algo incontornável a par da presença de São Tiago a cavalo a combater os mouros conjuntamente com os guerreiros. O Menino Jesus ao colo de sua Mãe tem como representação a imagem do Salvador do Mundo, o Cristo rei do Universo.

A segunda imagem reflete-se na iconografia de Santa Bárbara. Na face oposta do sino, somos levados a admirar outra figura da Igreja Católica que não sendo esperada no contexto da representação figurativa da padroeira da igreja medieval e matriz de Aljezur, faria parte do mesmo templo religioso.

Do conjunto das igrejas pertencentes à Ordem de Santiago no Algarve, apenas encontramos como padroeira de duas delas, as igrejas de Faro e Tavira. Na Comenda de Aljezur nenhuma se encontra referenciada e nas Visitações da Ordem a esta vila, tanto para o século XV como para o século XVI não encontrámos nenhuma menção a Santa Bárbara.

Por que razão a encontramos no sino medieval da antiga igreja de Santa Maria de Alva?

A posição que ocupa no sino não é a mais importante nem ofusca a representação da padroeira de Aljezur, pois se observarmos atentamente a posição que a imagem de Nossa Senhora com o Menino detêm, sabemos que é a primordial, uma vez que a inscrição do cordão inferior nos dá essa certeza, tanto pela centralidade da inscrição como pelo conjunto dos elementos iconográficos em presença.

Considerando a existência de um campanário na igreja (o qual detinha dois sinos), este estaria sob a sua proteção, umas vezes confirmada pela inscrição com o nome da Santa, e outras no presente caso, com a sua própria imagem.

Embora Santa Bárbara esteja associada a situações de intempéries (trovoadas, relâmpagos) a sua proteção também estava associada à morte súbita, ou seja, à morte do individuo sem confissão nem extrema-unção, algo que, no período medieval era extremamente temido pelas populações.

Por último a representação de um cão da tipologia do galgo na posição invertida, indiciando que está morto. Como primeira constatação desta imagem, ocorre-nos que o fundidor não se terá apercebido da posição da imagem e quando da sua colocação na barriga do sino já não teve tempo de a colocar corretamente e a imagem ficou nessa posição para a posterioridade.

Conhecendo a especialidade técnica dos mestres fundidores dessa época e os custos associados à fundição dos sinos, custa-nos a acreditar que os mesmos não sabiam no erro em que ocorriam e o desprestígio que isso acarretaria para a sua vida profissional.

Sabemos, contudo, que a expressão artística deste tipo de representações está associada à morte, sendo a representação de um animal algo que seria a simbologia da fidelidade e da devoção ao seu dono. Transpondo para a realidade do ser humano, se os animais são exemplo fiéis de fidelidade e dedicação aos seus donos, os homens e mulheres devem ser exemplos da fidelidade, devoção e dedicação ao seu Criador.

O que importa neste momento referir (estudos mais pormenorizados estão a ser realizados ao nível académico) é porque aparece este animal num sino, o qual, de pequenas dimensões (de poucos centímetros), tem a notoriedade de se fazer realçar e deter a nossa atenção tal como as figuras anteriores.

A raça do animal visionado também nos impele para outra constatação. Na verdade, sendo Aljezur uma terra de caça, estes animais seriam utilizados para as caçadas e quem o imortalizou neste sino, desejaria chamar atenção para este tipo de atividade tão profícua em locais como esta vila e sobretudo no seu termo.

Algo surpreendente no contexto geográfico de uma vila que não tendo a importância de outras terras algarvias (Faro, Silves, Tavira), possui uma notoriedade prefigurativa ao nível da arte do simbólico religioso. Completam este sino vários elementos vegetalistas, para além das já mencionadas inscrições (alusivas à Ordem de Santiago) e de um sinete em bom estado de conservação.

Concluindo, tendo presente as figurações e conjuntos de inscrições patentes no sino, leva-nos a opinar que este terá sido encomendado apenas a um só fundidor ou apenas foi feita uma aquisição da peça e que à posteriori se juntaram os elementos descritos anteriormente.

De qualquer modo, o que podemos destacar como importante, atendendo aos elementos em presença e se estes forem datados aquando da edificação da igreja de Santa Maria de Alva, este sino, em bom estado de conservação, poderá, eventualmente, integrar-se no conjunto dos sinos mais antigos de Portugal, sendo, até ao momento, o mais antigo o da igreja de São Pedro de Coruche, datado de 1287.

4) A entrega do Foral por D. Dinis datado de 12 de novembro de 1280

Dos chamados Forais Antigos, anteriores à formulação dos conhecidos como Forais Novos (sendo outorgados por D. Manuel I em toda a região do Algarve, nos inícios do século XVI), conhecem-se os seguintes: 1266-Silves,Tavira e Loulé (estes três mesmo antes da integração efetiva da região, como pertença de Portugal); 1280-Aljezur; 1283-Cacela; 1286-Porches e em1304-Alcoutim.

Porém, já no tempo de D. Afonso III se vislumbra algo que diríamos ser o pronuncio de um corpus mais alargado e estruturado, aquilo que se viria a consubstanciar no Foral de Aljezur de 1280. Na realidade, trata-se de uma carta (onde também se mencionam os concelhos de Loulé, Silves e Tavira assim como Paderne) datada de 5 de fevereiro de 1269, na qual ficamos a saber da isenção do pagamento da jugada do vinho e do linho por parte dos habitantes de Aljezur. Pelo teor desta carta, a vontade do monarca indicia o desenvolvimento económico da região e no presente caso, de Aljezur.

Se Aljezur detém atualmente quase seis mil habitantes, há mais de 700 anos quantos habitantes viviam na vila e no termo?

Apenas sabemos que deveriam existir aglomerados populacionais junto ao castelo e nos arrabaldes junto às linhas de defesa espalhadas pelo seu território.

Aliás, a outorga de Foral em 1280, sugere-nos este juízo de valor, tanto para a população existente (cristãos que ao tempo da tomada do castelo viviam sob domínio muçulmano – os moçárabes), como para os muçulmanos que decidiram ficar em Aljezur e batizados em Cristo, contribuíram para o aumento populacional da nova vila do reino do Algarve.

O que realmente sabemos é que, tanto pelo rol dos Besteiros do Conto, do reinado de D. Dinis (1320-1321), como para os róis de 1385 e 1422 (reinando D. João I) e em 1422 (século XV a sua população era em número assinalável, mas não ultrapassaria as 2000 pessoas, embora em 1422 esse número fosse menor devido à crise económica geral e à quebra demográfica, tanto a nível nacional como regional. Para todo o Algarve, este era o concelho com menos habitantes, sendo o maior, o concelho de Tavira com mais de 6000 habitantes.

Foral de Aljezur concedido por D. Dinis em 12 de novembro de 1280.

Embora com todos os constrangimentos que nos são colocados para aferir o cômputo da população nesta época (1 besteiro = 213 habitantes), mesmo que os números anteriormente apontados não sejam os mais fidedignos, a população desta vila deteria um número substancial de habitantes.

Não esqueçamos que a sua ribeira era ampla, tanto em comprimento como nas suas margens e navegável até finais da Idade Média, assim como o seu vasto temo que entroncava nos limites do atual concelho de Odemira até às altas serranias de Monchique.

As suas ricas terras e pastagens atrairiam muita gente, sobretudo depois da tomada do castelo de Aljezur aos mouros e da organização concelhia com a concessão do seu Foral.

A segurança da população com a presença de membros da Ordem de Santiago seria uma garantia do seu desenvolvimento socioeconómico. Pela leitura dos textos das Visitações da Ordem a Aljezur, tanto as existentes para o século XV como para o século XVI, vislumbra-se a existência de um grande património financeiro, o qual não é acompanhado no tratamento devido das suas estruturas habitacionais localizadas na sua Vila-a-Dentro, sobretudo associadas ao património imobiliário da Ordem de Santiago, tanto ao nível das suas casas, como do próprio castelo.

A entrega de Foral, por D. Dinis, em 12 de novembro de 1280 (13 anos depois de ser pertença efetiva do rei português), tem como matriz o Foral de Lisboa e apresenta-se como um pergaminho quadrangular com as dimensões de 51 cm e 50 cm, conservando ainda vestígios do seu selo pendente. O texto do documento compreende 35 linhas de comprimento com 47 cm cada.

A exceção é a última que tem 7,5 cm. Tem algumas particularidades este Foral datado de 1280, nomeadamente no que se refere às salinas, não podendo o povo vender sal se não o do rei. Também os direitos dos fornos de pão seriam para o monarca.

Contendo 60 artigos ou capítulos e não sendo nossa intenção analisar o conjunto dos mesmos, destacamos um bem demonstrativo do poder da Igreja nesta concessão foralenga, cujos membros associados às igrejas existentes em Aljezur, seriam constantemente censurados e alvo de repreensões, sobretudo no século XV, de acordo com as Visitações da Ordem de Santiago de Quatrocentos.

– «(…) Dos clérigos – O clérigo (…) se for encontrado com alguma mulher a praticar ação vergonhosa, não lhe ponha o mordomo a mão em cima, nem o prenda de maneira nenhuma, embora possa prender a mulher, se quiser».

Com esta concessão inicia-se o processo de governação municipal, dando origem ao concelho, o qual terá sido visitado pelo próprio rei nos anos de 1282 e em 1302 quando da visita da sua deslocação ao reino do Algarve, nomeadamente a Silves e a Faro.

Embora a documentação nada nos saliente sobre as suas visitas a Aljezur, as mesmas poderão ter mesmo acontecido, atendendo à importância da vila uma vez que depois da sua primeira visita, quinze anos depois, a Ordem de Santiago passa a deter Aljezur como sua propriedade.

Cinco anos depois, o rei ao voltar à região deveria de querer tomar conhecimento dos eventuais desenvolvimentos acometidos na vila após essa concessão. O que é certo, doravante, a sua população teria de conviver com uma trilogia nada pacífica e muitas vezes atribulada, conflituosa: – o poder concelhio, o régio e o da Ordem de Santiago.

5) O Castelo e a igreja de Aljezur em 1 de dezembro de 1297

Trinta anos após esta localidade ser propriedade régia e 17 anos após ter recebido Foral, D. Dinis através de uma Carta de Escambo, com data de 1 de dezembro de 1297, troca Almada, pela vila de Aljezur e Marachique (próximo de Alvor), inserindo-se Aljezur, a partir desse momento, no conjunto de propriedades da Ordem de Santiago.

Quais as motivações do rei ao conceder a povoação de Aljezur por troca com Almada? Visão estratégica? Questões económicas? Motivações religiosas dando à Ordem de Santiago, maior amplitude e poder nesta zona do Algarve?

Na comenda de Aljezur estavam englobadas as igrejas de Santa Maria de Alva, a igreja do Hospital do Espírito Santo, a ermida de Nossa Senhora da Piedade da Ribeira de Odeceixe e a ermida de Santa Susana. Não esqueçamos que a Ordem de Santiago até 1288, nomeadamente o seu Mestre em Portugal, devia obediência ao seu superior que estava em Castela e a partir desse ano, pela Bula concedida pelo Papa Nicolau IV, Pastoralis officii.

D. Dinis consegue que a Ordem, em Portugal, passe a obedecer, embora sempre com oposição castelhana, a um Mestre português, tendo sido o primeiro, D. João Fernandes.

Ora, a passagem de Aljezur e da sua igreja para a Ordem de Santiago feita oito anos após a nomeação de um superior português para a Ordem, vem demonstrar a estratégia política do rei em relação ao Algarve (visitando-o pouco tempo depois, em 1302) entregando à Ordem um castelo, uma igreja e uma vila, localizados no extremo ocidente do reino do Algarve.

Se a entrega de Aljezur terá sido algo importante para o património da Ordem de Santiago, para o concelho de Aljezur, para as suas Vereações, tal já assim não aconteceu.

A comprovar este raciocínio, basta observar as Visitações ocorridas pelos Comendadores da Ordem nos anos de 1482 e 1490, nas quais se observa o declínio do castelo de Aljezur (praticamente arruinado); o mau estado das casas da Ordem e o estado de conservação das igrejas existentes, nomeadamente a de Santa Maria de Alva, a necessitar de restauros, praticamente sem manutenção, para além da não observância das práticas litúrgicas.

Tais conservações e manutenção da propriedade da Ordem seriam da responsabilidade das Vereações de Aljezur.

Outro exemplo é referido como sendo o comportamento criticável dos seus clérigos, muitos deles vivendo com mulheres. Se tivermos presente as prerrogativas do Foral de 1280, o mau comportamento dos clérigos de outrora, pelo contrário, não é questionado e não culpabilizado.

Outro fator de declínio do desenvolvimento e emancipação do concelho refere-se às interferências de membros da Ordem nas reuniões das Vereações de Aljezur, condicionando as suas deliberações, o que levaria o concelho a pedir a intervenção do rei.

O exemplo já conhecido de 1462 é bem expressivo do que referimos, onde a sua Vereação foi repreendida pelo Mestre da Ordem, não podendo aprovar posturas e taxas sem a presença dos representantes da mesma.

Em 1473, o castelo e a igreja de Santa Maria de Alva de Aljezur ficariam a fazer parte das propriedades do monarca, D. João II, simultaneamente rei de Portugal e Mestre da Ordem de Santiago até 1491.

Com a alteração de titular provinda da Bula Ex apostolice sedis, concedida pelo Papa Nicolau V, datada de 1452, reconhecia-se a autonomia da Ordem em Portugal, sendo à época seu Mestre, o Infante D. Fernando, duque de Viseu e de Beja.

O que D. Dinis tentara em 1288, com sucessiva oposição castelhana, D. João II obtém o que desejava, embora não em definitivo na pessoa do monarca, pois, apenas em 1551 se deu a incorporação do mestrado da Ordem na coroa portuguesa, sendo o rei (D. João III), a partir daí sucessivamente, o Mestre da Ordem.

As queixas das Vereações passariam a ser diretamente ao rei e Mestre da Ordem e não em função das ingerências da Ordem que por sua vez as passariam do Mestre para o monarca. Contudo, o seu quotidiano não se alterou em termos de não ingerências e obrigações perante a Ordem e a comprovar este raciocínio, devemos ter presente as Visitações ocorridas também no século XVI.

A vila de Aljezur, embora com um grande património ao nível de terras e de gado, alicerçada em grandes proventos económico-financeiros, dá-nos a conhecer, contudo, que não tinha condições dignas, ao nível da aposentadoria sobretudo para algumas dignidades que a visitassem.

Quando o Comendador da Ordem visitava Aljezur, durante o tempo em que se detinha na povoação (por vários dias) ficava alojado na vila de Lagos. Não sabemos se assim continuou ao longo dos séculos XV e XVI, mas a não existência de habitações, diríamos, casas de aposentadoria, é indiciadora da sua precaridade residencial de nível superior. Se não havia casas de aposentaria dignas de receber as dignidades da região, onde se teria alojado o Infante D. Henrique que a visitou por duas vezes e, por exemplo, no ano de 1425 quando assinou umas lembranças destinadas a João Gonçalves Zarco, estando este no Funchal?

Naturalmente que o panorama residencial à época não seria o vivenciado na segunda metade do século XV e terá ficado numas casas dignas de aposentadoria na zona da Vila-a-Dentro, sob a proteção do alcaide do castelo o qual era nomeado pela Ordem de Santiago, assim como terá ouvido missa na igreja de Santa Maria de Alva.

Se Aljezur não alcançou o protagonismo de outras vilas vizinhas, deveu-se à distância da sua sede de concelho em relação ao mar, o fator primordial que a inibiu desse crescimento económico.

A sua ribeira navegável outrora aos poucos deixaria de o ser e o fator de atração que Lagos começava a produzir nos seus vizinhos em redor. Tal situação levaria muita gente a deslocar-se para um litoral de proximidade, de gentes e de mercadorias para a promissora terra que recebera o rei D. João I em 1415, de onde partiu, com mais de 11000 homens para a conquista de Ceuta.

Se no século XIII Aljezur conheceu a sua incorporação na coroa portuguesa; o Foral de 12 de novembro de 1280 e em 1297 propriedade da Ordem de Santiago, a sua autonomia como concelho e vila, a partir dos finais do século XV, a sua interioridade e sobretudo a impossibilidade de crescer economicamente em virtude do assoreamento da sua ribeira, fizeram com que os interesses dos seus habitantes procurassem novos rumos.

Uns dirigiram-se para as Ilhas, sobretudo a ilha da Madeira; outros seguiram em direção a Lagos, Portimão, etc., vilas emergentes do período dos Descobrimentos Portugueses.
Ao comemorarmos os setecentos e quarenta anos da concessão do seu primeiro Foral, o qual lhe legitima a sua categoria de vila e concelho, tentámos recordar alguns dos seus caminhos num itinerário que tem a sua origem e integração na cristandade algarvia desde a segunda metade do século XIII.

Notas finais

O presente texto tem como suporte documental algumas publicações de nossa autoria, nas quais, mencionamos um conjunto vasto de Referências Bibliográficas que ajudarão o leitor a redescobrir a história da vila de Aljezur, sobretudo para este período: «Aljezur e os Descobrimentos Portugueses», Edição da Câmara Municipal de Aljezur, 2016; «O Foral Antigo de Aljezur – D. Dinis-1280, Fernando Calapez Corrêa in memorium, Introdução e Estudo Histórico, O Reino do Algarve, Território, Defesa e Fronteiras», Edição da Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur, 2015; – «O Reino do Algarve nos Finais da Idade Média/Os Concelhos Algarvios do Século XV», Edição de Autor, 2007; «Lagos Medieval», 2ª edição revista e atualizada, Edição de Autor, 2006 e – «Aljezur Medieval», Edição da Câmara Municipal de Aljezur, 2005.

Agradecimentos

  • Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur (ADPHA);
  • Câmara Municipal de Aljezur;
  • Santa Casa da Misericórdia de Aljezur.

Créditos fotográficos

Pergaminho com a carta de Foral de Aljezur datada de 12 de novembro de 1280 e assinada por D. Dinis (Adaptado) (reprodução na publicação «O Foral Antigo de Aljezur-D. Dinis-1280 (…), 2015»; Câmara Municipal de Aljezur (Castelo de Aljezur) e ADPH Aljezur (Sino da antiga igreja de Santa Maria de Alva (Aljezur).