Ajustamento Europeu. As circunstâncias não controlam o destino, as pessoas sim. 

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É em torno destas duas palavras que muitas mentes se encontram nesta fase europeia numa conjuntura particularmente desafiante.

Fosse esta reflexão realizada lá mais para novembro e, crendo no que se passa na América, bem podíamos estar a discutir o “Ajustamento Mundial”.

Por capricho do calendário escrevo numa altura de crucial importância para os cidadãos da Europa, para as empresas da Europa e para as nações da Europa.

Os britânicos, não entrando na discussão em torno da sua escolha, decidiram em referendo sair da União Europeia.

Qualquer que seja o resultado prático deste referendo, não tenho dúvidas que entraremos coletivamente numa nova era de ajustamento. Só não consigo antecipar se será positiva ou negativa para os cidadãos e para a Europa.

Mas, pensemos desta forma: não há mau tempo para uma boa ideia.

Parece-me evidente que a disponibilidade de liquidez nos mercados é uma condicionante no arranque de novos projetos.

Mas será que isso é necessariamente mau?        

Há quem defenda exatamente o oposto: a escassez de capital, típica dos períodos de ajustamento, funciona como o princípio darwinista da seleção natural.

Em períodos de bonança até pode haver quem ache viável financiar um fabricante de frigoríficos no Alasca. Mas projetos desses pura e simplesmente não vão sair do papel quando o capital é ultra escasso.

Para bem de todos, o capital tem de ser canalizado para os projetos geradores de inovação, de emprego e de bem-estar para as pessoas. Para os projetos que sejam verdadeiros aceleradores do progresso económico.

A rarefação de capital e o clima económico são variáveis importantes no racional do empreendedor.
Todavia, mais do que as anteriores, acredito que é a credibilidade das políticas e a confiança nos políticos que guia o comportamento dos empreendedores.

Caso contrário, como é que se explica que em Portugal, em 2013, no pico da execução do programa externo, por cada empresa que fechou portas tenha assistido à abertura de duas novas empresas?

Como é que se explica que em Portugal, em 2013, no pico do programa de ajustamento, o número de novas empresas tenha sido o mais alto desde 2009?

Como se diz por cá, a “necessidade aguça o engenho”. É quase uma verdade universal dita em português.
As circunstâncias não controlam o destino. As pessoas sim. 

A Procter & Gamble nasceu no Pânico de 1837 quando, em Cincinati, dois cunhados acharam que estavam melhor juntos. O negócio separado de velas e de sabonetes transformou-se numa sociedade familiar que é hoje um império de produtos de consumo com uma capitalização bolsista de 220 biliões de dólares.

A IBM é uma filha da Grande Depressão.

A FedEx deu os primeiros passos no auge da crise petrolífera de 1973.

José Neves criou um colosso de mil milhões de dólares, a Farfetch, no ano da queda do Lehman Brothers.

O mundo está cheio de exemplos de empreendedores que prosperaram em tempos adversos.
E se há lição que Portugal pode partilhar com o mundo, é que nunca é má altura para criar uma empresa competitiva.

Porque perante uma porta que se fecha, os empreendedores encontrarão sempre uma janela que se abre.
Com bom ou mau tempo. Com ou sem ajustamento.

Opinião de Carlos Gouveia Martins | Presidente da JSD/Algarve