Ai! Zé Povinho…

  • Print Icon

A senhora Secretária de Estado da Justiça descobriu que o Zé Povinho (para além de, deseducadamente, ser capaz de fazer «manguitos», acrescentaremos nós) será masoquista!

E como terá chegado Sua Excelência a essa conclusão?

De forma simples, sem necessidade de grandes e aprofundados estudos psicanalíticos de personalidade, nomeadamente freudianos:

Podendo o Zé Povinho dormir, descansadamente, até tarde, próprio de quem não necessita de trabalhar por lhe haver saído o Euromilhões ou a raspadinha e depois, calmamente, dirigir-se a um qualquer serviço público para aí tratar de um assunto qualquer, como, por exemplo, do Cartão de Cidadão (CC), num ambiente de luz, cor, alegria e simpatia, que acontece?

Tem o mau hábito de se levantar ainda o sol não nasceu e ir engrossar uma fila de espera de várias horas para alcançar uma almejada senha que, por sua vez, lhe dará direito a atendimento mais algumas horas depois!

Tudo num ambiente, entretanto, encrespado por via de tão mau hábito, quando não haveria necessidade nenhuma disso, como diria o Diácono Remédios!

Ainda se poderia pensar, no caso particular do CC, que se estaria perante insónias e ansiedade de se ver, orgulhosamente, na posse de um cartãozinho reconhecendo-o como luso cidadão e não ser, desconfiadamente, olhado como um apátrida qualquer.

Mas não, estar-se-á, apenas, perante puro masoquismo, o sentir prazer em auto-flagelar-se!

Entretanto, alguém deu por algum senhor deputado ou ministro, no recente debate sobre o estado da nação, preocupação mostrar pelo alto grau de abstencionismo que se vem registando em sucessivos atos eleitorais e de vivermos, por via disso, num Estado cada vez menos democrático?

Qual quê, o que importa é ser-se eleito deputado ou ministro ser-se!

Se o Zé Povinho não sabe cuidar de si, passando o tempo, nomeadamente e alienadamente, a ver sucessivas discussões futebolísticas na televisão (com a participação de ilustres deputados, só faltando, também, de ministros, como quem não tem a nação para pensar), em vez de votar em quem, condignamente, o represente, descanse-se, que eles, ainda que eleitos por minorias (elitistas), do Zé Povinho, mesmo assim, hão-de cuidar.

Tal como Salazar, generosamente, tutelava o, para ele, ignorante, mas bom povo português…

Finalmente, só um Zé Povinho assim ignaro terá dificuldade em perceber que um Diretor Distrital de Finanças tenha dado parecer negativo (entretanto, superiormente, acolhido) à nomeação de uma funcionária como chefe dum serviço de finanças a que tinha concorrido, atribuindo- lhe todo um rol de defeitos de ordem técnica e humana, quando, no ano imediatamente anterior a tal parecer, a avaliava, ele próprio, assim:

— Liderança e Gestão de Pessoas (capacidade para dirigir e influenciar positivamente colaboradores, mobilizando-os para os objetivos do serviço e da organização e estimular a iniciativa e responsabilização): Competência demonstrada a um nível elevado – pontuação máxima;

— Conhecimentos Especializados e Experiência (conjunto de saberes, informação técnica e experiência profissional, essenciais ao adequado desempenho das funções): Competência demonstrada a um nível elevado – pontuação máxima;

— Responsabilidade e Compromissos com o Serviço (capacidade para integrar o contributo das suas funções no sentido de missão, valores e objetivos do serviço, exercendo-as de forma disponível e diligente): Competência demonstrada a um nível elevado – pontuação máxima;

— Planeamento e Organização: (capacidade para programar, organizar e controlar a atividade da sua unidade orgânica e dos elementos que a integram, definindo objetivos, estabelecendo prazos e determinando prioridades): Competência demonstrada a um nível elevado – pontuação máxima.

Não há por aí alguém, em particular entre os doutos membros do Conselho de Administração da Autoridade Tributária, presidido pela Diretora-Geral da mesma Autoridade, que fizeram seu o parecer do Diretor Distrital de Finanças em questão, capaz de explicar, de forma racional e simples, ao Zé Povinho tal, aparente, contradição, de forma a ele deixar de ficar coçando na cabeça?

Caramba, também não é só cobrar-lhe impostos!

Luís Ganhão | Advogado