Luís Costa, Campeão Nacional de Paraciclismo

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Luís Costa, 42 anos, é inspetor da Polícia Judiciária. Natural de Castro Verde, reside e trabalha em Portimão. Em 2003, perdeu uma perna, num acidente de viação, tendo dedicado-se ao paraciclismo, em 2013. Hoje é e esperança para os Paraolímpicos de 2016.

No último fim de semana, após a entrevista exclusiva ao «barlavento», Luís Costa conseguiu um sétimo lugar no contrarrelógio e um oitavo lugar no fundo, no Campeonato do Mundo disputado na Suíça. A prova de fundo, «assim como subir e descer a Foia, três vezes», foi tão difícil que o campeão mundial de 2014 não fez melhor do que o sétimo lugar, a mais de doze minutos do vencedor, o antigo piloto italiano de Fórmula 1, Alessandro Zanardi. Costa irradia uma força de vontade contagiante e já está selecionado para participar nos próximos Jogos Paraolímpicos, em 2016, embora só tenha dois anos e meio de prática na modalidade. «Tem sido uma bola de neve. Desde o início até chegar ao topo foi uma coisa muito rápida».

barlavento – Já praticava ciclismo?
Luís Costa – Não, mas faço desporto desde muito novo. E também fui militar durante muito tempo. Foi só adaptar-me à bicicleta. Pratico a modalidade handbike, na qual, como o nome indica, pedala-se com os braços. Podia ter optado por correr em bicicleta de duas rodas, mas considero os braços a minha mais valia.

Apesar da curta carreira, já conquistou vários títulos, como o de campeão nacional de estrada, de contrarrelógio, de pista…
Não é nada de especial, porque, neste momento, sou o único da minha classe (H5). Basta-me acabar as provas para ser campeão. Faço as provas como treino.

E a nível internacional?
Este ano, trouxe duas medalhas de ouro de Abu Dhabi, duas medalhas de bronze de Itália, mais uma medalha de ouro na minha classe, e outra na classificação geral, em Bilbau; tive duas participações na taça do mundo, uma em Itália e outra na Suíça, com um quinto, um sexto, um sétimo e um oitavo lugares. O nível é diferente e as taças do mundo são muito exigentes.

As medalhas em duplicado significam que há mais do que uma prova?
As provas internacionais são sempre feitas em duas etapas: contrarrelógio e prova de fundo. A primeira tem, em média, quinze quilómetros. As provas de fundo variam, com um mínimo de sessenta quilómetros, na taça do mundo e no campeonato do mundo. Nas outras provas, o mínimo são quarenta quilómetros.

Como está a sua classificação, este ano, na taça do mundo?
Esta prova é disputada por pontos. São quatro eventos, com duas provas cada, sendo a classificação obtida pelo total de pontos obtidos no final. Este ano, só fiz duas das três jornadas e também não vou à próxima, na Alemanha, por opção da Federação, que preferiu que estivesse no campeonato nacional. O evento final é em setembro, na África do Sul, onde gostaria de participar. Mas não depende de mim, depende da Federação. O campeonato do mundo é uma prova de cada modalidade. Quem ganhar é campeão do mundo. Somos selecionados e vamos sempre em representação do nosso país.

E em relação aos paraolímpicos?
Estreei-me em 2013. Ou seja, no ano logo a seguir aos Jogos de Londres. Mas já estou qualificado, desde o final do ano passado, para os Jogos de 2016. Será a minha primeira vez. As vagas são conseguidas para os países e fui selecionado para a única vaga para Portugal. Também não era esperada outra coisa, já que arrecadei mais de noventa por cento dos pontos que deram origem à vaga. Era bom que houvesse outra, estamos a tentar, mas é difícil.

Os treinos nesta modalidade são solitários. Como lhe é dado o apoio pelo treinador?
O meu treinador é o selecionador nacional de para-ciclismo. O plano de treinos é feito por um técnico da Federação, o Gabriel Mendes. Sou acompanhado diariamente e o plano é adaptado aos objetivos seguintes. Sou analisado todos os dias, porque o treino fica gravado no ciclo-computador e é descarregado para um portal na internet. O meu treinador entra na minha conta e tem acesso a toda a informação. Faz as correções necessárias e avisa-me. Nos últimos meses, os treinos foram sempre dirigidos ao grande objetivo do campeonato do mundo, para estar na melhor forma, neste momento. Na próxima semana, veremos se o objetivo foi atingido. Como estou integrado na equipa olímpica, tem de haver um acompanhamento mais próximo por parte da Federação.

Nestes treinos individuais e sem treinador presente, é requerida uma grande força de vontade para treinar diariamente, certo?
É nessa altura que se vê a diferença entre quem leva isto a sério e quem não leva. Por isso é que consegui fazer o que já fiz, no pouco tempo que levo na modalidade. Começo o treino às 6 horas da manhã. No Inverno, pelo menos, a primeira hora de pedalada é feita ainda de noite. Mesmo no Algarve, a essa hora estão dois, um ou mesmo zero graus de temperatura. E chove. Apetece ficar na cama, mas não fico. É a diferença entre os que singram e os que ficam pelo caminho. Treino, em média, duas horas por dia.

Treina sempre de manhã?
Sim, por razões profissionais. Mesmo tendo estatuto de atleta de alto rendimento e, agora, uma bolsa olímpica, não dá para viver disto. Os apoios não chegam nem para metade do que é necessário. Gasta-se muito.

Patrocínios?
Tenho alguns e gostaria de agradecer-lhes publicamente. Sou patrocinado por: Alportil – Concessionário Skoda, Beto Fitness Club, Orica, Mediessencial – clínica média e dentária, Tattoo Studium, Seaside, Pro Nutricion e G-Ride Portimão e Faro.

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Um palmarés de sucessos
Em 2014, Luís Costa conseguiu os seguintes resultados: Campeão Nacional de Paraciclismo (Classe H5), nas especialidades de contrarrelógio, fundo, perseguição em pista e contrarrelógio em pista; Vencedor da Taça de Portugal; Vencedor das provas de contrarrelógio e de fundo nas seguintes provas internacionais: Abu Dhabi (EAU); Barcelona (ESP); Bilbao (ESP); Fossano (ITA); 5º lugar no contrarrelógio da Taça do Mundo em Castiglione della Pescaia (ITA); 6º lugar na prova de fundo da Taça do Mundo em Castiglione della Pescaia (ITA); 6º lugar no contrarrelógio da Taça do Mundo em Segóvia (ESP); 5º lugar na prova de fundo da Taça do Mundo em Segóvia (ESP); 7º lugar no contrarrelógio do Campeonato do Mundo em Greenville (EUA); 9º lugar na prova de fundo do Campeonato do Mundo em Greenville (EUA); 5º lugar final na geral da Taça do Mundo de Paraciclisimo de 2014; 5º lugar final no ranking mundial de paraciclismo da UCI.