SEP diz que os enfermeiros estão cansados de serem «explorados»

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A Direção Regional de Faro do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) acusou hoje os decisores políticos de «terem aprendido muito pouco» durante a pandemia de COVID-19.

Os enfermeiros, desde cedo alertaram para o vórtice que poderia significar o aumento do número de casos COVID-19 (com o levantamento das várias medidas de proteção), a chegada do outono/inverno (incidência da gripe sazonal) e «a absoluta necessidade de recuperar a atividade assistencial programada».

No entanto, hoje «constatamos a desativação de centros de vacinação e o recuo na contratação de enfermeiros» que possam dar um apoio aos profissionais de saúde que neste momento «estão exaustos», depois de dois anos de luta contra a pandemia, segundo explicou ao barlavento o dirigente regional do SEP Nuno Manjua.

O SEP lamenta que no Algarve, «a decisão de encerrar alguns Centros de Vacinação remeteu os utentes para espaços confinados e/ou sem condições de atendimento, como foi o caso de São Brás de Alportel, Faro, Tavira (numa tenda) e Portimão, em que os utentes esperam de pé ao sol à chuva e sem distância de segurança» entre si.

Não obstante, o sindicato lamenta a «loucura de impor metas diárias de pessoas vacinadas e sem que haja reforço de pessoal, o que determina o prolongamento do dia de trabalho» sem horas para terminar.

Nuno Manjua explica que muitas vezes os enfermeiros só sabem da alteração do horário que vão cumprir «na véspera ou no próprio dia».

«Apenas dois enfermeiros chegam a vacinar 300 pessoas, sem saberem a que horas vão finalizar» o dia de trabalho.

«Os enfermeiros têm vindo a fazer um esforço acrescido para responder a todas as necessidades dos utentes e famílias à custa de incontáveis horas extraordinárias e há quase dois anos que muitos chegam a trabalhar 60 horas semanais e duas semanas sem folgar», acusa.

Em paralelo, «continuamos a assistir à emanação de orientações contraditórias, quase diárias, em relação à vacinação conjunta ou não das vacinas da gripe e do COVID-19, o que impede localmente que os profissionais organizem a vacinação aos seus utentes. A título de exemplo, havendo vacinas da gripe disponíveis nos Centros de Saúde, mas estando os enfermeiros impedidos de vacinar alguns grupos etários, chega a ser ridículo os utentes terem que comprar a mesma vacina na farmácia para logo ser administrada no… Centro de Saúde», diz.

Nuno Manjua sublinha ainda que «em resposta a este esforço, as instituições vêm exigir mais aos enfermeiros, dando-lhes menos recursos e ainda iludindo-os quanto à sua retribuição».

O dirigente algarvio acusa mesmo a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve de «só depois do trabalho feito (vacinação nos meses entre junho e setembro) ao invés de pagar as horas efetuadas, em acumulação, ao abrigo de uma legislação recente, apresentou propostas de contratos de mobilidade com valores inferiores, a enfermeiros do Centro Hospitalar Universitário do Algarve que se disponibilizaram para vacinar».

Resultado? «Enfermeiros mais uma vez enganados e ainda por cima ficaram sem parte do subsídio de férias, que anda agora num jogo do empurra entre CHUA e ARS sobre quem paga».

Por fim, Nuno Manjua mostra-se indignado com as recentes declarações públicas da ministra da Saúde Marta Temido, que «veio pôr em causa a resiliência dos profissionais»

«Exige-se um mínimo de respeito, consideração e valorização. Exige-se ainda que seja devolvida autonomia às instituições para contratarem enfermeiros rapidamente e com melhores condições, caso contrário quem estará cá para dar resposta às necessidades da população?» numa altura em que a pandemia de COVID-19 dá mostras de regressar.

Ordem dos Médicos critica Marta Temido

Também a Ordem dos Médicos se pronunciou hoje contra a ministra da Saúde, Marta Temido, considerando que fez declarações «inqualificáveis» sobre a solução para a falta de médicos.

«Perdeu toda a credibilidade» e os clínicos saberão dar resposta à «atitude totalmente inaceitável», considerou a estrutura representativa dos médicos.

Marta Temido, disse na quarta-feira numa audição na comissão parlamentar de Saúde que é preciso pensar «nas expectativas e na seleção destes profissionais».

«Também é bom que todos nós, enquanto sociedade, e isto envolve várias áreas, pensemos nas expectativas e na seleção destes profissionais, porque porventura outros aspetos como a resiliência, são aspetos tão importantes como a sua competência técnica. Estas são profissões, de facto, que exigem uma grande capacidade de resistência, de enfrentar a pressão e o desgaste e temos que investir nisso», afirmou a ministra.

Portugal registou hoje mais 3.150 novos casos de infeção pelo coronavírus SARS-CoV-2 e 15 mortes associadas à covid-19, além de um novo aumento do número de internados em enfermaria, segundo dados oficiais.