Algarve aposta forte no ensino de Medicina e investigação em saúde

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Região inteira apoia a abertura de mais vagas no curso de Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da Universidade do Algarve (UAlg) com 600 mil euros. Fundação Champalimaud aplaude e reforça laços com a academia.

Com o objetivo de reforçar e alargar o ensino de Medicina e a investigação biomédica no Algarve, os 16 municípios da região, a UAlg, o Algarve Biomedical Center (ABC) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) assinaram na quinta-feira, dia 8 de julho, no campus das Gambelas, em Faro, o plano de reforço plurianual que prevê um investimento de quase dois milhões de euros, em quatro anos, para todas as componentes da área da saúde na região: equipamento, investigação, respostas de serviços e formação superior e pós-graduada.

Na cerimónia, o primeiro anúncio foi o aumento de vagas no MIM, que se iniciou no ano letivo passado (2021/2021), passando de 48 para 64 vagas (mais 16), sendo que está agora previsto que se atinjam as 96 vagas em 2025/2026, para uma maior captação e fixação de profissionais na região. Paulo Águas, Reitor da academia, referiu que a saúde «é a área mais recente » da UAlg, apesar de as primeiras matrículas datarem de 2001/2002.

No entanto, no último ano letivo representavam já 15 por cento do número total de alunos, com 1300 inscritos, «transformando-se numa das áreas com maior número de estudantes e em claro desenvolvimento».

Paulo Águas e António Miguel Pina.

Sobre o aumento do número de vagas, Águas estimou que «em oito anos iremos duplicar o número total de estudantes. Este foi um desafio lançado há um ano pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior [Manuel Heitor], que teve ontem a oportunidade de falar sobre esta matéria no Parlamento, que é algo inédito e que nos deve orgulhar. Vamos alavancar esta área para um novo patamar. Não somos prestadores de cuidados de saúde. Mas temos possibilidade, além da formação de quadros, de contribuir para que a população algarvia possa beneficiar de melhor saúde. Estamos a viver mais, queremos viver mais, mas também queremos, acima de tudo, viver melhor».

Dirigindo-se aos municípios, o magnifico agradeceu o investimento. «Estamos cá para trabalhar para a região. O que esperamos da vossa parte é apenas exigência, porque só assim podemos contribuir para um melhor Algarve e um melhor país».

Isabel Palmeirim, diretora do MIM e da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas (FMCB), deixou o «compromisso de contribuirmos para as Câmaras com participação ao nível de melhorias nos cuidados de saúde. Iremos fazê-lo em todos os municípios do Algarve».

Centro de Investigação focado no envelhecimento

Clévio Nóbrega, docente da FMCB detalhou pormenores sobre a nova unidade de investigação em ciências da saúde, o ABC – Research Institute (ABC-RI), que tem como objetivo ser uma referência naquela Faculdade «de forma a desenvolver a investigação em inovação dos seus docentes, mas que de forma muito importante permita que os alunos tenham um suporte. As unidades de investigação representam um pilar fundamental na consolidação do sistema científico moderno e competitivo e para nós [ABC-RI], a missão é desenvolver uma visão integrativa, inovadora e translacional de forma a compreender, identificar e tratar doenças humanas relacionadas com o envelhecimento».

E porquê o interesse no envelhecimento? «As Nações Unidas estimam que em 2030 cerca de 16 por cento da população mundial tenha mais de 60 anos, da qual, grande parte está na Europa e em Portugal. Este é sem dúvida um desafio para as sociedades, para os governos, mas é também uma oportunidade de um grande potenciador económico. Os investigadores do ABC-RI têm experiência e interesse particular nesta área e o Algarve é já um sítio de excelência europeu para o envelhecimento ativo».

Clévio Nóbrega.

O novo Centro nasce de uma colaboração entre o ABC, a UAlg e a Fundação Champalimaund, com um protocolo celebrado em abril deste ano, que permitiu a integração de sete investigadores do Research Institute na unidade de investigação da Fundação e a disponibilização de espaços para realizarem o seu trabalho.

Ainda segundo Nóbrega, «nós, cientistas do ABC-RI somos muito motivados, resilientes e identificámos vários pontos essenciais para alcançar o objetivo da excelência: constituir um grupo de investigadores motivados [Clévio Nóbrega, Inês Araújo, Isabel Palmeirim, José Bragança, Leonor Faleiro, Pedro Castelo- Branco, Raquel Andrade e Sandra Pais]; atrair investigadores convidados com reconhecida qualidade científica internacional [Tiago Outeiro e Wolfgang Link]; ter à disposição laboratórios suportados por plataformas de apoio de elevada qualidade [edifício dois do campus de Gambelas] e desenvolver projetos colaborativos em conjunto».

Foi ainda apresentado o projeto «ALgarve Fit Ageing (ALFA) Score: uma nova ferramenta integrada para melhorar a qualidade de vida e o envelhecimento saudável», financiado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, que se encontra em execução.

Além disso, «submetemos também um projeto para prestação de serviços à Agência Europeia do Medicamento para os próximos cinco anos e estamos a equacionar o desenvolvimento de uma rede doutoral (Doctoral Networks | Marie Skłodowska- -Curie Actions) na área do envelhecimento», anunciou ainda o docente.

ABC planeia primeiro colab de saúde a sul de Lisboa

«Se olharmos para a realidade dos últimos anos em termos estratégicos no Algarve, ao nível de investimento regional, vê-se que na última década houve, como se esperaria, um forte tonus no turismo. Agora surge um novo player que tem certamente muito a dar a esta nossa região, que é a área da saúde. É neste sentido que de facto surge a necessidade premente de criação de um colab no Algarve».

Foi assim que Pedro Castelo Branco, docente da FMCB da UAlg apresentou a mais recente ideia a ser desenvolvida pelo ABC e os seus parceiros, ABC CoLAB for Active Life ou para Vida Ativa.

E o que é um colab? «Foram criados em 2016, através da Agência Nacional de Inovação, e têm como finalidade principal criar direta e indiretamente emprego qualificado e certificado, através da implementação de agendas de investigação e de inovação orientadas para a criação de valor económico e social».


De acordo com o docente, há mais de 20 colabs implantados no país. Todavia, a sul de Lisboa existe apenas um destinado ao mar.

«Na área da saúde, a sul de Lisboa, não temos ainda nenhuma destas estruturas colaborativas. O nosso trabalho tem sido desenvolver uma estrutura de investigação, inovação e desenvolvimento que integre soluções para a vida ativa. É evidente que a saúde será o grande foco e o grande ponto do nosso colab, mas nunca esquecendo e trabalhando sempre ao lado da áreas do turismo e da investigação tecnológica».

Os primeiros passos já foram dados e já existem diversos parceiros identificados como municípios, sector tecnológico, agências de turismo, governamentais e indústrias de biotecnologia/farmacêuticas.

«Este projeto está a avançar com velocidade e esperamos ter notícias bastante enriquecedoras até ao fim do ano», finalizou Castelo Branco.

Pós-graduação em Fundamentos da Medicina vai ser alargada

A primeira pós-graduação em Fundamentos da Medicina da UAlg começou a 6 de outubro de 2020, num formato piloto, com um grupo de cinco alunos da Fundação Champalimaund, já doutorados numa área científica.

O primeiro ano «foi um sucesso e a Fundação já nos disse que tem o desejo de continuar e alargar esta formação», garantiu Isabel Palmeirim.

«Esta pós-graduação foi criada na sequência de um desafio que a Champalimaud nos lançou, o de conseguirmos munir investigadores da Fundação com instrumentos e conhecimentos médicos suficientes para que fossem capazes de dialogar com um médico, utilizando o mesmo léxico e procurar resolver problemas que resultem da translação da investigação do laboratório para os hospitais», começou por explicar a diretora do MIM.

Paulo Águas e Manuel Heitor.

A formação de 40 semanas, «apresentou um conjunto de 36 casos clínicos selecionados de forma a poderem correr os diversos temas médicos e que permitem aos investigadores aprender em áreas que vão desde a Ginecologia a Neurociência, Ortopedia e Anatomia. Correndo todas as áreas médicas, foram munidos com a capacidade de poderem dialogar de igual para igual, para um médico sem dificuldades na passagem da informação», explicitou Palmeirim.

Doutoramento «sanduíche» inovador em Portugal

Durante a cerimónia foi também lançado o Programa MD PhD, em conjunto entre a UAlg e a Fundação Champalimaud, que visa a formação da próxima geração de médicos cientistas.

«Na integração do que é o conhecimento médico na perspetiva de um investigador, propomos uma opção a nível de grau académico de doutoramento, que é uma inovação em Portugal », disse no uso da palavra Viviane Ferreira, docente da FMCB da UAlg.

«A UAlg é já um exemplo por ter um curso de Medicina para pessoas já graduadas, e o que propomos agora é um ciclo de estudos, bastante inovador, que confere dois graus, o de Medical Doctor (MD) e o Philosophy Doctor (PhD). É um modelo conhecido no estrangeiro como sanduíche. O nosso principal objetivo é a formação de pessoal médico altamente diferenciado e direcionado para a vertente da investigação. Vemos que temos em Portugal uma componente clínica, e por outro lado, uma componente de investigação. No entanto, quando os médicos tentam fazer clínica têm alguma dificuldade e falta de formação em pôr a mão na massa e a pensar com a mente de um investigador. O que queremos fazer aqui é fusionar isso», referiu ainda Ferreira.

Segundo a docente, trata-se de algo «inovador no nosso país, mas que já se faz lá fora há bastantes anos. O que esperamos é formar uma nova geração de médicos, vocacionados para investigação, para o ensino e para o de prestador de cuidados clínicos. Isto vai ajudar também a fixação de médicos e investigadores no Algarve».

Manuel Heitor: «ABC é referência nacional e europeia»

«Hoje é um grande dia para o Algarve, mas também para Portugal. Sinto- me particularmente orgulhoso de estar aqui. Foi e tem sido um esforço, mas é um esforço que vos deve orgulhar a todos», foram as primeiras palavras de Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, para descrever a assinatura do reforço orçamental.

E justificou: «primeiro porque mostra uma Universidade sem muros, aberta para as expetativas, os desejos da população, através da mobilização dos 16 municípios e dos seus autarcas. Isto é verdadeiramente inédito. Tenho percorrido o país de norte a sul, temos feito, assistido e promovido e estimulado acordos nas várias comissões interministeriais, mas nenhum dos acordos desde o Alto Tâmega às várias zonas do interior do país, passando pelo oeste, atingiu a dimensão desta mobilização intermunicipal», sublinhou.

Sobre o programa de ensino em específico, Manuel Heitor felicitou a academia algarvia. «Nem todas as universidades estão aptas a mudar, a configurar, a respeitar as recomendações das avaliações e a reorganizarem a atividade científica. Os docentes e investigadores da área biomédica reorganizaram a sua orgânica de forma a garantirem um caminho para a excelência científica. A UAlg e o grupo de Medicina e Ciências Biomédicas tiveram essa capacidade e hoje contam com uma oferta totalmente inovadora em termos da formação médica para cientistas e da formação científica para médicos, contribuindo para o reforço sobretudo dos cuidados de saúde no Algarve».

Já em relação ao ABC, o ministro afirmou mesmo que atingiu «um regime de centro de referência. Não é um trajeto qualquer, criar aqui no Algarve, com as dificuldades bem conhecidas, um centro académico clínico, que tenha atingido esta referência. O ABC, hoje, é uma referência nacional nos centros académicos clínicos e no que tem sido também a nossa crescente experiência de mobilizar relações europeias».

A pandemia de COVID-19 e a resposta a momentos de crise foi outros dos temas abordados no discurso do governante, que salientou o papel «importantíssimo do ABC, que articulou a atividade de cuidados de saúde com a de educação médica, de investigação e de inovação».

«Sabemos bem o papel que o ABC teve durante o combate à pandemia de COVID-19 desde os drive thru, à coordenação de testes a nível nacional para os lares. Há um conjunto de atividades que hoje mostram que o ensino da Medicina e a atividade Biomédica no Algarve não só se recomenda, como se transformou numa referência europeia», concluiu o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Nuno Marques: «Saúde no Algarve vai dar um salto em 10 anos que não deu em 50»

Nuno Marques, médico cardiologista e presidente do Algarve Biomedical Center (ABC), salientou a importância «fundamental» da colaboração entre organismos. «Já foram criadas várias redes nacionais envolvendo unidades de formação científica em determinadas áreas que são chave. É assim que o país pode e se vai conseguir posicionar e desenvolver. Estamos em várias delas e estrategicamente desenvolvemos aqui uma parceria muito forte com a Fundação Champalimaud. Temos projetos concretizadores já em marcha e outros a serem desenvolvidos. São tudo ideias inovadoras, aproveitando e maximizando as potencialidades de cada um, pondo ao serviço, acima de tudo, da região e do país, quer em termos nacionais, quer em termos internacionais».

Nuno Marques e Manuel Heitor.

Em relação ao esforço conjunto dos 16 municípios algarvios, que se uniram para financiar a área da saúde, com 600 mil euros por ano, Marques comentou que revela «uma região única, que se conseguiu unir por um único propósito: servir as pessoas».

Sobre todas as novidades que unem a UAlg, o ABC e a Fundação Champalimaud, o presidente afirmou que «o Algarve tem todas as condições para ser, nos próximos anos, um grande polo de desenvolvimento tecnológico e um polo único de aplicação à população. Estamos cá todos a trabalhar no mesmo sentido e se continuarmos todos a fazer isto desta forma, esta região vai dar um salto em 10 anos, que não deu nos últimos 50, na área da saúde. Temos tudo para isso».

António Miguel Pina pede ao governo que não se esqueça do novo Hospital Central do Algarve

O presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, António Miguel Pina, disse que o momento celebrado «deixa-nos a todos bastante satisfeitos, essencialmente a quem vive no Algarve e que tenta construir uma sociedade melhor, mais justa e mais próspera. Durante muitos anos, o Algarve era visto, na minha opinião, pelas entidades em Lisboa, mais centralizadas, como local onde as entidades andavam de costas voltadas e até que os autarcas pouco colaboravam entre si. O Algarve tem vindo a demonstrar que sabe trabalhar em conjunto, não só na pandemia, mas de facto a pandemia trouxe um incentivo extra, porque só mesmo em conjunto entre todos fomos capazes de dar a melhor ajuda possível às nossas populações».

O também autarca de Olhão realçou as novas apostas na investigação como potencial na criação de valor. «O Algarve não deixará, e esta é uma opinião minha, de ser turismo. O Algarve continuará sempre a ser assente muito em turismo e ainda bem que temos essas potencialidades no território para oferecer. Há muitos países no mundo que gostariam de ter o potencial que temos. No entanto, devemos continuar a procurar outros nichos de mercado, outros nichos de criação de valor. Temos bem ciente que a região passa também pelas áreas ligadas à investigação ».

António Miguel Pina.

Antes de terminar, Pina deixou uma mensagem a Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, para ser entregue ao governo.

«O Algarve já tem dado muito ao país, seja naquilo que é a nossa contribuição líquida, que não é igual àquilo que é a nossa representação em termos de votos, nem populacionais, porque somos quase o dobro. Não somos os três por cento de população, somos os cinco por cento na criação do PIB. E agora voltamos a dar mais. Como vimos, apenas um terço dos alunos fica no Algarve, mas estamos a financiar a criação de novos médicos para todo o país».

«Mas falta uma coisa, falta aquilo com que se comprometeram com os algarvios na área da saúde. É que este governo está quase a fazer dois anos, e sobre o novo hospital, mais uma vez, demos um sinal. Estamos unidos e sabemos o que queremos e não há dúvidas de que para nós, o local para o novo Hospital Central do Algarve, é aquele onde alguns anos foi colocada a primeira pedra. É preciso agora construir todas as outras pedras. Cabe ao governo, mas não poderíamos deixar de o apontar. Há um elefante no meio da sala e temos de dizer que existe. Este governo está a fazer dois anos e ainda não disse nada de forma concreta sobre quando começam as obras e o financiamento» para o novo Hospital Central do Algarve.

Sobre esse assunto, Manuel Heitor não avançou muitos pormenores, respondeu apenas que «claro que levarei a mensagem para a minha colega do governo, mas mais que levar mensagens é uma altura de reconhecer este esforço de todos e mostra bem aquilo que é o sentido deste momento e o significado de uma Universidade aberta aos interesses, aos que vivem aqui e aos que vêm temporariamente».