Vintage Vik: tesouros do mundo restaurados em Olhão

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Acervo de antiguidades de Vintage Vik, maioria tecnológicas, junta cerca de mil objetos restaurados, datados entre 1814 e 1950, todos em funcionamento.

Desde tenra idade que Victor Rodrigues, engenheiro mecânico de 45 anos, residente em Olhão, começou a colecionar moedas, selos e artigos pequenos. Quanto mais antigos fossem, maior era o fascínio, «porque ficava a imaginar a história que poderia estar por detrás de cada peça e a quem poderiam ter pertencido», começa por dizer ao barlavento.
Décadas mais tarde, com a chegada dos smartphones, começou a pesquisar por leilões internacionais de antiguidades, «e a paixão voltou em força».

A primeira compra online foi em 2015, um rádio, «que achei interessante, um RCA Victor dos anos 1940. A Internet veio mudar tudo e foi aí que me apercebi da facilidade que há hoje em adquirir antiguidades de qualquer ponto do mundo. Depois foi tudo evolutivo. Começam a aparecer mais coisas, acabamos por descobrir pessoas que vendem vários artigos e o interesse vai aumentando», refere.

Volvidos seis anos após a primeira peça da sua coleção, Victor Rodrigues já conta hoje com cerca de mil objetos no seu espólio de antiguidades, denominado Vintage Vik. O mais antigo trata-se de um mapa original das Caraíbas, de 1814, enrolado em canudo num pacote de cabedal. O mais recente é um aspirador do final dos anos 1950.

«Não me considero um colecionador, mas sim uma pessoa que gosta de antiguidades, sobretudo tecnológicas. Tudo o que me faça pensar, que tenha motor e, por isso, movimento», afirma.

Daí, no seu espólio, a maior incidência recair sobre objetos dos anos 1920 e 1930, muitos deles relacionados com o cinema, fotografia, música e barbearia.

«Costumo dizer que tenho todo o tipo de antiguidades, com exceção de móveis, loiça e automóveis, esta última com muita pena minha», aponta.

E foi a admiração por Charlie Chaplin que fez Victor Rodrigues desenvolver um gosto particular por antiguidades relacionadas com a sétima arte. O primeiro filme antigo que comprou, de Chaplin, tem cerca de 100 anos, e o suporte é um tipo de fita pouco comum, de 9,5 milímetros. «Depois fui à descoberta, perceber como funcionava e como era projetado», recorda.

Hoje, soma perto de 50 projetores, na sua maioria da marca Pathé, os primeiros a serem desenvolvidos para uso doméstico, em que era necessário dar-se à manivela para funcionarem. O mais antigo é americano, com fita de 35 milímetros, datado de 1919.
Juntam-se telas de projeção dos anos 1930, lanternas mágicas dos anos 1890, que para projetarem necessitam de estar ligadas a um gás que faz chama e inúmeros filmes. «A maioria ainda nem vi. Para completar a coleção da Pathé de 8,5 milímetros anterior aos anos 1940, falta-me apenas um projetor. São os artigos mais difíceis de encontrar. Não conheço ninguém em Portugal que tenha uma coleção tão vasta de projetores antigos como eu», assegura.

Ainda na área da imagem, aquela com que mais se identifica, o engenheiro mecânico possui também cerca de 50 máquinas fotográficas, muitas da marca Kodak, e duas delas até vieram com uma surpresa. «Vinham com dois rolos de filme usados no interior. São fotografias dos anos 1920, mas não conheço ninguém que os consiga revelar. É algo que gostava de aprender porque já ninguém faz», lamenta.

E não seria impossível de aprender. Isto porque, o projeto Vintage Vik marca ainda a diferença pelo facto de todos os objetos estarem em perfeito estado de conservação e funcionamento. Um trabalho realizado pelo próprio olhanense. «Como todas as peças têm muitos anos e necessitam de atenção, resolvi aprender, como autodidata. Muitos dos objetos que me chegam estavam guardados em celeiros e armazéns, a maioria estão estragados. Quando compro, tenho o cuidado de analisar as peças para saber se estão completas. Se tiverem todas as partes, o restauro é mais fácil. Porque estamos a falar de peças que não existem, e por isso é preciso comprar outro artigo igual para retirar a peça específica de lá», uma prática conhecida por «canibalismo».

Em boa verdade, tudo funciona. «Os projetores, projetam. O aspirador, aspira. As máquinas de escrever, escrevem e os rádios dão música. Até as câmaras fotográficas fotografam e é isso que me dá gozo. O artigo pode servir de decoração, mas tem de estar a funcionar. Neste momento, por exemplo, estou a restaurar uma ventoinha. Quando compro uma peça, na minha cabeça sei o que lhe vou fazer, quais os cromados a polir e qual a parte que vou ter de pintar. Os motores têm de ser todos desmontados para voltarem a ter vida».

E o que é mais difícil de restaurar? «As máquinas de escrever», responde Victor Rodrigues.

«Tenho várias e são difíceis de reparar porque são compostas por milhares de peças».
Mas é precisamente todo esse processo e o enquadramento histórico de cada objeto que fazem o engenheiro mecânico ter tanta paixão por este hobby.

«Estudo e vou aprendendo. Vejo uma marca nova, vou pesquisar o que essa marca tinha, o que ainda há à venda, como funciona. Com a Internet, esse conhecimento é fácil de adquirir. E essa é a fase que gosto mais, a investigação. No final de cada restauro, a sensação do antes e depois é incrível. Há muitas peças que não sei o que são. É preciso estudo e isso dá-me muito gosto», justifica.

Um dos exemplos são as lâmpadas de carbonato. «Nunca tinha visto tal coisa», recorda. Hoje, já conta com «uma série delas», e servem para adornar, por exemplo, uma bicicleta, como luz frontal. «Coloca-se água em cima e o carbonato em baixo. De cima caem as gotas, forma-se um gás e faz chama», que serve de iluminação. Duas delas, o algarvio colocou nas duas bicicletas que possui, «uma é italiana e a outra francesa, de 1930 e de 1925».

Ao espólio junta-se ainda uma coleção de afiadores de lâminas de barbear (sharpeners) que, mais uma vez, Victor Rodrigues não conhece ninguém a nível nacional que possua uma tão completa. «Nem sei quantos tenho, mas remontam todos aos anos 1910 e 1920. Já não se usam e cada uma trabalha de maneira diferente», contextualiza.

Nas vitrines do seu pequeno museu encontram-se também vários artigos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial como binóculos, mapas, códigos Morse, apitos de trincheira, cartas, uma marmita e até um amperímetro.

Também há gramofones portáteis dos anos 1920, um fonógrafo de 1903, uma fotocopiadora dos anos 1940, máquinas de costura, um reparador de televisão, «o único que vi até hoje», nas palavras do engenheiro, do início dos anos 1940, um furador de 1870, jogos de tabuleiro, um extintor de carro de 1952, cartas escritas com mais de dois séculos, e até bancos dos anos 1920, usados por golfistas.

Na montra de objetos inusitados pode ver-se um folheto publicitário do célebre paquete Titanic, um cinzeiro do Queen Mary, uma pasta de dentes da marca Colgate ainda por abrir de 1904, um sabonete fechado de 1890, e até um volante de badminton de 1927, fabricado com penas de ganso.

Todos os artigos podem ser descobertos na sua página de Instagram (@Vintagevik), criada em 2017, ano em que começou a vendê-los, e que conta já com quase 10 mil seguidores.
«Antes da pandemia as vendas estavam com um volume muito interessante, mas não tenho todos os artigos à venda, nem lá perto. A maioria das pessoas que me contactam são colecionadores e todos estrangeiros, nunca enviei nenhum objeto para Portugal. Já vendi para a China, Tailândia, Chile, Brasil e quase toda a Europa. Tudo, a partir de Olhão», detalha.

Para o futuro, Victor Rodrigues ainda não faz muitos planos, mas a possibilidade de abrir um antiquário está em cima da mesa. Mas não só, «estou disponível para efetuar um protocolo com a Câmara Municipal de Olhão, ou com alguma entidade regional, no sentido de ser criado um ponto de interesse cultural na região, com projetos únicos a nível nacional, com visitas de escolas ou como ponto de interesse turístico».