VAMUS muda a rede de autocarros no Algarve a 1 de dezembro

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VAMUS, um novo programa de transporte coletivo rodoviário de passageiros terá início a 1 de dezembro e promete atrair mais pessoas nas suas viagens pela região, diz Ricardo Afonso, administrador-delegado da EVA Transportes.

É verdade que o Algarve já tem uma rede de autocarros através das carreiras interurbanas da EVA e da Frota Azul que tem sido atualizada ao longo dos anos.

No entanto, a EVA Transportes, através da sua subsidiária VIZUR Transportes, após ganhar o concurso público internacional para a concessão do serviço público de transporte rodoviário de passageiros da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, prepara-se para reformular toda a oferta e lançar o novo serviço VAMUS.

Ricardo Afonso, administrador-delegado da empresa no Algarve, explica ao barlavento que «será a transformação do que já existe numa nova solução, que traz melhorias e tem a validade de cinco anos».

O que muda, então? «Haverá mais algumas circulações ou carreiras novas. Por exemplo, um serviço regular para o Aeroporto de Faro (AeroBus), outro para servir o campus de Gambelas da Universidade do Algarve. E um serviço a pedido para locais onde o reduzido número de habitantes não justifica transportes regulares», ou seja, serviços de transporte a pedido.

O funcionamento será simples. «Vamos ter um website, uma aplicação móvel (app) e uma linha telefónica de apoio. As pessoas contactam- nos e agendam o serviço, de acordo com os horários pré-definidos. Isto é muito importante. Não é um serviço de táxi, a funcionar à hora que dê mais jeito a cada utente. Os horários são pré-definidos. O utente agenda o serviço e o autocarro faz um desvio, ou vai lá propositadamente. Não são apenas desvios. São serviços específicos para esses locais, quando e sempre que necessário».

«Como vê, sai caro à empresa, se for apenas um passageiro com um destino fora da rota, porque apenas paga o preço do bilhete normal e não há subsídios. A EVA vive exclusivamente da receita gerada com os passageiros. Não é rentável e apenas se pretende servir melhor o público», sublinha o responsável.

Questão climática e cidades constrangidas vão ditar a mudança. Para tornar a gestão ainda mais difícil, o Algarve sofre de um desordenamento viário crónico, com a concentração do trânsito nos eixos da Estrada Nacional (EN) 125, cheia de condicionalismos, e na Via do Infante (A22), limitada ao pagamento de portagens desde 2011.

Ricardo Afonso esclarece que «a A22 não é muito usada no serviço de carreiras, exceto nos serviços mais longos que o justifiquem. Estamos a falar num serviço de curtas distâncias, convém-nos andar por onde há passageiros. A EN125 é um problema que nos leva a outro ponto: a inexistência de um quilómetro de via dedicada a autocarros, em todo o Algarve».

«Se queremos apostar e desenvolver o transporte público, têm de ser criadas medidas públicas de apoio. A criação de corredores para facilitar a circulação dos autocarros seria uma boa medida. Como sabemos, algumas zonas da EN125, sobretudo no verão, são terríveis. Temos um serviço mais longo, de Vila Real de Santo António até Lagos, que tivemos de partir em dois, em Albufeira, porque os atrasos eram constantes e de outra forma os horários nunca seriam cumpridos» devido à fraca infraestrutura que serve o Algarve.

«E também há problemas nas outras estradas, porque o nosso serviço tem de ir às localidades e efetivamente não existem facilidades para o uso dos transportes públicos », com os autocarros a terem de fazer autênticas gincanas. O gestor diz que já foram discutidas várias hipóteses de solução com os municípios. Mas, admite, ainda falta muito até haver transportes públicos eficientes e rápidos que motivem os algarvios a prescindir dos automóveis.

«Há que ser feita uma sensibilização gradual. Percebo que, para os nossos autarcas, não é possível tomar medidas que, às vezes, são negativas para os seus munícipes. Temos de tomar medidas efetivas e positivas em relação ao transporte público, mas, na maioria das vezes, para que isso aconteça, temos de tomar medidas negativas em relação ao transporte privado. Vamos dizer assim: se a EN125 tem duas faixas para cada lado, podemos muito bem destinar uma delas aos autocarros, mas quem vai ao volante de um automóvel ligeiro fica prejudicado. Se as cidades começarem a colocar barreiras à circulação dos carros, fechando algumas ruas ao trânsito de veículos ligeiros, as pessoas terão de adotar o transporte público como alternativa. Mas ainda vai ser necessário muito mais sensibilização, quer dos autarcas, quer dos próprios munícipes, para que percebam a importância de deixar o carro», sublinha.

«Já está nas nossas cabeças, mas ainda não está nas ruas. Não será de repente, mas isto irá acontecer naturalmente. A própria questão climática ajuda neste sentido. Mas não basta criar transportes públicos. É necessário proceder ao ordenamento das cidades, porque a circulação está constrangida. Aceitamos que, hoje, não há vantagem em usar o transporte público. Fica apenas à consciência de cada um. Mas acreditamos que irá mudar», garante. Para já, os utilizadores das carreiras interurbanas da EVA e da Frota Azul já podem consultar os horários e comprar os títulos online.
Poderão fazê-lo através do website ou do telemóvel, bastando, para tal, instalar a app «VAMUS – Transportes do Algarve», rede que vai ser implementada a partir do dia 1 de dezembro. A nova aplicação, já disponível, mostra as paragens dos autocarros, os circuitos, permite comprar os títulos de transporte e validá-los a bordo dos autocarros, além de outros serviços.

«Em suma, a EVA propõe-se fazer um papel positivo, dizendo às pessoas: vocês estão no Algarve e carregando apenas numa tecla do telemóvel conseguem deslocar-se por toda a região, sem exceções. Até evita as filas nas bilheteiras para comprar o passe, que pode ser adquirido sem sair de casa. Mais de seis milhões de euros foi o investimento na renovação da frota. Além disso, foi instalado um novo sistema de bilhetes, mais simples e intuitivo, e está em curso a renovação de mais de três mil paragens em todo o Algarve», garante.

No reverso da moeda, os sindicatos têm, recentemente, denunciado alegadas pressões por parte da administração da empresa sobre os trabalhadores.

Desafiado a comentar, Ricardo Afonso responde que «não gostaria de entrar nessa discussão, mas de dizer que passámos pela pandemia, uma coisa extraordinária, em que os transportes e a mobilidade estão no centro da tempestade. O sector mais afetado foi a mobilidade. Os turistas deixaram de vir, as pessoas ficaram em casa, porque as empresas e as escolas fecharam. Nós sofremos um impacte violentíssimo e um rombo financeiro muito grande. No entanto, procurámos ter um comportamento correto para com os trabalhadores. Não despedimos ninguém. Tivemos de recorrer ao layoff, mas tratámos todos de uma forma muito favorável, ou seja, com rendimentos que lhes permitia estar em casa sem sofrer agruras. Portanto, a empresa não pode, de qualquer modo, satisfazer as pretensões no imediato. Sempre dissemos que, no próximo ano, mesmo com esforço, iríamos melhorar as condições, mas que se devia olhar para a situação da empresa, para o que fez pelos trabalhadores nestes dois anos, mas também para as dificuldades naturais que está a sentir», conclui.

Bicicletas serão bem-vindas a bordo!

Outra novidade no VAMUS é a oferta gratuita do transporte de bicicletas, duas por autocarro. «Há várias novidades. Por exemplo, quase metade da frota são autocarros novos, alguns já estão a circular. São 140 viaturas com boa qualidade, com bom wi-fi e confortáveis. Em algumas linhas, sobretudo as litorais, oferecemos o transporte de bicicletas, desde que os autocarros as possam levar, não só para os passageiros que ainda têm dois ou três quilómetros desde a paragem até ao seu destino, como para os turistas que gostam de viajar de bicicleta, mas não conseguem entrar, por exemplo, por Ayamonte e ir dormir a Lagos nessa noite, com esse meio de transporte. O limite de duas prende-se com o facto de ser muito difícil instalar mais», explica Ricardo Afonso, administrador- delegado da EVA transportes.

AeroBus, um ferry aéreo amadurecido

Já em relação ao AeroBus, é apenas a continuação, melhorada, de uma ligação direta ao Aeroporto de Faro que surgiu pela primeira vez em maio de 2019. «Estava a ser uma experiência positiva, mas depois apareceu a pandemia, não vieram os turistas, acabaram os aviões e tivemos de suspender esse serviço. Vamos recomeçar em dezembro, porque a ideia agora é mais ambiciosa. Não é só para levar os turistas de e para o Aeroporto de Faro. Ao fazer isto numa base regular, é um serviço para que os próprios residentes, nas deslocações em que usem o avião, pensem em usar o autocarro para chegar ao Aeroporto, evitando deixar lá o carro estacionado, com um custo elevado. Vamos apostar neste nicho de mercado. O serviço será entre Lagos e Faro, com paragem em Portimão e Albufeira e uma duração total de duas horas, pois iremos usar a A22. Haverá entre quatro e seis viagens diárias no verão e entre duas e quatro na época baixa», prevê. Em relação ao Sotavento, «equacionamos a eventualidade de, no verão, podermos ativar Vila Real de Santo António, Tavira, e eventualmente Olhão, ligados diretamente ao Aeroporto de Faro».

Integração com as linhas municipais não depende da EVA

Outra questão fundamental é se a futura rede VAMUS terá em atenção a intermodalidade com as várias redes de transportes locais que circulam nas principais cidades algarvias? «São situações distintas. Nós concorremos e ganhamos contratos, mas nada é nosso. A futura VAMUS não tem nada a ver com os transportes municipais, que são lançados pelas autarquias. O site e a aplicação móvel (app) que lançámos agora são importantes, porque o que pretendemos, sejamos nós, ou não, os detentores das concessões urbanas, é futuramente vir a integrar os transportes urbanos também, com a autorização das respetivas Câmaras Municipais, obviamente, para que o passageiro, apenas com uma app, encontre e tenha uma solução de transporte integrado e consiga deslocar-se pelo Algarve todo, alternando entre os vários transportes urbanos e interurbanos, carregando apenas num botão. Mas vão ser questões distintas e que temos de trabalhar caso a caso», responde Ricardo Afonso.

«Ninguém quer investir» nos transportes públicos no Algarve

Questionado sobre quais os fatores que levaram à vitória da proposta da AMAL, Ricardo Afonso dá uma resposta inesperada. «A nossa vantagem é que ninguém quer investir. Fomos os únicos a apresentar proposta. Por incrível que pareça, muitas vezes não aparece ninguém e por isso temos, por assim dizer, o monopólio dos transportes públicos no Algarve». Ou seja, «os concursos, ou a região, não são suficientemente atrativos para que outros venham de fora arriscar. Nós estamos cá e queremos cá continuar e, por vezes, em concursos em que as margens são muito reduzidas, como já temos os recursos, podemos continuar. Para quem venha de fora e se queira instalar, tendo de construir tudo de novo, as condições não são atrativas. As margens de rentabilidade não são suficientes», sublinha.

Autocarros ainda são para «pessoas com fracos rendimentos»

Questionado sobre o perfil do utilizador dos autocarros no Algarve, Ricardo Afonso diz que «muitos passageiros são estudantes, geralmente menores de idade, e são pessoas com fracos rendimentos, porque esta é uma maneira mais barata de viajar e de se manter dentro do orçamento familiar». No entanto, essa é uma tendência que poderá ter os dias contados. «Ultimamente, vemos mais pessoas que começam a desenvolver uma consciência de que se deve passar dos veículos particulares para o transporte público. Até porque o carro, nos nossos dias, é um encargo considerável. Também temos os turistas, não tanto o português ou o espanhol, mas os de outras nacionalidades. Aliás, a zona de Lagos para lá é cheia de estrangeiros a utilizar os autocarros» como opção principal para a descoberta daquele território.