Teatro inclusivo «Noites de Silêncio» assinala Dia Mundial do Surdo

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«Noites de Silêncio» é um espetáculo de teatro físico, sem falas e que se caracteriza pela linguagem corporal. Junta em palco 10 atores do JAT – Janela Aberta Teatro, para através de máscaras, pantomima cómica e mimo de estilo, representarem a evolução e o comportamento humano.

«Uma homenagem à universalidade do teatro sem palavras, a uma arte milenar compreensível através da eloquência do gesto, da poesia das imagens e da imaginação do público. Uma viagem ao passado, presente e futuro», para comemorar o Dia Mundial do Surdo [19 de setembro] e o Dia Internacional do Mimo [22 de setembro].

É assim que a companhia especializada em Teatro Físico, o JAT, descreve a sua mais recente produção, a «Noites de Silêncio», que estará em cena, para já, no auditório do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), em Faro, amanhã, domingo, dia 19 de setembro, às 19h00, inserido nas comemorações do 30º aniversário do IPDJ.

Diana Bernedo e Miguel Martins Pessoa.

Trata-se de uma dramaturgia dividida em três peças distintas de mimo, acompanhadas por pequenos momentos de máscara objeto e expressiva, a modo de interlúdios, centradas no tema da evolução do ser humano através de diversas caras, como o amor, a crueldade, a beleza ou a comédia da vida. Em comum, o facto de em nenhum momento existirem diálogos ou palavras, apenas a expressão do corpo conta a história, que pode então ser compreendida por qualquer pessoa.

A primeira peça, intitulada «Filhos da Evolução» é um solo em mimo de estilo da Diana Bernedo, uma das fundadoras do JAT e atriz com vários anos de experiência.

«Inspirei-me na pintura que se chama A verdade saindo do poço armada do seu chicote para castigar a humanidade de Jean-Léon Gérôme [1896]», conta a própria ao barlavento. A anteceder e a preceder esse momento há ainda um interlúdio de máscara.

Segue-se mais um solo, desta vez do seu colega também ator, encenador e fundador da companhia de teatro, Miguel Martins Pessoa, chamada «Cocktail».

De acordo com o solista, «é uma pantomima cómica inspirada no cinema mudo e no cinema americano dos anos 1950, do mundo do Chaplin e dos grandes cómicos que, apesar de não falarem, são geniais». O último momento junta em palco os restantes atores na «Alegoria da Caverna», inspirada no texto homónimo de Platão.

«É uma visão da nossa condição humana. Na história de Platão há uma série de personagens que estão fechadas numa caverna, mas aquele espaço é simbólico e representa as prisões mentais, os bloqueios provocados pela sociedade em que vivemos. Aqui, a prisão acabam por ser as correntes invisíveis, que nos obrigam a estar numa determinada sociedade, mas é possível sairmos lá para fora. No texto de Platão, as personagens não querem porque estão cómodas e é aquilo que conhecem e que acreditam. Preferem não sair da caverna com medo da realidade, que tanto pode ser melhor ou pior. No caso da peça, há um personagem que experimenta a liberdade, que consegue ver e sentir o que é ser livre e tenta modificar o mundo. Tem uma esperança agri-doce», revela Miguel Martins Pessoa.

O objetivo é simples, «fazer o público pensar e sentir, porque é isso que faz o teatro», refere o encenador. A atriz completa: «é uma provocação em termos de acordar e despertar. O teatro do silêncio faz isso. Nós usamos música, não temos é palavras. Esta peça é uma maneira de defender esta arte do teatro físico e dar a conhecê-la. Além de ser uma homenagem ao mimo, ao cinema mudo e a uma arte que com a globalização é difícil de fazermos chegar ao público, é uma homenagem ao teatro inclusivo», e neste caso à população que sofre de surdez. Porque «também são consumidores de teatro e de arte», acrescenta.

Prova disso é um dos jovens atores em palco, Vasco Seromenho, que está na companhia desde a sua fundação, em 2017, que é surdo, e que de acordo com os produtores, não podia estar mais contente por se assinalar a data. «Comunicamos com ele através de mimo. Há palavras que ele já nos ensinou e vamos conhecendo o alfabeto em Língua Gestual Portuguesa. Além disso, ele lê os lábios e tem um implante conectado a um auricular que lhe permite ouvir algumas coisas. A capacidade que ele tem em ler a linguagem corporal é muito acima da nossa. O teatro físico tem a característica de passar a mensagem muito mais facilmente porque não tem palavras. As falas são entendidas e interpretadas pelo cérebro, mas com a linguagem corporal são todas as células do corpo que a entendem e há uma empatia com o que está a acontecer em palco», revela o fundador do JAT.

Na prática, os dois produtores da peça «Noites de Silêncio» quiseram juntar o útil ao agradável: «fazer aquilo que gostamos e que somos apaixonados e trazer a comunidade surda ao teatro para assistirem a algo que possam entender do princípio ao fim. Queremos mostrar que a cultura é inclusiva», diz ainda Miguel Martins Pessoa.

Mas não é só isso, «há muitos miúdos que desistem dos sonhos artísticos porque não têm oportunidades. É importante fazermos este espetáculo e mostrar que há um outro teatro que se pode fazer, outras manifestações dramáticas que se podem adquirir através de técnicas e é possível ir-se construindo o próprio artista, sem necessidade de falar. Há atores cegos que atuam em palco. As barreiras somos nós que as pomos. O Vasco já fez imensas peças e chegamo-nos a esquecer da sua condição porque a integração é total», assegura Diana Bernedo.

Apesar de ainda não haver certezas de quais serão os próximos palcos para a «Noites de Silêncio», o casal deixa escapar que «é provável que este ano ainda existam mais espetáculos».

Para quem quiser reservar bilhetes para o espetáculo de dia 19 de setembro, basta enviar email (colectivojat@gmail.com) para o JAT. O preço de cada bilhete custa oito euros, sendo que os menores de 18 anos pagam apenas cinco. Com a limitação devido à pandemia, há 69 lugares disponíveis.

Ficha Artística e Técnica

Duração: 75 minutos
Classificação etária: acima de oito anos
Dramaturgia e encenação: Diana Bernedo e Miguel Martins Pessoa
Intérpretes: Diana Bernedo, Miguel Martins Pessoa, Ana Brandão, Elsa Fernandes, Graça Madeira, Ilda Nogueira, Isabel Costa, Luana Mendes, Rita Abreu e Vasco Seromenho.
Técnico de luz: Rogério Cão
Técnico de som: Miguel Veiga
Encenação: JAT – Janela Aberta Teatro
Parceiros: IPDJ – Faro, Gimnásio Clube de Faro
Espaço com acessibilidade para pessoas com cadeira de rodas.