SPEAK chega ao Algarve com vontade de romper bolhas linguísticas

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Programa de voluntariado pretende juntar estrangeiros com nativos para criar uma rede de suporte, estimular eventos de grupo, e, sobretudo ensinar idiomas numa lógica de partilha. SPEAK arrancou em Faro mas pretende servir todo o Algarve.

Chama-se SPEAK, nasceu em Lisboa pela mão de portugueses e conta já com projetos em várias cidades espalhadas pelo mundo. A mais recente a entrar na lista foi a capital algarvia, através de uma jovem farense, há muito ligada a projetos de voluntariado com impacto social.

«O Algarve é uma região virada para o turismo e para os imigrantes, mas não chegamos a conviver muito com essas pessoas, apenas na base dos serviços. Não existe interação. Tentei colmatar um pouco essa falha ao inserir-me no Couchsurfing e acabei por contactar com essas pessoas que vinham de fora. Mais tarde uma colega minha falou-me deste projeto. Fez-me sentido», conta ao barlavento, Filipa Fonseca, 32 anos, licenciada em Economia e fundadora do SPEAK Faro.

Ao regressar à sua cidade natal, após diversas viagens ao estrangeiro, como Nicarágua, Estados Unidos da América, São Tomé e Príncipe e Tailândia, onde implementou alguns projetos de empreendedorismo social, a título voluntário, Fonseca recorda que foi então que começou a sentir falta de iniciativas «com impacto social no Algarve. Sempre tive ligada a essa área e é o que me move. No meu percurso lá fora sempre tive necessidade de contacto com outras culturas. Também precisei de ter conhecimento noutras línguas quando emigrei. Isto tudo motivou-me a implementar o projeto do SPEAK» na região algarvia.

E o que é afinal o SPEAK? «No início surgiu para refugiados e migrantes conectarem-se com as pessoas locais. Para criar uma rede de apoio entre pessoas que estão fora do seu contexto. Claro que da mesma forma que falamos de migrantes podemos falar de alguém que venha do Porto para Faro à procura de uma oportunidade de trabalho e não conhece ninguém. É uma oportunidade para co-construirmos sociedades mais inclusivas», explica.

«É um projeto que liga pessoas de diferentes origens e culturas, através da organização de grupos informais para partilha de línguas, promoção de eventos e criação de rede de suporte», acrescenta.

Na prática, «acaba por não só integrar as tais minorias, mas também cria redes de apoio para pessoas que estão a passas pelas mesmas situações. Nem todos somos extrovertidos, tem todos temos facilidade em passar pela experiência de estar num país estrangeiro. Com este projeto cria-se essa oportunidade».

Ou seja, qualquer pessoa que queira alagar os seus horizontes, desenvolver-se a nível pessoal e praticar ou conhecer uma nova língua pode inscrever-se na plataforma na Internet.

Ao pagar 29 euros tem acesso a 12 sessões, de uma hora e meia cada, num total de 18 horas. Há várias línguas à escolha e de diversos níveis.

Por exemplo, em Faro está a ser criado o grupo de Português Básico e o de Português Conversacional. Por outro lado, pode ainda existir uma troca de valores, em que o participante não necessita de pagar, tornando-se um buddy [nome utilizado para os voluntários que liderem um grupo].

Nesse caso, o voluntário compromete-se a ensinar uma língua, na qual esteja familiarizado, e em troca pode participar, gratuitamente, num grupo de outro idioma que tenha interesse ou necessidade em aprender. Durante essas 18 sessões, a base é a conversa e o foco é a educação não formal, onde não existe o requisito de se ensinar gramática ou termos técnicos.

Isto para «não pôr muita pressão a quem se junta para partilhar uma língua. É tudo através da interação, dinâmicas e jogos, que acontecem normalmente em horário pós-laboral, para abranger mais pessoas».

«Focamo-nos nos guias que a plataforma já dispõe como tópicos, slides, exercícios e jogos. As dinâmicas dependem dos buddies porque deixamos espaço para que se sintam as necessidades do grupo, já que os participantes têm diversos objetivos e diversos graus de conhecimento da língua. Há quem queira aprender para estar confortável numa entrevista de emprego e há quem possa só querer saber como ir a um café e pedir alguma coisa», explica Fonseca.

Mas uma vez que o projeto já existe desde 2014, «já muitos modelos e muitas sessões se deram e não só do português. Já muitos moldes foram testados, por isso, o que cada fundador utiliza é a plataforma do SPEAK, onde existe uma base, com diversos recursos, que permitem dar apoio a quem se junta de forma voluntária», acrescenta a fundadora do grupo de Faro.

Além das 18 sessões, um participante ao inscrever-se, tem ainda a oportunidade de participar, de forma gratuita, em todos os eventos, sejam online ou presenciais. Eventos esses que têm possibilidades «infinitas», nas palavras da jovem voluntária, como «visitas guiadas, jantares de grupo, acesso à cultura, passeios pela Ria Formosa, entre outros».

Outra das vantagens de pertencer a um grupo do SPEAK, é a troca de informações locais. Por exemplo, «alguém que já tenha passado pelo processo de legalização de documentos pode partilhar e explicar como o fez. Este projeto nasceu mesmo tendo isto tudo em conta», refere Fonseca.

Uma realidade regional diferente

Em Faro, o projeto começou a dar os primeiros passos em setembro, após Filipa Fonseca assinar oficialmente o contrato com o SPEAK.

A COVID-19 tem colocado alguns entraves, uma vez que o modelo foi criado para ser replicado offline. No entanto, há já cinco participantes.

«Quem nos tem procurado são sobretudo estrangeiros que vivem na região há algum tempo e já procuravam algo deste género. Temos um irlandês que vive em Vila Real de Santo António há quatro anos; um inglês que reside na zona da Praia da Luz; uma rapariga que está no Líbano e quer vir trabalhar para Portugal; um participante no Catar que também quer imigrar. Estamos na fase de captar mais participantes. Cada grupo consegue ter no máximo sete elementos. Em Faro vamos começar com dois, o de Português Básico e o de Português Conversacional, porque há pessoas com níveis diferentes de conhecimento no idioma», declara a voluntária.

Esse é um dos motivos que leva a que a fundadora perspetive que o SPEAK Faro, mais tarde ou mais cedo, se transforme em SPEAK Algarve.

«A região é muito versátil e tem uma composição que acaba por ser muito diferente das outras. Facilmente posso fazer um evento em Sagres, como em Tavira. Acho que esse pode ser o maior e o mais promissor fator de sucesso deste SPEAK. Até pela necessidade de estarmos tão vocacionados para o turismo».

Assim, «qualquer indivíduo que trabalhe numa área de serviços beneficia ao participar num grupo. Acho que os estrangeiros residentes estão muito dentro da sua bolha, onde só se relacionam entre eles, maioria ingleses nativos. Nos serviços, assim que vemos que há uma barreira linguística no português, falamos em inglês e isto é prejudicial para eles. Pergunto: o que falta para essa comunidade sair da sua bolha? Talvez um projeto como este. Olho para uma língua como um conetor e não como uma barreira e isso é uma das coisas que mais valorizo no SPEAK», explicita a jovem.

Apesar de ainda estar em processo embrionário, Fonseca tem vários planos para o SPEAK Faro ou Algarve, que passam pela cultura, pelos estudantes em Erasmus e pela reintegração no mercado de trabalho de minorias.

«Já tenho uma parceria com a Casa das Virtudes. Pondo a hipótese que a cultura e a arte não passam só pelo idioma, existem pessoas que podem ter ali uma oportunidade e uma porta aberta. Estamos também a formalizar uma parceria com a Erasmus Student Network do Algarve para abrir o espetro para os alunos. Isto pode abranger não só estudantes que vêm para o Algarve, como pessoas que estão a ponderar fazer Erasmus».

Por exemplo, «criar um grupo que vai para o mesmo país e fazer sessões de como sobreviver nesse mesmo destino. Alguém levar 18 horas de preparação e de experiência com o idioma, faz toda a diferença. Gostava também de levar o SPEAK a outro patamar, ao associativismo e à responsabilidade corporativa. Implementar numa empresa um projeto numa comunidade mais excluída», antevê.

Ainda segundo a economista, está também nos planos chegar a diversos grupos específicos.

«No SPEAK já houve um protótipo na área de código e programação. Quero isso em Faro. Faz-me muito sentido um grupo de código nas prisões, por exemplo, pela parte da reintegração social e profissional. Vejo também, por exemplo, sessões de inglês a reformados. Porque não? Faz todo o sentido. Também gostava de fazer parcerias com Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD) e até Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).

Quem estiver interessado em inscrever-se no SPEAK, seja como buddy, seja como participante, só tem de entrar no site do projeto.

«Há vários modelos. A wish list faz parte da plataforma e é onde uma pessoa pode deixar o pedido de qual língua gostaria de aprender e em que cidade. Quando abrir o grupo dessa língua em questão, a plataforma dispara logo um email de concretização a dizer que o grupo abriu. Além disso, ainda no site pode-se selecionar a cidade de Faro e fazer logo a inscrição, tanto para buddy, como para participante e até para embaixador [focado apenas nos eventos]. Nas redes sociais (@Speak.Faro), podem entrar em contacto direto comigo», conclui Fonseca.