Rolear e UAlg desenvolvem sistema inovador de ar condicionado

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Rolear e a Universidade do Algarve desenvolvem, em conjunto, um sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado inovador. Protótipo deve estar pronto em julho.

Dor de cabeça, olhos irritados, náuseas e sono. Nem sempre os sintomas atribuídos ao cansaço são sinal de exaustão. A má qualidade do ar nos espaços interiores é, muitas vezes, a culpada pelo mal-estar sentido.

Desenvolver um sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado que minimize esses problemas é o desafio que a Rolear e a Universidade do Algarve desenvolvem em conjunto, num projeto cujo protótipo deve estar em julho.

É no Laboratório de Energias Renováveis, na cave do edifício 7 da Universidade do Algarve, no campus de Gambelas, em Faro, que Júlia, Marisa e as gémeas Natália e Natacha têm sido fundamentais na fase de simulação e de experimentação do Safeair, o sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado que promete renovar a forma como se trabalha a qualidade do ar em ambientes interiores.

Os quatro manequins têm sido cobaias nos testes que meia dúzia de mestrandos e doutorandos, orientados pelo professor Eusébio Conceição, da Faculdade de Ciências e Tecnologia, desenvolvem nos dois espaços afetos ao projeto.

Sentadas imóveis numa câmara experimental que simula uma sala de aula, as bonecas adaptadas simulam pessoas a respirar. Através de pulmões artificiais, é inalado ar e verificada a concentração de dióxido de carbono que alguém emite e alguém respira.

Sistema focado no ar que se respira

Se num espaço normal, os sistemas implantados centram-se no ar que entra, negligenciando muitas vezes o que circula e sai, no projeto Safeair a lógica é outra.

Focado na melhoria da qualidade do que se respira, o novo sistema AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado) baseia-se na ventilação personalizada.

Para se perceber, é preciso começar pelo primeiro piso, onde um escritório especial de menos de 3 metros por 3, forrado a madeira, com piso radiante, tem instalado um sistema de jatos verticais e horizontais.

«Os jatos confluentes já são trabalhados há anos», admite Eusébio Conceição, responsável pela investigação. «A combinação que estamos a fazer é que é inovadora porque este jato confluente horizontal combina a extração à saída. O ar vai espalhar-se pelo chão. Não se sentem correntes de ar e não há risco de resfriamento. É tudo muito homogéneo».

Na prática, este sistema energeticamente sustentável tem dispositivos de ventilação que criam cortinas de ar junto das superfícies e dispositivos de extração, localizados acima das cabeças dos ocupantes da sala, o que garante uma extração mais eficiente dos contaminantes libertados por cada indivíduo.

«Começamos com um protótipo, que foi idealizado numericamente, agora queremos validar os nossos modelos», acrescenta o professor, enquanto caminha em direção ao Laboratório de Energias Renováveis.

Ao abrir-se a porta, saltam à vista as 4 condutas que se ligam à câmara experimental adaptada a sala de aula, mas que é possível configurar para avião, autocarro ou comboio, por exemplo.

Todos os materiais são fornecidos pela Rolear. A empresa criada há 42 anos, precisamente quando nasceu a Universidade do Algarve, está desde o início ligada à academia e a muitos dos projetos do centro de investigação daquela instituição.

A empresa algarvia, que tem pautado a sua atividade pela inovação, tem estado desde sempre ligada à Universidade e à produção de conhecimento académico que depois transporta para o mercado e implementa no terreno.

A Rolear está também na origem do CINTAL – Centro de Investigação Tecnológica do Algarve, onde, desde 1991, e em conjunto com a UAlg e o LNEG, tem vindo a colaborar em projetos de inovação que hoje são prática corrente, como por exemplo a implementação do primeiro projeto de energia eólica com alguma dimensão em Portugal, concretizado em Vila do Bispo em 1997.

De novo, no caso Safeair, além da cedência dos materiais, a Rolear irá testar um sistema mais alargado.

«Enquanto empresa, temos fomentado sempre a inovação e vamos pôr a solução no terreno», acrescenta António Parreira Afonso, sócio fundador da empresa e que vê no mercado abertura para este género de soluções, «ainda mais nesta altura de pandemia, em que a sensibilidade das pessoas é muito maior do que há cinco anos».

O responsável pelo grupo, que opera nas áreas do ar condicionado, energias renováveis, gás, eletricidade, manutenção industrial, construção e infraestruturas, aponta possíveis interessados nas soluções Safeair: «vejo a aplicação em hospitais, transportes públicos, lares ou em salas de aulas».

Para já, é preciso esperar até julho, pela quarta fase dos trabalhos de gestão de projeto e divulgação.

Antes disso, o trabalho de campo prossegue com os testes nas duas câmaras experimentais. Entre as avaliações em curso, está o efeito do aumento da temperatura na qualidade do ar.

«Vamos criar janelas e simular a radiação solar e ver como o sistema reage com mais calor», explica Eusébio Conceição.

«Queremos também testar situações mais complicadas, como o funcionamento dos jatos quando temos alguns obstáculos, mobiliário por exemplo. Queremos testar os sistemas horizontais e o processo de respiração e a extração do monóxido de carbono. Em espaços com grande densidade humana é um fator importante».

Será feita uma análise de partículas para se perceber a quantidade que cada pessoa pode emitir e qual o trajeto das mesmas.

«Temos analisadores, vamos usar técnicas como gases traçadores, em que injetamos determinado gás para analisar o percurso, o deslocamento no espaço, a idade das partículas cá dentro e a sua taxa de renovação. Essas técnicas mensuráveis irão permitir avaliar vários parâmetros de qualidade do ar», descreve.

A componente experimental do projeto só é possível pelo financiamento do CRESC Algarve 2020, num projeto de investimento em parceria entre a Universidade do Algarve e a Rolear, no contexto do combate à COVID-19.

Esse apoio permitiu avançar para a aquisição de equipamento de medição topo de gama, de que a universidade não dispunha e cujos sensores medem todas as variáveis do conforto térmico e qualidade do ar.

Eusébio Conceição lembra que, num espaço fechado sem a renovação de ar adequada, a concentração de dióxido de carbono pode ultrapassar os 1800 miligramas por metro cúbico (m3) e causar cefaleias.

O sistema Safeair deverá baixar significativamente esses valores para níveis abaixo dos 1200 miligramas por m3.