Refood Faro vai aumentar ajuda à população graças às novas instalações

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Câmara Municipal de Faro adquiriu loja com 130 metros quadrados (m²) para ceder à associação em regime de comodato. Novo espaço vai permitir aumentar a recolha e redistribuição de alimentos a pessoas em situação de carência ou incapacidade.

A oportunidade surgiu «dos contactos que temos tido com as entidades que estão a ajudar a população. Verificámos que a Refood está a fazer um excelente trabalho, mas tem instalações muito exíguas. Numa das visitas que fiz no início de dezembro, constatei que não tinham capacidade de aumentar a resposta e estavam a trabalhar em muito esforço. Daí, procurámos instalações e descobrimos uma loja à venda no bairro de Santo António do Alto. Fomos ver melhor e considerou-se que o espaço tinha condições para esta função», explica ao barlavento Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro.

O município adquiriu então a fração e fez a escritura no final de 2020. Agora, o executivo aprovou, por unanimidade, um contrato de comodato para ceder o espaço à Refood durante cinco anos.

Em termos práticos, a Refood apoia hoje um total de 108 agregados familiares, cerca de 300 pessoas, entre as quais 100 crianças.

Atingiu o limite da pequena sede, inaugurada e em funcionamento desde 2016, porque esta não permite armazenar mais produtos nem acolher um maior número de voluntários em simultâneo.

Por isso, Paula Matias e Carlos Reis, coordenadores do núcleo de Faro da Refood, não podiam estar mais gratos.

«Como é de conhecimento público, começámos a ter um grande aumento de pedidos de ajuda. Aliás, tivemos de cancelar alguns que nos chegavam. Agora, a ideia é manter ambos os espaços ativos».

Paula Matias sublinha que «os proprietários do atual espaço ficaram muito satisfeitos com esta notícia e ainda assim permitiram-nos continuar a trabalhar aqui. Podiam querer o espaço de volta, o que nos ia dificultar muito porque temos pessoas idosas, doentes oncológicos, e até uma família com elementos invisuais, cuja residência fica mais perto deste local» e não teriam como ir à zona da Atalaia, na outra ponta da cidade.

O novo espaço, contudo, tem várias vantagens. «Sempre me fez confusão as pessoas receberem os alimentos à janela, mas não havia outra forma. Em breve, mesmo com as medidas de segurança, teremos uma bancada em acrílico para que os beneficiários possam entrar e receber a sua alimentação. Vai possibilitar que não estejam tão expostos ao público e na rua. Isso são dois pontos muito importantes», frisa.

«Vamos também montar um gabinete, no pós-pandemia, para os atendimentos presenciais, onde possamos dar toda a dignidade e privacidade às pessoas durante a avaliação socioeconómica. Até agora, tínhamos de usar a mesa de um café», refere a responsável.

Segundo Carlos Reis, quando ambos os espaços estiverem a funcionar, a resposta prevista será superior a 400 beneficiários.

«O nosso apoio alimentar é dado com o que resgatamos nos hipermercados e na restauração. Agora temos novos parceiros em Olhão. O nosso foco será também a aquisição de uma nova carrinha. A nossa trabalha o dia inteiro e para nos deslocarmos fora da cidade precisamos de outra. O Ginásio Clube Naval de Faro e o Moto Clube de Faro é que nos têm emprestado meios sempre que necessário», acrescenta a coordenadora.

«Os produtos não perecíveis são muito importantes, uma vez que, além do apoio que damos às nossas famílias e beneficiários identificados, estamos, desde março, e agora então intensificou-se muito, a apoiar outras, infetadas pela COVID-19, ou em isolamento, e que são encaminhadas pelo Centro de Saúde ou pelo Hospital de Faro, através da ação social da autarquia. São pessoas que não têm maneira de adquirir alimentos. Quando um caso é sinalizado pelo Centro de Saúde, é a Proteção Civil que vem buscar os alimentos à Refood e os entrega. Quando é através do Hospital, há uma equipa de enfermagem [COVID Casa] que faz a recolha. Daí a necessidade de termos um stock de bens alimentares não perecíveis para os pedidos mais urgentes», descreve.

E o que precisam mais? «Lançámos, no dia 8 de janeiro, um apelo online à comunidade para se cozinharem refeições. Já temos cinco pessoas que o estão a fazer. Isto porque há muitas famílias que não têm condições para cozinhar e que dependem mesmo de comida confecionada. Não é porque lhes falte água ou luz, mas, por exemplo, temos uma família em que a mãe é invisual e é o filho com 16 anos que tem de confecionar as refeições, e com essa idade ainda não o sabe fazer da melhor maneira. Foi também uma forma de nos reinventarmos e de envolver a comunidade para fazer face a esta quebra», sublinha.

Por outro lado, com os restaurantes fechados ou a meio gás, «há sem dúvida uma quebra na comida confecionada».

O apelo, contudo, tem sido ouvido. «As pessoas continuam a fazer-nos chegar donativos, continuam a preocupar-se se temos comida para dar às famílias. Essa é a realidade. Há uma solidariedade muito grande em Faro», considera Paula Matias.

«Esta pandemia trouxe muita coisa má, mas também trouxe algo que até ao momento não existia, uma maior união dentro da cidade. Não só da comunidade preocupada com os problemas, porque se nota uma grande diferença, mas também por parte da autarquia e de outras entidades, inclusive uma união das IPSS», opina.

Em relação à ajuda da Câmara Municipal de Faro, os coordenadores acreditam que «é um reconhecimento pelo serviço de quase 300 voluntários que se juntaram para ajudar. Há pessoas que pela primeira vez estão a passar por situações muito complicadas e que não estavam preparadas para esta mudança na suas vidas».

Um exemplo? «Temos o caso de um casal com três filhos. Tinham a vida estruturada. Face a esta situação pandémica, um deles ficou em layoff, outro foi despedido. Um dos filhos completou quatro anos e um mês depois ficou parcialmente cego de uma vista e está a ser acompanhado em Lisboa. Este casal teve de reestruturar tudo porque de repente ficou sem rendimentos, com uma criança doente e com mais dois filhos que têm problemas de saúde. Só em farmácia têm despesas muito grandes e ainda têm de gastar dinheiro em viagens. Outra situação que me tocou é o caso de uma enfermeira. Toca-me muito pela profissão. Estamos a falar de classe média, até à data nunca tínhamos presenciado isto», confidencia.

Ainda em relação ao novo espaço, «vamos precisar de uma máquina de lavar louça industrial e uma arca congeladora. No espaço atual temos essa carência. Quando nos chegam congelados, e às vezes vêm em grandes quantidades, temos de entregar tudo na hora, não temos como armazenar para o dia seguinte. Vamos precisar de pelo menos três ou quatro frigoríficos e uma bancada de inox. Esse é o material mais urgente que iremos precisar e não temos».

Além disso, serão precisas obras. «Estamos a tratar com o apoio da autarquia, de uma rampa à entrada e outra no exterior. Temos um voluntário com mobilidade reduzida que nunca conseguiu entrar dentro da Refood. Vamos adaptar o espaço para que todas as pessoas possam entrar e usufruir. Apontamos para que tudo esteja pronto em meados ou final de março», conclui.