Quem quer um armazém à «prova de tudo» no coração da mina de Loulé?

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Os norte-americanos da empresa Underground Vaults & Storage estiveram perto de assinar um acordo para instalarem uma filial europeia na mina de sal-gema de Loulé, em 2009. Na sede, no Kansas, e também numa mina de sal, esta empresa guarda, por exemplo, os arquivos de filmes clássicos dos estúdios da Warner Brothers.

«Para se ter uma noção do que é o arquivismo, o plano de negócio deles previa, para o primeiro ano em Loulé, uma faturação inicial de 10 milhões de euros. Já tinham interessados no Médio Oriente e em Moscovo», revelou Alexandre Andrade, engenheiro geólogo e diretor técnico da mina da Campina de Cima. A relevação foi feita perante uma plateia de 40 pessoas que desceram ao subsolo para assistir à 24ª conferência do projeto «Entre Arquivos», na quinta-feira, 9 de junho.

«Estávamos a trabalhar num projeto a várias mãos, que incluía turismo, storage e inclusive um hotel de experiência ligado à saúde. Não avançou, devido primeiro ao advento da crise internacional e depois, da crise nacional, devido à dificuldade acrescida de financiamento», revelou.

Falando sobre possíveis usos para a reutilização de espaços mineiros, Andrade referiu que o grupo CUF está de novo interessado em receber «parceiros» que permitam «a continuidade da exploração mineira e que tomem conta de algum espaço, ou até mesmo, de todo». E espaço é o que não falta. Em média, as galerias têm 9 metros de altura por 10 metros de largura, ao longo de 45 quilómetros. As vantagens são o ambiente fresco e seco constante, à prova de sismos e o acesso restrito.

«Na mecânica das rochas, o sal-gema é autoportante. Isso leva a que haja uma segurança muito elevada face ao risco de derrocada. A quase ausência de aquíferos nas minas de sal é uma característica latente. A temperatura varia entre 20 a 24 graus e os teores de humidade relativa são muito baixos», explicou.

Ao exemplo do que acontece em países como a Suécia, uma possibilidade é a instalação de data centers subterrâneos. Luís Borges Gouveia, professor universitário e convidado para falar sobre os «desafios da segurança da informação» viu a ideia com bons olhos. «Pode ser um bom argumento de venda. As bombas electromagnetic pulse (EMP) existem. São uma arma tática americana e de outros blocos, de certeza», confirmou. «O negócio hoje é predominantemente digital. A questão do papel alterou-se profundamente. Até no contexto nacional, onde há uma grande tradição de imobilismo ao nível daquilo que são os atos comuns da res publica, estamos perante uma grande movida para o digital».

Já Nelson Vaquinhas, do Arquivo Municipal de Loulé e membro da comissão instaladora do «Entre Arquivos», tem uma perspetiva mais convencional. «Os arquivos do Algarve, como também os de outras regiões, deparam-se muitos deles com problemas relativos à documentação acumulada, à falta de espaço e de condições para depositar os seus fundos documentais. São situações que preocupam as instituições e os profissionais de informação dado o crescimento exponencial de informação que é produzida, quer em papel, quer em digital. Julgo ser um caso interessante de armazenamento de informação, desde que se cumpram os parâmetros técnicos exigidos nessa matéria», disse ao «barlavento».

A mina tem ainda potencial turístico e de haloterapia, pois o ar seco e salino é bom para quem sofre de asma. «Há pelo menos 200 sanatórios em minas de sal no mundo. A classe médica desconhece esse potencial. Mas também é verdade que nós não tomamos direções nesse sentido», posicionando a mina da Campina de Cima como uma mais-valia para a saúde (pública e privada) da região. Já os operadores turísticos «contactam-nos muito», mas veem a porta sempre fechada. «Neste momento, só fazemos descidas com protocolos ou visitas técnicas de universidades», admitiu Alexandre Andrade.

No total, trabalham 11 pessoas na mina, que produz cerca de 7000 toneladas por ano de sal-gema, a maioria para o mercado ibérico. «Nestes tempos de difícil acesso ao capital, temos de nos focar no core business» da CUF, que é a indústria química.

«O maciço tem 900 metros de espessura, ainda só temos 130 explorado.Numa perspectiva da capacidade máxima que está instalada nesta mina, se estivessemos a funcionar ao máximo, teríamos material para mais 3000 anos», estima.

Outros usos para a mina estiveram sempre em cima da mesa, na perspetiva de que havendo parceiros que queiram tomar as novas aplicações para a reutilização, a CUF está disposta a recebê-los».

A mineração é feita por um processo convencional de desmonte mecânico das rochas, com três máquinas roçadoras. Alguma coisa que distingue o sal-gema de Loulé? «Não. Está dentro do universo médio, que ronda os 91 por cento de cloreto de sódio. Este terá cerca de 93,5 por cento. Mas também há outros com 98 a 99 por cento. Estamos acima do universo médio, tem potencial de utilização e reservas grandes», explica.

Em termos de «topografia, sabemos com rigor cada um dos cruzamentos das galerias com câmaras, sabemos com rigor interno de dois milímetros (latitude, longitude e profundidade). Se transportarmos isto para as coordenadas nacionais, há uma perda de rigor, com um erro máximo de 3 centímetros. Sabemos exatamente onde estamos».

«Se houver resíduos que não sabemos que lhes fazer, podemos guardar aqui. Até o nuclear, mas creio que não queremos isso aqui, até resíduos inertizados, daqueles que ainda não têm encaminhamento mas têm de ser guardados. Podemos recorrer a sítios como este».

O coeficiente de segurança sísmica da mina, dos pilares de sal é 4.36. «Posso dizer que nas habitações das zonas mais sísmicas de Portugal, o Algarve e Lisboa, é requerivel por lei, até 2,3. As barragens vão até 3», compara.

«Em 1969, em fevereiro, ao meio da noite houve um sismo violento. Estava o turno da noite a trabalhar na mina. Telefonaram cá para baixo a perguntar se estavam todos bem e a pergunta foi devolvida: porque é que havíamos de estar mal? Isto reflete bem as condições que temos o storage».