Protocolos de Colaboração são uma esperança para a saúde no Algarve

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barlavento- Foi assinado um Protocolo de Colaboração entre o Centro Hospitalar de Lisboa Norte, EPE, (CHLN) e o Centro Hospitalar do Algarve (CHA), EPE. Trata-se de um processo na sequência de uma política de colaboração do CHLN encetada por si desde 2014. O que trata este tipo de colaboração?
Carlos Neves Martins –
Centra-se na ligação entre duas entidades que pretendem relacionar-se de forma mais estreita e recíproca, convergindo nos objetivos e na colaboração das suas atividades. O CHLN e o CHA decidiram colaborar mais de perto e em reciprocidade, no âmbito de cinco importantes itens: Cooperação técnica; Documentação e informação; Formação e especialização; Investigação; Prestação de serviços de saúde. Esta relação, que foi subscrita nas áreas consideradas essenciais do ponto de vista bilateral, desenvolver-se-á, na prática, através de acordos específicos. O primeiro, que começou a ser negociado já na semana passada, será para a Ortopedia. Iremos, CHLN e CHA, envolver também o Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC) e o Centro Hospitalar de Setúbal (CHS), unidades de elevada diferenciação nesta especialidade e com capacidade de resposta disponível. Depois, área a área, veremos como fazer. Sobretudo se continuamos a envolver outras unidades do setor público da região de Lisboa.

Da sua experiência, quais são as mais-valias e benefícios para o Algarve com o novo protocolo?
Estamos, desde esta semana, a analisar com os nossos colegas do CHA as situações mais urgentes, por forma a estabelecermos planos de ação devidamente adequados às realidades de ambas as partes. Estamos a avaliar, desde logo, a forma e o momento para a disponibilização de recursos humanos individuais ou/e de equipas, de modo a conseguirmos diminuir a evacuação de doentes do Algarve para Lisboa, tratando os residentes na sua região. Esta estratégia permitirá a permuta in loco do conhecimento e de experiências clínicas, melhorando o desempenho dos envolvidos, abrindo novas oportunidades de desenvolvimento de atividades dentro dos itens consagrados no Protocolo de Colaboração, subscrito na passada sexta-feira. Por fim, potenciar condições de maior atratividade para que novos profissionais se fixem nas unidades hospitalares do CHA. Importa igualmente referir que estamos já a analisar as falhas de resposta e as listas de espera com tempos inapropriados, situações que teremos que resolver, a curto prazo, em Lisboa e assim dar a possibilidade aos algarvios de serem tratados dentro de unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com qualidade, em tempo e sem custos acrescidos.

Quais as especialidades que serão beneficiadas?
Iniciaremos a colaboração na especialidade de Ortopedia, situação em que estamos, como disse, a trabalhar todos os cenários possíveis de apoio para sanar com esta peculiar, expressão simpática, situação de falta de resposta nos hospitais da região. No entanto, temos áreas muito críticas que importa avaliar e reforçar a oferta ao Algarve e a colaboração na região. Como a Cirurgia Vascular, a Oftalmologia, a Pneumologia, a Obstetrícia/Ginecologia e, mais recentemente, a Pediatria. Acredito que, em breve, poderemos informar a região sobre o modelo final que irá ser adotado, de forma faseada e regular.

Desde há dois anos, o maior centro hospitalar universitário do país colabora com entidades hospitalares nacionais e estrangeiras. Como surgiu esse protocolo?
Como sabe, o CHLN é o resultado da união de dois grandes hospitais localizados na zona norte da cidade de Lisboa: o Hospital de Santa Maria e o Hospital de Pulido Valente. Este centro hospitalar universitário, o maior e o melhor do país pela muito elevada diferenciação científica e técnica, receciona muitos doentes e acidentados, não só da sua área de influência, mas também de todo o país, incluindo as Regiões Autónomas. Recebemos igualmente, todas as semanas, doentes com origem nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e garantimos a assistência hospitalar a cidadãos de países dos cinco continentes, com quem temos acordos bilaterais, e que estão em trânsito, em visita, ou que residem em Portugal. Para dar uma ideia da dimensão da atividade/responsabilidade do CHLN, temos uma média de 5 a 6 mil cidadãos, por dia, à nossa responsabilidade, de variadas nacionalidades e origens geográficas, que connosco têm consultas, recebem tratamentos, fazem exames, levantam medicação inovadora, estão internados e são intervencionados cirurgicamente. Da avaliação que fizemos em 2013, concluímos que era exequível, nalgumas áreas e enquanto hospital universitário de referência, reforçar a relação com unidades hospitalares nacionais e estrangeiras, contribuindo para a sua diferenciação técnico-científica, para a melhoria das suas boas práticas gestionárias e, sobretudo, para a diminuição das transferências e evacuações, criando-se condições para que aumentassem as suas respostas médico-cirúrgicas localmente.

Quais os protocolos que efetuaram desde então? Há algum balanço que possa ser feito?
Temos, neste momento, Protocolos de Cooperação, a que aditamos vários Acordos Específicos, com o Centro Hospitalar do Oeste (Caldas da Rainha e Torres Vedras), com a Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (Santiago do Cacém), com o Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo (Ilha Terceira, Açores), com o Hospital Dr. Nélio Mendonça (Funchal, Madeira), com o Hospital Agostinho Neto (Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde), com o Hospital Baptista de Sousa (Cidade do Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde), com as Clínicas Sagrada Esperança, Cligest e Girassol (Cidade de Luanda, Angola). E, este ano, temos já preparados os dossiers para a assinatura de importantes protocolos e acordos com o Hospital Militar Principal (Cidade de Luanda, Angola) e com o Hospital Central de Maputo (Moçambique), ambos unidades hospitalares universitárias. Todos estes processos estão em execução e nalgumas situações fomos nós, CHLN, que assegurámos de forma descentralizada o funcionamento regular de algumas especialidades críticas, evitando transferências e internamentos desnecessários em Lisboa, longe da residência e das famílias, até os problemas estarem resolvidos ou conseguirmos fixar novos médicos. Esperamos fazer, este ano, um balanço público desta inovadora política encetada em 2014, articulada e, muitas vezes, complementar a acordos diplomáticos, visão estratégica que agora é partilhada e integrada com e pelo CHA.

Como será feita esta cooperação entre os dois, o CHLN e o CHA, por exemplo no caso dos ensaios clínicos e investigação?
No caso dos ensaios clínicos, podemos ter contratos destes dois centros hospitalares com um determinado laboratório, integrando doentes da região e possibilitando que estes tenham acesso a tratamentos inovadores, sem custos, nem necessidade de serem referenciados para Lisboa. Naturalmente que os profissionais do CHA estarão em pé de igualdade na equipa clínica destes ensaios bilaterais, passando a ter assim contacto direto com inovação farmacológica de ponta e a ter a possibilidade de publicar em revistas científicas nacionais e internacionais. No caso da investigação, temos como parte integrante do Centro Académico de Medicina de Lisboa (CAML), uma das referências nacionais e internacionais da investigação, o Instituto de Medicina Molecular (iMM) e podemos claramente colaborar com o recém-criado Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve na permuta de quadros e em projetos comuns, de interesse para a região e país. Estas novas janelas de oportunidade, decorrentes da Portaria e do Protocolo formalizados na sexta-feira passada, são uma parte essencial de uma nova oferta do CHA, da ARS do Algarve e da Universidade do Algarve (UAlg), a quadros juniores e mais seniores da saúde, quer da área da investigação, quer da prestação de cuidados. Seremos, Algarve, mais atrativos e competitivos se usarmos adequada e estrategicamente as novas parcerias e este consórcio ora disponíveis. E sei, por experiência própria – presido, desde 2013, ao CAML, constituído em 2009 pelo CHLN, pela Faculdade de Medicina de Lisboa e pelo iMM – o potencial inerente ao facto de trabalharmos em conjunto. Isto é, termos estratégias comuns de ensino, formação, investigação, inovação e prestação de cuidados diferenciados e de complexidade major. Além da sustentabilidade e dos ganhos em saúde, somos mais atrativos e competitivos na contratação de recursos humanos, conquanto não oferecemos aos quadros que nos interessam só um contrato de trabalho para prestação de cuidados, mas também a oportunidade de fazerem uma pós-graduação ou um doutoramento, de investigarem, lidarem com a inovação e de assumirem responsabilidades de ensino ou/e formação num contexto académico. E, a esta valorização pessoal, profissional e curricular, adita-se naturalmente uma remuneração média mais adequada a quem opta por abraçar este tipo de desafios, saindo da sua zona de conforto.

Na região há equipamentos e profissionais com formação adequada para implementar os ensaios clínicos ou este tipo de investigação a que se refere? Qual o ponto de partida?
No Algarve, permita-me que fale enquanto algarvio e, por isso, na primeira pessoa, temos equipamentos e profissionais de elevada qualidade. No entanto, o ponto de partida determinou, e bem, na minha opinião, o processo de colaboração, como o que temos estado a falar, entre os dois centros hospitalares (CHLN e CHA) e o conceito de consórcio como o que foi agora criado entre CHA e a Universidade do Algarve. Repare que a UAlg fez, de há alguns anos a esta parte, um grande investimento na criação de licenciaturas, mestrados integrados, pós-graduações e doutoramentos na área da saúde. Desde as ciências médicas até à gestão, passando pela enfermagem, pelas técnicas de diagnóstico e terapêutica, entre outras profissões e carreiras. Sublinho, porque me parece importante, que 25 por cento dos cursos da UAlg são da área da saúde, o que parece ser uma contradição face ao que temos ouvido sistematicamente dizer sobre o SNS algarvio, designadamente sobre a falta de quadros nas instituições regionais, desde os centros de saúde aos hospitais públicos… Mas retomando a sua pergunta e o meu raciocínio. A par desta aposta educativa e formativa, a UAlg completou, e muito bem, a sua estratégica com projetos e centros de investigação direta e indiretamente ligados à saúde. Eis porque sempre afirmei que existiam janelas de oportunidade não utilizadas estrategicamente no Algarve, ao serviço das pessoas e da região, designadamente contribuindo a saúde para a crescente competitividade do motor da economia regional, o turismo.

Um dos problemas do Algarve tem sido não conseguir fixar profissionais na região. De que forma esta nova colaboração entre CHLN e CHA pode contribuir para reverter esta situação?
Em termos legislativos e de incentivos caberá ao Ministério da Saúde explicar o alcance do que tem sido afirmado pelo senhor ministro, mas, conforme já afirmei no início da nossa conversa, existem oportunidades de criar modelos regionais de atratividade e competitividade, desde que as instituições apresentem ofertas de «banda larga». Recordo o que isto significa, de forma prática: o Algarve tem que oferecer aos potenciais quadros mais do que um contrato de trabalho no SNS! Deve-lhes ser proporcionada a oportunidade de se especializarem e de terem acesso a um contexto académico ligado à investigação, à inovação e, até eventualmente, ao ensino. E, repito, a esta valorização pessoal, profissional e curricular, adita-se naturalmente uma remuneração média mais adequada a quem gosta de abraçar desafios novos e se lançar na descoberta de novos caminhos profissionais na área da saúde. A afiliação do CHA com o CHLN, este com os seus hospitais universitários de muito elevada referência e diferenciação, pode constituir uma mais-valia para o modelo atrás referido e uma parte da estratégia de atratividade, o que poderá passar pela fixação de quadros nossos na região, com o nosso apoio e estímulo.

Outro problema são as listas de espera em algumas especialidades no Algarve. O CHLN (Hospital de Santa Maria e Hospital Pulido Valente) recebe alguns destes doentes que não conseguem consultas, exames ou cirurgias na região? Como inverter a situação e com que amplitude?
De alguma forma esta pergunta já foi respondida anteriormente. Mas, posso repetir que um dos benefícios do Protocolo de Colaboração é exatamente atenuar no curto prazo a evacuação de doentes do Algarve para os nossos dois hospitais [Santa Maria e Pulido Valente] ou outros de Lisboa, em patologias e quadros clínicos, em que os doentes devem ser tratados localmente. [Isto], se, para tal, estiverem criadas as condições de recursos humanos em quantidade suficiente. Mas que fique claro que continuaremos sempre a receber doentes do Algarve, como recebemos de outros locais de Portugal, onde existem hospitais muito qualificados e universitários, dado que temos técnicas e inovação únicas no país. Razão pela qual afirmei no início que somos o maior e o melhor centro hospitalar universitário do país. Aliás, atente-se ao que aconteceu na passada sexta-feira em Lisboa: a criação de Centros de Referência. O CHA tem um Centro de Referência e nós atualmente temos 11, pelo que os algarvios que tenham necessidade deste tipo de intervenções de excelência terão que continuar a recorrer a Lisboa. Naturalmente que colaboração ora iniciada e a criação do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve vão alavancar a diferenciação do CHA e acredito que muito em breve teremos mais Centros de Referência na região, sinal de qualidade e excelência do SNS algarvio.

A médio prazo, pelo que percebemos, acredita que será possível resolver assim alguns dos problemas que o SNS no Algarve tem sistematicamente atravessado?
Estou convencido que sim, mesmo abstraindo-me dos afetos pessoais. Recordo que sou algarvio nado e criado e que a minha casa profissional é a Universidade do Algarve, mas igualmente recordo que conheço muito bem a região e os atores ora envolvidos neste novo desafio. Assim como conheço bem o setor da saúde, pelo que peço o crédito de acreditarem num algarvio que foi adotado pelo SNS em 1993 e que tem alguma experiência para poder fazer este tipo de conclusões, e deixar estas palavras de confiança nas instituições públicas, nos profissionais da UAlg e do SNS, nos responsáveis políticos e, sobretudo, na secular resiliência dos algarvios.

Retomando o consórcio do Centro Académico de Medicina de Lisboa (CAML) criado em 2009. Em que consiste?
O CAML assenta em quatro premissas basilares, que compõem a sua missão, claramente expressa em Diário da República, no ano de 2009: suscitar a coordenação e a definição de objetivos estratégicos comuns, com impacto na educação médica e na formação profissional, influídas em larga escala pela ciência e pela pesquisa; promover o desenvolvimento da investigação biomédica e clínica; criar sinergias entre os investigadores e os cientistas e a realidade médica; possibilitar otimização do capital humano e financeiro, aproveitando a mais-valia proporcionada pela partilha física do mesmo campus universitário. Não é surpresa para quem me conhece, afirmar o quão estimulante tem sido desenvolver outro eixo a que atribuo peculiar importância estratégica e julgo uma mais-valia incontornável para qualquer instituição: a internacionalização. E, através do CAML, a fusão de sinergias com outras comunidades, sejam elas de foro académico, médico ou estudantil, aliada a uma aposta clara num acréscimo de qualidade, reflete-se numa nova dimensão de análise do que fazemos, ou de debatermos e refletirmos sobre quais os melhores procedimentos e soluções, por forma a encontrarmos respostas partilhadas e enriquecidas com diferentes opiniões, suscitadas por distintas formas de estar e atuar.

Como funciona em Lisboa? Será aplicado de forma semelhante no Algarve?
O CAML integra em si, o CHLN, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e o iMM, entidades que já partilham o mesmo campus e que passaram a ter objetivos comuns, procurando, da melhor forma, articular as suas estratégias e recursos disponíveis, com vista a potenciar a excelência da prestação dos cuidados de saúde, a promoção da formação pré e pós-graduada dos profissionais de saúde, bem como a divulgação, dinâmica e projeção da investigação associada desta área. Conforme já referi, tenho a honra de presidir a esta entidade desde 2013, com a motivação própria de quem entende e vive o potencial estratégico institucional deste ímpar conjunto de «marcas», todas referências incontornáveis no Serviço Nacional de Saúde. E ainda recentemente o ministro da Saúde, professor Doutor Adalberto Campos Fernandes, anunciou publicamente o estabelecimento futuro de parcerias estratégicas com as áreas da economia e da ciência, com vista à promoção de «coligações virtuosas» na criação de valor em áreas como a investigação científica e a biomédica, quadro em que se insere a recente criação do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve. E que teve como referência pública o exemplo do CAML, o qual foi igualmente a referência para os restantes quatro Centros Académicos criados no ano passado no Porto, em Coimbra e em Lisboa. Este claro referencial deixa-nos muito honrados e lisonjeados, mas sobretudo adita uma particular responsabilidade perante estes jovens Centros e as instituições que os constituem. Assim, continuaremos a apoiar e a estreitar ligações e parcerias, sempre imbuídos de um espírito de missão de serviço público em prol da evolução e da criação de valor em saúde.

Quais podem ser as vantagens da criação do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve, tendo em conta a sua experiência a gerir um consórcio semelhante em Lisboa?
Podem ser inúmeras, conforme já referi em algumas partes desta nossa conversa, mas devo destacar as que mais ressaltam à primeira vista: a oferta de formação pré e pós-graduada na área da saúde, que pode ajudar a colmatar o grande problema de fixação de especialistas no Algarve, a projeção da região para a captação de investigação na área da saúde, que pode diferenciar a oferta regional, e a inovação na administração e gestão, com claros ganhos de saúde e eficientes resultados de sustentabilidade. Por outro lado, é sabido que a cadeia de valor da saúde ainda tem muito potencial na área de internacionalização e, sobretudo, no caso do Algarve, no desenvolvimento de clusters de turismo em saúde. O Algarve tem um enorme potencial para poder desenvolver estas áreas estratégicas, contribuindo para a nossa projeção enquanto marca de turismo, associada à qualidade de serviços de saúde prestados. E, ao contrário de outras opiniões, não acredito que o turismo de saúde é um exclusivo do setor privado ou social, existindo claras oportunidades de afirmação da marca SNS e de novas fontes de financiamento, em áreas marginais de elevada diferenciação e complexidade só existente no setor público. Eis outra possibilidade de atratividade e competitividade do SNS algarvio…

Investir neste consórcio, na formação e na investigação a nível da medicina, pode ser, na sua opinião, uma forma de atrair investimentos e financiamentos?
Claro que sim. Esse caminho ficou, na minha opinião, muito mais fácil a partir de agora. A existência do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve pode também ser uma janela de oportunidade para candidaturas conjuntas a financiamentos internacionais, o que será muito difícil se não houver escala do ponto de vista da população-alvo, se não existir uma clara diferenciação competitiva e se não existir atratividade de outras reputadas marcas da investigação, do ensino e da saúde. Ao longo do último ano, entre outros exemplos que poderia dar, trabalhamos, usando a plataforma do CAML, num projeto inovador de medicina de precisão, que se pretende de referência internacional, agregando marcas de elevada reputação como o CHLN, o CHLC, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, o Instituto Superior Técnico, o Instituto de Medicina Molecular, o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Estamos a falar de uma candidatura que envolve algumas dezenas de milhões de euros de financiamento externo, mas sobretudo estamos a falar de um projeto que engloba as patologias mais sensíveis do ponto de vista da investigação e do tratamento, procurando-se antecipar soluções inovadoras e investimentos sustentados. E vamos atrair investimento externo e quadros muito qualificados para os centros e projetos que este dossier conjunto integra. Eis algo que poderá ser desenvolvido pelas instituições que constituem o Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve, com o apoio e participação de outras entidades da saúde, da investigação e do ensino. Nós, CHLN e CAML, estaremos disponíveis, conforme já transmiti aos responsáveis deste consórcio, para colaborar e partilhar experiências nesta fase inicial, o que poderá levar ao aprofundamento de projetos comuns aos dois Centros Académicos, ao serviço da Medicina, da região e do país.

É essencial a população residente ter boas condições de acesso à saúde. A verdade é que o Algarve também é uma região turística por excelência. Na sua opinião, estas medidas que o governo está agora a estudar e prestes a implementar são também fundamentais para motor da economia regional, o turismo?
As medidas que estão anunciadas visam continuar a apostar na melhoria das condições do SNS na região, por forma a dar mais acesso e melhor qualidade na prestação de cuidados de saúde aos algarvios, sem prejuízo de mudanças próprias decorrentes das avaliações políticas da tutela da Saúde, do Programa de Governo e do Orçamentos de Estado. Desde 1993, aquando das minhas primeiras funções no sector da Saúde (ARS do Algarve), que afirmo que temos uma particular responsabilidade para a competitividade turística do Algarve e também para a captação de investimento, sobretudo na área do turismo residencial. Basta recordar situações que aconteceram num passado não tão distante quanto isso e o que significaram em termos de imagem e de fluxos turísticos ou de saída de residentes estrangeiros, por falta de confiança nos serviços de saúde regionais… De facto, se tivermos uma oferta de serviços de saúde de qualidade, diversificada e contínua, a mesma estará, não só ao serviço dos residentes, como da promoção da região, enquanto destino de excelência, também pelos equipamentos e capacidade de resposta na área da saúde. É importante ressalvar que muito foi feito nas últimas décadas também na região, existindo, nos dias de hoje, serviços públicos, privados e sociais que nada devem a outros em outras regiões do país. No entanto, é importante reconhecer a importância da reorganização do modelo regional do SNS e reforçar os seus recursos humanos, rejuvenescendo os quadros e aumentando a sua diferenciação técnica e científica. Temos que olhar as dificuldades como oportunidades e ter a capacidade de destacar a incontornável qualidade e excelência do nosso ensino e da nossa formação, dos nossos recursos humanos, da nossa investigação e tecnologia, das nossas instalações e equipamentos, da nossa indústria e dos nossos serviços.

Acredita que o Algarve pode ser competitivo no turismo médico ou de saúde e contribuir para a internacionalização da cadeia de valor da saúde? Quando não temos resposta aos residentes, como podemos pensar em ofertas externas?
O Algarve já é competitivo, em termos de turismo médico ou de saúde, mas infelizmente só no sector privado, sem uma oferta articulada com o sector do turismo e sem produtos integrados, isto é, sem respostas da rede pública, privada e social. Temos agora, com o reforço das parcerias celebradas entre hospitais e ARS, e com o consórcio entre a UAlg e o CHA, que começar a trabalhar com serenidade e ambição com outros intervenientes regionais, desde a AMAL à Região de Turismo do Algarve, passando pelas associações empresariais e agências de promoção. Eis outro grande desafio para a próxima década, que acredito será assumido em breve e construído com sucesso, como em outras partes do país e em várias zonas do mundo. O Algarve tem tantas ou mais capacidades, além da localização geográfica e condições climatéricas, que outros destinos de turismo médico e de saúde, situações que conheço, que estudei com detalhe e que continuo a acompanhar. E se inserirmos este produto num desafio mais abrangente, o da internacionalização, então temos que apostar no embrião que anteriormente falei, o Centro de Referência atribuído na sexta-feira ao CHAlgarve, e começarmos a trabalhar no desenvolvimento de reais condições para termos mais centros de excelência diferenciadores, organizados como polos de atração internos e competitivos em termos externos e através de dois tipos de posicionamento: enquanto destino de excelência para o tratamento de determinadas patologias, através dos seus centros de referência e implicando o estabelecimento de um conjunto de parcerias, protocolos e acordos aliado ao desenvolvimento de articulações integradas entre polos empresariais, instituições de ensino e centros de investigação. E enquanto destino de serviços genérico para o exterior, com particular enfoque na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CLPL), aproveitando as oportunidades estratégias que daí resultam. Ou seja, basicamente ao olharmos para o Algarve e para a sua potencialidade turística é natural diversificarmos esse pensamento estratégico na área da saúde para o desenvolvimento de um modelo sustentado de turismo de saúde, em que podem ser desenvolvidos o turismo médico, complementado por serviços associados ao bem-estar e ao termalismo, não descurando igualmente, o turismo sénior. Está na altura de nos libertarmos desta ideia pré-concebida do já tradicional binómio «sol e praia», do repetitivo lamento sobre a sazonalidade e apostarmos, com inovação e ambição, com renovação dos intervenientes e das estratégias, nos fabulosos recursos naturais que dispomos na região, associados ao desenvolvimento do nosso capital humano, cuja qualidade se deve em muito à nossa Universidade do Algarve. Este é, efetivamente, um caminho que tem que ser feito de forma integrada e sustentada, visando resolver, primeiramente, os problemas nos serviços de saúde algarvios e, posteriormente, potenciar a futura captação de profissionais com vista a garantir a qualidade e a eficácia dos cuidados de saúde para residentes e visitantes. E pode o Algarve, almejar esta situação? Permita-me que recorde uma resposta, em outro contexto, de alguém que admiro como homem, como político e sobretudo como líder: Yes we can!

Nota Biográfica: Carlos Neves Martins, natural de Portimão, é licenciado em Relações Internacionais no Ramo Económico e Políticas pela Universidade do Minho. Iniciou a sua vida profissional em 1985 como responsável pela implementação dos Serviços Sociais do então Instituto Politécnico de Faro, tendo-se seguido vários cargos a nível regional, nacional e internacional. Além de presidente da Região de Saúde do Algarve, membro do Conselho Regional de Turismo do Algarve (1994/96), e coordenador do Gabinete de Relações Externas da UALg (1996/99), foi ainda secretário de Estado da Saúde e secretário de Estado Adjunto do Ministro do Turismo, nos XV e XVI Governos Constitucionais. Em 2005 regressou ao seu lugar de Assessor do Quadro na Universidade do Algarve, pedindo no mesmo ano uma licença sem vencimento para poder exercer funções no sector empresarial privado e iniciar atividade de prestação de serviços de consultoria internacional.

De 2005 a 2012 desempenhou funções de administração em holdings e de gestão em empresas nas áreas da Hotelaria e Turismo, Golfe e Imobiliária, Saúde e Bem-estar, Energia e Ambiente, Indústria e Comércio, Comunicação e Eventos, Cooperação e Internacionalização. Desde 2013 preside o Conselho de Administração do CHLN, e foi assessor do ministro da Saúde para as áreas das Relações Internacionais e Cooperação e em Projectos Estratégicos Interministeriais, de maio de 2012 até à nomeação para as presentes funções. Desde março de 2013 é também presidente do Centro Académico de Medicina de Lisboa.

Em 2000 recebeu um Louvor do Magnífico Reitor da Universidade do Algarve publicado no Diário da República, em 2003 ganhou o Galardão de «Reconhecimento e Mérito pelo Desenvolvimento e Promoção do Algarve», em 2008 recebeu a «Medalha de Mérito Municipal de Portimão — Grau Ouro» e em 2009 foi agraciado publicamente pelo Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil «Pela sua relevante atuação económica e contribuição na promoção da amizade e dos negócios internacionais na língua portuguesa».