Presépio algarvio, um património a não esquecer

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O padre e investigador José da Cunha Duarte tem 75 anos e é natural de Penafiel. É o pároco de São Brás de Alportel e Santa Catarina da Fonte do Bispo. Desde que veio para o Algarve há 34 anos que se interessa pelos costumes e pelas tradições populares. É autor de um intenso trabalho etnográfico de recolha, arquivo e divulgação cultural, relativo à identidade e património da população algarvia. As comunidades do interior algarvio têm merecido uma atenção especial.

O primeiro contacto com o presépio tradicional algarvio foi em 1981 quando chegou ao Algarve. «Comecei a celebrar missas na serra algarvia e como não existiam capelas, celebrávamos ou na rua debaixo de uma árvore no verão, ou dentro de uma casinha qualquer. Aí comecei a aperceber-me que existam vários meninos Jesus pequeninos que as pessoas montavam em casa, na sala de entrada. Faziam uma escadaria com gavetas, e punham pequenas searas de trigo verde e laranjas. Era o presépio tradicional, de origem medieval mas estava totalmente abandonado. Havia também pessoas de idade, que antes de morrer, traziam-me as suas imagens porque pensavam que a família as iriam destruir. Algumas foram mesmo encontradas junto a caixotes do lixo. Achei que era um grande património, por isso, eu próprio comecei a fazer a recolha. Corri toda a serra algarvia».

O padre Duarte refere que em Santa Catarina Fonte do Bispo, existe «talvez o maior centro de artesãos que fazem estas figuras. A minha coleção [quase uma centena] é praticamente toda» originária desta freguesia do interior do concelho de Tavira.

Na sua opinião, São Brás de Alportel é «o concelho que mais divulga e tem contribuído para a preservação» do presépio tradicional algarvio. Para os curiosos, um presépio algarvio típico da época medieval, está atualmente disponível para visualização na Igreja Matriz desta vila, ou em qualquer uma das seis capelas do concelho.

Futuro do Presépio algarvio está nas mãos dos municípios

«Não há qualquer valorização deste património», lamenta. Refira-se que padre Duarte é autor do livro «Natal no Algarve: Raízes Medievais», uma extensa e complexa compilação das tradições natalícias na região. É também o fundador do Museu do Trajo, em São Brás de Alportel. Só uma atitude mais proativa, por parte dos responsáveis municipais é que poderá garantir que esta tradição não caia de novo no esquecimento.

Faça o seu próprio Presépio algarvio

«No século XIX, nove dias antes do Natal, preparava-se a casa para armar o presépio. Era varrida e lavada. No chão à frente da cómoda, ficava uma esteira de empreita».

Em cima da qual se compunha um pequeno trono em escadaria, também conhecido por altarinho, escadaria, penha ou charola. Regra geral, era feito com recurso às gavetas dos móveis da casa. O presépio mais comum era formado por três degraus e coberto por um lençol, ou por toalhas de linho. «Construído o trono, começava-se ornar o Menino com as searinhas, de trigo, cevada, milho, centeio ou alpista, germinadas dentro de chávenas ou pires».

Ainda hoje, devem ser cultivadas a dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, em pratinhos rasos, e mantidas até ao dia de Reis, altura em que são transplantadas para a terra, reforçando os votos de boas colheitas para o novo ano. As searas simbolizam vida nova nas terras. Eram colocadas no presépio para o menino «as abençoar».

Depois das festas eram colocadas no campo, para crescerem uma vez que estavam abençoadas». Na zona marítima de Olhão, nas primeiras décadas do século XX, as pequenas searas germinavam dentro das latas de conserva de sardinha» ainda hoje há quem as faça nas vulgares latas de atum. Uma outra característica peculiar é ornamentar o trono com laranjas.

«Antigamente, a laranja era uma fortuna, um sinal de distinção. Aqui no Algarve, em 1900, a maior honra que as pessoas tinham era quando o padre ou o médico visitava a casa, e lhes dava uma laranja. Era uma prenda rica», explica.