Plutão de Verão ou o nascer de uma nova geração cultural

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Nove jovens com ideias de criar e promover cinema, teatro, música, ou qualquer forma de arte formaram um novo coletivo multidisciplinar em Faro. Na mira está a capacitação e formação das novas gerações na região, ou no país.

«Assumimo-nos como uns extraterrestres que vão experimentar coisas para ver se resultam. Queremos criar sinergias onde elas ainda não existam. Queremos experimentar,
perceber quem ainda não trabalhou com quem, onde é que ainda não trabalharam, o que é que ainda não se fez, e colocar coisas estranhas a acontecer em sítios estranhos». É
assim que Diogo Simão, 27 anos, presidente da recém-nascida Plutão de Verão, descreve ao barlavento esta nova associação cultural, que surge na capital, pela mão de nove jovens unidos entre si pela experiência nas áreas do cinema, teatro, música, fotografia, dança e artes plásticas.

Apesar de terem formalizado o coletivo apenas no final de 2019, a ideia germinou em 2014, durante o curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Algarve (UAlg). Desde então, o grupo procura explorar e mostrar o seu potencial criativo. Exemplo disso é a curta-metragem «Trindade», a primeira a ser produzida por estudantes da academia algarvia e a ser exibida no Festival de Cannes, em França.

«Começámos a trabalhar no âmbito de uma das unidades curriculares do curso. Esta equipa formou-se aí e sentimos que a universidade não estava a par do que os alunos estavam a fazer. Não havia ligação. Então, quisemos começar a criar por nós próprios», explica a vice-presidente, Ana Beatriz Lopes, 26 anos. Simão acrescenta: «sim, isso fomentou um sentido crítico. Quisemos tentar encontrar soluções porque não queremos ser parte do problema, mas da solução. Tal guiou um pouco o nosso caminho e para onde nos queremos dirigir. Sentimos que haviam lacunas para colmatar. Ao longo de cinco/seis anos fizemos curtas-metragens, peças de teatro, muita coisa. Mas chegou a altura em que precisávamos de ter uma estrutura formal para podermos evoluir, candidatar-nos a apoios e fazer parcerias».

Surgiu assim a Plutão de Verão, «para podermos profissionalizar um pouco mais o nosso trabalho», explica o responsável. Resumindo: «numa terra de verão eterno há um grupo de aliens que produz, trabalha em conjunto e cria histórias para contá-las de formas diferentes em sítios diferentes, e construir um futuro em que não estejamos de costas voltadas», refere Diogo Simão.

Estreia em Milreu

Com essa linha de pensamento, surge o espetáculo oficial de estreia, «Retrospetivas de um Faro Futuro», que levantou o véu ao público sobre o que poderá esperar deste coletivo. Realizou-se no dia 4 de setembro, nas Ruínas de Milreu, em Estoi, um concerto de hip-hop do músico Nuno Esmael, mais conhecido por «Kabula», com leitura de lendas e mitos urbanos algarvios. O evento juntou, pela primeira vez, todos os coletivos artísticos de Faro relacionados com o teatro.

«Mostrou muitas das coisas que queremos: perpetuar memórias, trazê-las para uma nova geração, dar-lhes uma nova roupagem e, mais importante, trabalhar em conjunto com outras estruturas. Foi um espetáculo que marcou um início», conta o presidente. E não poderia ter sido um início mais positivo, uma vez que os bilhetes esgotaram em apenas dois dia.

«Sara Sara» vai expor feridas

A próxima iniciativa é a peça de teatro «Sara Sara», que estará em cena de 16 a 18 de setembro na BLACK BOSS do LAMA Teatro, às 21h30, em Faro, com a produção a cargo da Plutão de Verão. O texto e a encenação são de Diogo Simão e há apenas dois atores em palco: Sara Afonso, a protagonista, e «Kabula», que é também o produtor musical.

«Fala sobre uma geração, ou várias, e aborda feridas que são causadas por memórias conjuntas e coletivas ou experiências que temos em comum e que provocam cicatrizes de maneiras diferentes. Por exemplo, a pandemia. Todos irão lembrar-se, mas cada um viveu–a à sua forma. Foi uma experiência coletiva, mas também pessoal. Aqui, encontrámos feridas comuns, esmiuçamo-las ao máximo e colocámos no texto», descreve Diogo Simão, neste caso encenador, afirmando ainda que não será uma peça fácil.

«Não por ser experimental ou porque tem coisas estranhas. É difícil porque é mesmo muito verdadeira. Não tivemos medo de expor os nossos demónios. Ao fazê-lo, encontrámos similaridades com outras pessoas que possivelmente não falam sobre isso. Como o próprio nome diz, é Sara, em palco, para sarar as feridas».

Para quem estiver interessado em assistir, os bilhetes ainda estão disponíveis e podem ser reservados através de email com um custo de seis euros. Devido à conjuntura atual motivada pela pandemia da COVID-19, vigora uma limitação de 40 lugares por sessão.

A boa notícia é que, segundo o presidente da Plutão de Verão, há convites para que o espetáculo circule em outros palcos do país, mas só em 2022.

Educação como pilar fundamental

Outra das prioridades da associação é a formação e a capacitação das novas gerações para a arte e cultura. Uma área na qual Diogo Simão já tem alguma experiência.

«Já o fazemos e queremos continuar a fazer enquanto Plutão de Verão. No final do último ano letivo dei aulas de cinema no âmbito do Plano Nacional de Artes, a convite da JuvAlbuhera – Associação Juvenil de Albufeira. Falei sobre a minha experiência e mostrei aos miúdos como é que podiam pensar o cinema de outra forma. Dei-lhes uma perspetiva para que quando vissem um filme, conseguissem ver com outros olhos».

Uma experiência para repetir no ano letivo que está prestes a começar. «Queremos muito continuar a fazê-lo. Estamos em diálogo com a Escola Superior de Educação e Comunicação (ESEC) e com o Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) da UAlg, de forma a podermos partilhar o nosso conhecimento empírico e não só o teórico. Queremos mostrar e partilhar experiências que tivemos para sermos uma mais-valia. Queremos que nos usem consoante os problemas que já tivemos, para que não sejam repetidos. Queremos criar em conjunto para que não tenham uma experiência monocórdica, com cheiro a bafio. Queremos mesmo melhorar o local onde estamos porque com isso as nossas condições de trabalho também vão melhorar. Não há melhor maneira de o fazer se não pela educação», assegura Diogo Simão.

A juntar a isto, no último ano, Ana Beatriz Lopes tem-se focado nas parcerias internacionais e «a criar conexões com outras associações fora de Portugal, neste caso com Itália e Espanha, porque a ideia é criar ligações para o futuro».

Pandemia motivou Festival de Cinema online

A associação cultural Plutão de Verão oficializou-se no final de 2019, mas com o surgimento da pandemia da COVID-19, a vontade de realizar os primeiros eventos teve de ser reajustada. Foi assim que o coletivo de nove jovens criou o Young South Film Festival, um festival de cinema no Instagram para o público mais jovem, que trouxe até ao grupo parcerias internacionais. Foram realizadas duas edições em 2020, ambas durante duas semanas. A primeira focou-se em curtas-metragens de realizadores portugueses com conversas em direto com os mesmos. A segunda teve curadoria do artista e ator luso-guineense Welket Bunguê e mostrou trabalhos de realizadores e realizadoras afro-descendentes.

«Sentimos que havia uma lacuna e quisemos dar-lhes essa visibilidade, através de um artista internacional que já participou em produções de Hollywood. A adesão foi muito boa e fomos noticiados em três continentes», diz Diogo Simão, presidente da associação.

Após o evento online, já decorreram alguns trabalhos presenciais do festival, um com o Cineclube de Faro, outro com o Teatro Estúdio Fontenova, de Setúbal, e um no CAE – Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.

«Estamos em conversas com o município de Loulé para ver se podemos estendê-lo a um formato mais físico porque temos essa vontade e queremos trabalhar com o público mais jovem, incentivá-lo e motivá-lo porque sabemos que é possível», assegura o responsável.