Peças únicas e materiais pioneiros vão levar o Algarve a novos destinos

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Artesãos, chefs de cozinha e designers juntaram-se em residência na aldeia da Tôr, desafiados pelo projeto Algarve Craft & Food. Objetivo foi unir a gastronomia ao artesanato e valorizar a identidade regional. O resultado contribuirá para internacionalizar as indústrias culturais e criativas do Algarve.

O sossego do barrocal, o casario branco e as ruas estreitas da Tôr, no coração do concelho de Loulé, foi o ambiente onde, durante 15 dias, um grupo de criativos se reuniu com uma missão desafiante: criar um conjunto de 10 protótipos de peças inspiradas nas tradições alimentares algarvias. Mas não só. Devem ter um lado prático, moderno, inovador e atrativo para que, no final do processo de desenvolvimento possam ser comercializadas e utilizadas na restauração, de forma a potenciar o Algarve enquanto destino de turismo criativo.

O processo começou no dia 27 de abril, com uma troca de ideias inicial na Junta de Freguesia local, entre os participantes. O mapa do Algarve foi afixado na parede como referência para a partilha de memórias individuais, impressões sobre o receituário tradicional algarvio, entre outros apontamentos para estimular a criatividade.

A residência juntou chefs de cozinha (Rita Malvar de catering e Xana Caetano da Tertúlia Algarvia), artesãos (André Silva Sancho e Bernadette Martins, ambos makers de cerâmica; Bruno Matos, que trabalha a pedra de grés de Silves; Bruno Martins, da Two Dogs e Nuno Palma da Oficina de Caldeireiros), e ainda os designers Alexandra Gonçalves e Hugo da Silva.

A iniciativa faz parte do Algarve Craft & Food, um projeto anunciado em fevereiro de 2020, dinamizado pela QRER – Cooperativa para o Desenvolvimento dos Territórios de Baixa Densidade.

Hugo da Silva, porta-voz do grupo, explicou que «o papel dos chefs foi o de informar sobre as suas necessidades, o que precisam e o que lhes pode ser útil. Os designers focaram-se sobretudo na parte estética, na imagem apelativa e na utilidade dos protótipos. No final, os artesãos puseram as ideias em prática. E claro que cada um trouxe o seu conhecimento técnico».

Os esboços começaram a surgir numa parede do espaço de trabalho, com desenhos em forma de ícones, que representavam os objetos finais a desenvolver.

Madeira, grés, cerâmica e cobre foram os materiais a explorar para «criar peças que comunicam diretamente com os alimentos e os pratos tradicionais algarvios. Ao mesmo tempo, o objetivo foi dar-lhes uma nova abordagem e a possibilidade de permitirem uma apresentação diferenciada à mesa», afirma o designer.

A ideia é que as novas peças possam, por si, «chamar a atenção quer para os pratos, quer para os ingredientes da serra e do mar, de distintos sabores», aponta o designer. O casar de todas os conceitos deu origem a 18 objetos, todos eles concebidos de forma artesanal. Mais tarde, o grupo terá de cingir-se a uma dezena de peças e os protótipos devem estar concluídos, de preferência, até ao final de julho.

Do medronho às sobremesas

Questionada sobre quais as necessidades sentidas pelos chefs, ou que artigos poderão fazer a diferença nos restaurantes algarvios, Xana Caetano responde que «são diversas, consoante os pratos que confecionamos. Além disso, todos os chefs querem ter algo que os distinga e há muitas peças que podem contribuir para isso». No entanto, também há dificuldades a considerar quando se cria algo novo. «A resistência dos materiais, o peso e a capacidade de aguentarem um uso intensivo» numa cozinha profissional.

O primeiro elemento que salta à vista no mostruário é um jarro em cerâmica de grés, de cor branca, com alguns pormenores a azul, desenvolvido por Bernadette Martins. No interior, realçam uma espécie de amígdalas. Pode parecer invulgar, mas têm uma função. «Isto permite servir uma bebida com fruta ou infusão com gelo, sem que caiam para o copo», explica.

O mesmo material serviu para se experimentarem amostras de copos de medronho, de vários formatos e tamanhos, mas com uma textura inspirada nas rochas do barrocal, também desenvolvidos pela artesã. «Antigamente eram até considerados dedais por serem realmente muito pequenos e quisemos fazer várias experiências», esclareceu Hugo da Silva.

De madeira bem clara, destaca-se uma colher de madeira que inclui também uma espátula. «Tem essa particularidade para se poder arrastar a comida, num tacho, e poder ir aos cantos. Em simultâneo, uma colher para levar mais quantidade. É uma junção de colher com espátula de madeira, inspirada na típica colher de pau», segundo o designer. Há também colheres, mas em grés, para serem usadas em saladas.

Ainda de acordo com Hugo da Silva, «os chefs disseram-nos que usavam sempre bases para servir, mas que sentiam a necessidade de ter outras opções seja para bufets, caterings ou sobremesas». Foi, assim, criado à volta do conceito de uma árvore, uma peça pensada para sobremesas de figo e amêndoa, em que cada ramo dispõe um doce. Dentro do mesmo conceito, surge uma segunda base de servir, esta inspirada no grés e na rocha, com um aspeto mais natural, que leva ainda um prato de cobre.

De cobre também, nasceu um fogareiro para assar chouriça, por exemplo, com uma textura trabalhada e batida, com a particularidade de ser de limpeza fácil, uma vez que os ferros podem ser retirados.

E um dos favoritos, pelo menos da chef Xana Caetano é a réplica de uma cataplana, criada num formato mais pequeno, para doses individuais, com uma base de cerâmica que, de acordo com a mesma, «abre outras hipóteses de empratamento mais versátil e desconstrói a imagem da cataplana» tradicional. O designer explica o conceito por trás do artigo: «a refeição pode ser servida no prato e o elemento em cobre é a tampa. Não é um objeto que sirva para cozinhar, mas sim para servir à mesa».

Também na lista dos preferidos da chef da Tertúlia Algarvia, está um artigo desenvolvido por André Silva Sancho, uma tagine de cerâmica, com uma tampa em formato de rabo de peixe.

«É um cruzamento que vem da nossa herança islâmica e daquilo que era o Algarve na altura dos mouros. A tagine é uma peça referente à tradição gastronómica muçulmana e resolvi dar-lhe um twist muito mais algarvio com a questão do peixe e a linguagem do mar, que é imperativa no litoral. Apesar de o peixe ter muitas texturas na zona das escamas, são mínimas e a peça final vai levar vidro transparente por cima, o que lhe dará suavidade. Com o vidro, as texturas vão ser visíveis, mas a nível de lavagem vai ter o mínimo de detalhes e de riscos possíveis. Além disso, todos os elementos vão ser produzidos em cerâmica de alta temperatura, resistente à máquina de lavar, ao forno e a um uso intensivo», justificou o artesão ao barlavento.

Ainda no mesmo mostruário, Hugo da Silva realça um pequeno prato em cobre, que poderá ser replicado também em cerâmica, com um centro côncavo. «O sal, neste prato, acaba por ficar nos rebordos, o que torna mais fácil apanhar a quantidade que se pretende. Também pode ser utilizado para, por exemplo, conquilhas», em que o molho, ao cingir-se aos cantos, torna a tarefa de molhar o pão mais simples.

Nasce uma pasta pioneira e sustentável

Também a pensar na restauração, surge um pequeno prato, em tons de rosa suave, criado com o objetivo de servir o courvert ou pequenas entradas. Foi desenvolvido em parceria pela designer Alexandra Gonçalves e a artesã Bernadette Martins, através de um material único, criado pela primeira vez, pelas mãos de André Silva Sancho.

«É uma peça inspirada na Ria Formosa na qual podem servir-se azeitonas, cenouras à algarvia, entre outros pequenos petiscos antes da refeição principal. A ideia surgiu nas nossas conversas e quisemos fugir ao barro tradicional que lasca muito» e acaba por ter uma vida efémera em contexto profissional, explicou Hugo da Silva.

Daí que surgiu uma nova solução que, além de não existir no mercado, é sustentável. Trata-se de uma pasta feita a partir do pó de grés da pedreira de Vale Fuzeiros misturada com pasta de cerâmica.

«Aproveitei o desperdício de pó, um material aparentemente inerte, que aqui é utilizado como um corante na cerâmica, o que acaba por lhe dar propriedades muito específicas ao toque e ao aspeto. Criei esta pasta utilitária e é a primeira vez que este material foi feito. Faz parte do meu cunho como designer, a experimentação e a junção de materiais que, à partida, não seriam utilizados em conjunto», apontou Sancho.

O caminho foi simples: «olhei à composição química do grés, que é rico em feldspato e em quartzo, elementos que estão presentes em muitas pastas cerâmicas. Por exemplo, a cerâmica é feita 50 por cento caulim [um minério composto de silicatos hidratados de alumínio], 25 por cento feldspato e 25 por cento de quartzo. Para quem trabalha com cerâmica no dia a dia, é uma ligação quase óbvia».

Ainda assim, e apesar de se tratar de um material que não é simples de desenvolver, o designer e artesão tenciona recriar esta pasta para trabalhos futuros.

«Utilizar a porcelana como material ligado ao pó de grés é difícil porque é uma pasta ingrata. Agora, gostaria de levar isto a outro nível e conseguir criar uma pasta 100 por cento portuguesa. A porcelana não aparece em Portugal, é importada, e conseguir arranjar outro tipo de materiais em território nacional é o meu objetivo agora», assegurou.

Coleção para o mercado internacional

Um dos aspetos que tornam esta iniciativa do projeto Algarve Craft & Food ainda mais única é o facto de, todas as 10 peças finais estarem ligadas entre si e formarem uma coleção.

«Exato. Essa é a ideia. Foi assim que trabalhámos e decidimos as cores e os materiais. Todos os objetos comunicam entre si e criam uma boa coerência. Foi decidido pelo grupo e esta junção resulta em elementos orgânicos, acabamentos neutros e texturas e cores bem algarvias, da areia, do céu e do mar», afirmou o Hugo da Silva, para quem as expetativas pessoais foram superadas.

«Não há aqui produtos completamente diferentes uns dos outros, eles integram-se muito bem porque fomos beber às mesmas fontes e acabámos por falar uma linguagem comum. Isso é um dos pontos mais interessantes» deste projeto.

Também a chef Xana Caetano conta que «foi uma experiência bastante positiva e fiquei muito surpreendida. Não fazia ideia que nos íamos deparar com tantas peças» em tão pouco tempo. «Espero que possamos incluir a coleção na Tertúlia Algarvia, até porque precisamos e estamos a contar com isso», disse.

Por sua vez, o designer André Silva Sancho enalteceu que o mais importante é inovar, como forma de destacar o Algarve entre pares.

«O meu processo criativo passa por criar novas estéticas e novos produtos. E manter sempre um lado patriota. Decidi apostar nesta reinvenção da tradição porque é preciso dar passos em frente e não viver apenas com aquilo que os nossos antepassados criaram. É preciso dar continuidade à inovação, criar novas soluções e mostrar que o Algarve vai muito além do turismo».

E como o mote de todo o projeto passa por estimular o desenvolvimento e a internacionalização das indústrias culturais e criativas, baseadas no artesanato e nos produtos alimentares locais do Algarve, os próximos passos também já estão delineados, revelou Carla Barreto, gestora de projetos da QRER.

«O Hugo da Silva irá continuar a acompanhar este processo até termos produtos prontos para a comercialização. Há ainda outra componente que está a decorrer, os workshops, que tanto a Tertúlia Algarvia como a QRER estão a organizar, para formar artesãos que vão também criar experiências turísticas únicas e ligar os artesãos à gastronomia local», sublinhou.

Como se trata de um projeto apoiado pelo Programa Operacional CRESC Algarve 2020, fruto de um sistema de incentivos, o objetivo final é mesmo a internacionalização das peças e dos artesãos que as criaram e desenvolveram. Por isso, estas duas componentes darão resultado a dois catálogos, um sobre os artesãos e os produtos e outro para as experiências turísticas associadas.

«A ideia inicial era levar ambas as publicações aos Estados Unidos da América», embora na verdade, poderão ser exibidas em qualquer mercado emissor.

O Algarve Craft&Food é um projeto que junta a Região de Turismo do Algarve (RTA), a Tertúlia Algarvia e a QRER – Cooperativa para o Desenvolvimento dos Territórios de Baixa Densidade, contando ainda com o apoio da Câmara Municipal de Loulé, da Câmara Municipal de Albufeira e da Câmara Municipal de Silves, apoio este enquadrado no aspirante Geoparque Algarvensis.

André Silva Sancho: «o artesanal deve ter como referência o industrial»

André Silva Sancho, um dos designers e artesãos que participou na residência criativa do projeto Algarve Craft & Food, na Tôr, licenciou-se em Design de Produto Aplicado à Cerâmica e Vidro na Escola Superior de Artes e Design do Instituto Politécnico de Leiria. Em 15 dias conseguiu criar um material único e sustentável, além de outros objetos como uma tagine com o formato de um rabo de peixe.

Na sua opinião, «tudo aquilo que é feito de forma artesanal, ainda que possa ser utilizado no universo doméstico, deve ser pensado para um uso intensivo. Quem vai a um estúdio de cerâmica, por exemplo, vai sempre com a referência daquilo que é industrial. As grandes marcas lutam para que as louças tenham a maior resistência possível. Esse passa a ser o nosso standard» num mercado muito competitivo.

De acordo com o designer, «não podemos desenvolver peças mais fracas» do que aquilo que se produz em massa. «O cliente não quer comprar algo frágil e caro, quando pode pagar menos e ter uma peça resistente. Só faz sentido trabalharmos de uma forma acima do par. Caso contrário acabamos por cair, mais uma vez, naquilo que é considerado o artesanato: uma coisa barata, de baixa qualidade, que é gira, que se oferece como lembrança, mas que é só isso».

Fugir a este preconceito foi um dos objetivos que defendeu durante a residência. «Aqui seguimos a valorização. Luto muito para criar peças de valor acrescentado, com a qualidade aos níveis daquilo que se espera no mercado, peças resistentes e versáteis, com que o cliente não tenha de pensar se pode ir à máquina de lavar louça, ao forno, ou ao micro-ondas», concluiu.

Criatividade será reconhecida

Segundo Carla Barreto, gestora de projetos da QRER, os produtos desenvolvidos durante a residência criativa que decorreu na aldeia da Tôr, em Loulé, durante 15 dias, «vão ser avaliados pela qualidade de execução, ou seja, o domínio do saber fazer do artesão e pelo valor identitário, genuinidade e autenticidade da peça enquanto produto promocional do Algarve. Será também avaliada a componente de inovação, quer ao nível da funcionalidade, quer da criatividade. E também o potencial económico, ou seja, a adaptação ao mercado e a potencialidade comercial».

Está ainda previsto um prémio, no valor de 5.000 euros para o melhor trabalho, em que o júri será constituído pela RTA, Tertúlia do Algarve, QRER, Direção Regional de Cultura do Algarve, Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve e um representante da comunicação social.