Paulo Cabrita quer criar escolinha de magia em Lagoa

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Depois de um ano difícil, com poucos espetáculos ao vivo, Paulo Cabrita, não desiste da profissão e tem aproveitado o tempo a desenvolver novos truques e projetos. No pós-COVID, o mágico algarvio pondera criar uma escola em Lagoa. Para que a magia que sabe nunca se perca.

barlavento: Como é o dia de um mágico quando não tem espetáculos?
Paulo Cabrita: Quando o barco vai ao fundo, ou nadamos ou deixamo-nos afogar. Eu decidi nadar. Todo este confinamento tornou-me mais empreendedor. Tenho algumas coisas na manga. Até esta entrevista é um trabalho que tem o objetivo de me tirar dos bastidores e dizer às pessoas que ainda existo. Todos os dias trabalho na atualização de guarda-roupas, ilusões, mecanismos, protótipos, sempre a pensar em novas ideias. Estou a preparar um espetáculo há mais de 20 anos, e ainda não está completo. Ainda não está no ponto que desejo. Encontrar especialistas em determinadas áreas, que possam tornar real esse produto final, tem sido uma tarefa muito difícil, um grande desafio, mesmo. Levei muitas noites acordado para falar com colegas da Nova Zelândia, China, Japão, Alemanha, Ucrânia ou de outros países. Tenho um amigo no Bangladeche que é um especialista em origami que tem colaborado comigo e há toda uma série de pesquisa de conhecimentos. Posso levar três, quatro, cinco meses, ou anos a fazer uma série de modificações até atingir a perfeição.

É isso que admira num profissional?
Exatamente, porque o mágico é um ator. Nós utilizamos o termo mágico porque é uma palavra mais forte que ilusionista. Um ilusionista é uma personagem que desempenha o papel de mágico. Há colegas meus, profissionais, que dizem que o público não repara em certos detalhes, mas é nos detalhes que reside o sucesso. Quando sou iludido, ao ver trabalhos de colegas meus, não me preocupo como aquilo é feito. Quando eles me conseguem envolver naquele ambiente que é o trabalho deles, deixo-me levar na atmosfera, esquecendo o que se esconde por detrás. Faz parte da minha natureza procurar como atingir a máxima perfeição, para que o público se deslumbre apenas pelo que presenciou. O meu objetivo é envolver as pessoas. Da mesma forma como quando vão ao cinema ou ao teatro. O objetivo do ator é convencer o público que visualizou uma possível realidade. Quantas pessoas choram no final de um filme? Eu não quero fazer chorar, embora, sem querer já o fiz. Procuro dar uma envolvência, uma atmosfera, para despertar emoções, sentimentos e sobretudo, a boa disposição.

Como é essa relação com os outros mágicos?
Trocamos ideias, trocamos conselhos, mas até entre nós temos segredos. Tenho aprendido com jovens com muito poucos anos de atividade, mas que têm uma excelente visão. Começaram de uma forma mais fácil do que quando eu iniciei. Estamos a falar de uma arte que não era muito acessível, era tudo muito fechado. Nesta fase estou a desenvolver projetos únicos a nível mundial, juntamente com um amigo criador e inventor.

Como é que um jovem de Lagoa escolhe esta profissão?
Já na escola fazia alguns efeitos. Fazia para amigos e quando comecei foi tudo muito difícil. Mas gostei desse sabor.

Alguma vez pensou em desistir?
Pensei em desistir porque chegou uma altura que pensei que havia pessoas que não me estavam a respeitar, os agentes não me estavam a valorizar. Alguns amigos disseram-me para desistir da profissão porque não me daria estabilidade. Os padrões da sociedade é ter um trabalho na função pública, certinho e direitinho. Quis ir além disso, respeitando quem tem esses trabalhos, claro. Quis e pretendi sair do formato e do padrão considerado normal pela sociedade. Consegui conquistar a minha sustentabilidade e já tenho quase 27 anos de carreira. Há muitos artistas que dizem que vivem da música ou outra arte, mas vivem na casa dos pais, ou na casa de alguém. Eu pago as minhas contas e sobrevivo com aquilo que faço, unicamente com os espetáculos. Todas as profissões que estejam fora dos padrões da sociedade, os empreendedores, aqueles que tentam pensar, são essas pessoas que levam isto para a frente. E nesta altura, temos que arranjar soluções para ultrapassar tudo isto de uma forma mais fácil.

Tem alguma especialidade?
O ilusionismo tem muitas áreas, como a cartomagia, grandes ilusões e magia de proximidade. Por exemplo, se eu puser uma guilhotina e disser para alguém lá pôr o dedo, o braço ou a cabeça, isso surpreende as pessoas pela negativa. Não gosto disso. Devo transmitir uma mensagem positiva, uma lufada de ar fresco. Há uma coisa muito curiosa. Quando há um mágico que faz um mau trabalho, isso implica todos. Quando há um músico que não toca bem, o diretor pede que se arranje outro com melhor reportório. Na magia é tudo colocado na mesma cartola. O espetáculo de magia é o espetáculo que mais investimento tem. Vou dar um exemplo, não desfazendo das outras áreas: um músico com uma guitarra pode tocar todas as músicas. Eu com um aparelho só faço dois ou três efeitos, no máximo. Se colocar umas luvas em cima de uma mesa e as luvas transformarem-se em pombas, estão ali três mil euros só para um efeito de um segundo, que me levou quase 20 anos a desenvolver. O mercado de aparelhos e efeitos de ilusionismo pede preços exorbitantes.

Mas as pessoas ainda gostam de ver isso?
Claro, o público adora e encanta-se! A magia não vive apenas do segredo, mas de uma série de fatores como o treino, dedicação e entrega total do artista.

Já tirou um coelho de uma cartola?
Da cartola, não. Mas de lenços, sim. Aliás, essa imagem não passa de um cliché, porque nunca vi ninguém tirar um coelho de uma cartola. Há muitos anos via araras, cheguei a ver um pato. Tive para comprar uma catatua, que custava mil e tal euros, e desisti. O bicho sofre, um apartamento não é o seu habitat natural. Eu consigo cativar todas as nacionalidades, todas as idades, crianças, adultos, através das emoções que são a linguagem universal. O ilusionismo é um idioma universal, não é um espetáculo para crianças. Muitos adultos dizem-me que pensavam que era só para crianças, mas que se divertiram porque é um espetáculo familiar.

Que truques têm mais sucesso?
Trabalho com pombas, cores, efeitos pirotécnicos, confettis e o público fica fascinado. Em breve irei fazer aparecer um automóvel. Noto que as pessoas gostam dessas grandes ilusões. Durante estes anos todos faço os efeitos e depois no mercado de trabalho vou pesquisando junto do público mais honesto, crianças e adultos, o que gostam mais. Acabo por fazer coisas que não aprecio muito, mas que é o que o público gosta.

Porque não aparece mais na televisão?
Talvez seja um tabu dizer isto, mas a televisão não paga absolutamente nada. O único programa de televisão que me pagou, foi o «Les Marseillais». É um reality show de França e líder de audiências. Mas a verdade é que até em Espanha me descobrem! Há uma coisa que não devo dizer, mas que não tenho complexos em afirmar e até já o disse publicamente. Sinto-me triste que pessoas que me conhecem desde pequeno não conheçam o meu trabalho. A minha atividade profissional tem sido mais para estrangeiros, que já me conhecem bem. Há dias liguei para Inglaterra para uma empresa desta área e quem atendeu conhecia-me do Clube da Praia da Rocha. Viu-me atuar lá. Isto é impensável! Por outro lado, se fizesse um espetáculo em Lisboa, como fiz aqui no Algarve para a família real da Arábia Saudita, conseguiria uma projeção a nível mundial. Mas o meu objetivo não tem sido muito esse, o de promover os grandes acontecimentos que faço.

Mas por outro lado tem sempre promovido Lagoa…
Sempre. Fui convidado há uns anos para ir ao aniversário da SIC onde, sem que soubessem, porque se soubessem cortavam o tempo de antena, ofereci um prato comemorativo da minha terra. Tenho muito orgulho nas minhas raízes. Tudo o que é possível fazer por Lagoa, farei e tenho feito sempre. Fui escolhido pelo fornecedor das máscara de proteção, um grande empresário de Lisboa, para ser o rosto de Lagoa, aceitei na condição de estar na linha da frente do catálogo.

Considera abrir uma escola de magia?
Sim, mas nunca para fazer aquilo que alguns já fizeram, que é cobrar 70 euros por cada lição. Nada disso. Seria algo com a marca do Paulo Cabrita e com o patrocínio de Lagoa, com a marca de Lagoa. Sou a favor de ensinar, como há uns anos que cheguei a fazer pequenos workshops misturados com espetáculos, para promover a arte. Claro, não vou ficar parado e acho que não tenho o direito de dizer que o município tem o dever ou que tem a obrigação de me dar de comer e de me sustentar. Talvez não sejam estas as palavras mais corretas, mas sou eu que tenho de arranjar novas soluções.

E eram procurados?
Sim, pelos pais sobretudo.

Tem algum aprendiz?
Não tenho. Mas aceitaria se visse que tinha muito gosto e espírito de sacrifício, o espírito de sacrifício que ainda hoje tenho porque nunca traço metas. Já viajei por muitos países, sempre à minha conta, com o meu suporte, sem apoios de ninguém. Fui muitas vezes para Kiev para me modernizar, onde há uma grande escola de circo e teatro. Senti que estava na famosa série «Fame». Na Alemanha, na Ucrânia, na Rússia, já é inserido às crianças, na própria escola, o ballet, as artes, o piano. Aqui não, aqui temos de pagar.

Existe algum truque secreto?
O truque secreto é a procura de conhecimento. Só gostaria de o ter adquirido mais cedo, mas ainda sou da geração que cresceu sem Internet.

Importa-se que lhe chamem «mágico»?
Não. Quando trabalho nos hotéis, ouço muitas vezes: – «olha, chegou o mágico!». Eu gosto, é a minha profissão. Fora disso, os amigos estão sempre a pedir: – «Paulo, faz lá aí um truque!» (risos).

Os seus espetáculos têm título?
Tenho sempre deixado que o espetáculo fale por ele próprio.

E quando as coisas correm mal no palco?
Podem correr. A maior parte das coisas que faço são improvisadas, não têm plano B. Se deixar cair um copo, as pessoas não vão saber se foi de propósito ou se foi sem querer. A minha tentativa é nunca demonstrar que falhei. Mas tenho sempre um plano B.

Já falhou alguma vez?
Catastroficamente, não. Uma vez, em Ferragudo, o palco era tão alto que dei um salto e o que tinha nas mãos caiu. Ninguém me ajudou a levantar porque todos pensavam que tinha sido de propósito.

A roupa é importante?
Muito importante. É a identidade de um artista. Mas deixei de me maquilhar há muitos anos, de contornar o olho. O espetáculo comemorativo dos meus 25 anos de carreira, no Auditório de Lagoa, demorei 75 minutos. Quando a pessoa se maquilha suja tudo, começa a transpirar. Não suporto. Prefiro atuar sem filtros.

Lagoa é um grande exemplo

Para o mágico Paulo Cabrita, o município de Lagoa é «um dos grandes exemplos que temos em Portugal. Enalteço e agradeço muito ao município de Lagoa de pensar em nós, nos artistas da terra e dos que não são da terra, mas que vivem cá, e que escolheram o concelho de Lagoa para viver. Têm encontrado soluções e têm tido trabalho ao longo de toda esta crise pandémica, o que vai compensar no futuro. Seja pouco ou seja muito, pensou, teve a atitude de se lembrar de nós. Sinto-me sensibilizado pela atitude. Nós portugueses podemos não ter a noção, mas para quem vai para fora e regressa, vê uma potencialidade muito grande. Vejo que temos tudo para trabalhar, para sermos felizes e Lagoa está na moda. Talvez quem viva cá não sinta como eu sinto», diz.

Uma questão de alquimia

Natural de Lagoa, onde nasceu em 1975, Paulo Cabrita é profissional da magia desde os 19 anos. Criou nome com espetáculos de grande qualidade apresentados em vários hotéis do Algarve. Um dos maiores feitos que tem no currículo e que o levou à ribalta mediática, foi ter conduzido um automóvel de olhos vendados entre Faro e Lagoa, no final dos anos 1990. «Os conhecimentos de ilusionismo vão sempre evoluindo em função da tecnologia, da mecânica porque assenta nas leis da física, da química, ou como se dizia, da alquimia. Por exemplo, mudar a cor da água para o vinho e do vinho para a água. Isso tudo se faz. Antigamente já eram utilizados esses conhecimentos para promover a fé. Obviamente, a Igreja, na altura, guardou esse conhecimento».