Pauliana Valente Pimentel mostra comunidades ciganas em «Faro-Oeste»

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Pauliana Valente Pimentel, artista visual e referência da fotografia portuguesa contemporânea, mostra as condições de vida das comunidades ciganas de Faro, Loulé e Boliqueime na exposição «Faro – Oeste».

Trata-se de um trabalho inédito que segue a linha política e interventiva da autora. É também uma aposta arrojada que abre a 10ª edição do Festival Verão Azul e uma experiência partilhada em entrevista ao barlavento.

barlavento: Como correu o trabalho?
Pauliana Valente Pimentel: Esta exposição tem a ver com o facto de eu, desde há muitos anos, passar férias no Algarve. Comecei a aperceber-me que há uma grande concentração de comunidades ciganas que vivem em acampamentos, alguns fora da vista, muito isolados, e de uma maneira ainda bastante rudimentar. Alguns ainda utilizam carroças. Isso chamou-me a atenção. Em 2019, antes de ter sido convidada para este Festival, comecei a fazer um pequeno retrato na zona de Castro Marim e Vila Real de Santo António (VRSA). Aos poucos, comecei a entrar nas comunidades e tive aceitação. Quando surgiu o convite por parte do Festival Verão Azul, acompanhado por uma bolsa, foi uma oportunidade perfeita. Decidi alargar o território. Com tempo e calma fotografei quatro acampamentos na zona de Faro, Loulé e Boliqueime, nas zonas onde o Festival acontece.

Pode precisar onde fotografou?
O Cerro do Bruxo, em Faro, parece um campo de refugiados. A Horta da Areia, junto à Ria Formosa, é menos interessante, porque as pessoas são as mais fechadas. Tenho poucas imagens porque não tiveram interesse. Em Loulé, fotografei o Alto do Relógio, que é absolutamente fascinante, um acampamento no meio das alfarrobeiras, parece que estamos num filme do Tony Gatlif. Em Boliqueime, fotografei o acampamento do Monte João Preto que tem um aspeto mais agressivo.

Cerro do Bruxo.

Foi o mais difícil?
Não. São todos difíceis. O Gil Silva, diretor-delegado do Teatro das Figuras, deu-me acesso a algumas pessoas que trabalham no terreno, assistentes sociais e membros de coletividades. Em Loulé, foi o Paulo Pires, que na altura trabalhava no Cineteatro Louletano. Facilitaram os contactos para eu falar com os chefes dos acampamentos.

Que lhes disse?
Digo sempre a verdade. Disse que já tinha começado a retratar algumas comunidades em Castro Marim e em VRSA, que estava a fazer um trabalho sobre sobre as condições de vida dos ciganos no Algarve. Disse que era um trabalho de fundo para uma exposição. Todos me deram autorização. Foi espetacular porque se não nem poderia sequer lá voltar. Expliquei tudo, inclusive mostrei algumas das imagens que costumo fazer, para terem a ideia de qual seria a linguagem. Gostaram de mim, ou da minha vibe, não sei. Estava acompanhada por pessoas que eles conhecem e pelas quais têm carinho e, no fundo, sabiam que não havia ali nada de mal. Os ciganos em geral não gostam de ser fotografados. Um pouco como os muçulmanos. Apesar de terem sempre imagens da família em casa e gostarem de tirar selfies, não gostam de se expor ao exterior.

Porquê?
Muito porque sabem a situação precária em que estão, uns por opção, outros porque não têm outra escolha. Aliás, a maior parte gostaria de ter uma casa e viver em condições melhores. Portanto, também têm alguma vergonha. No Cerro do Bruxo há imensas famílias, barracas e tendas. Foi um processo de aceitação dos mais difíceis. Mostraram-se muito desconfiados. Curiosamente, as crianças, essas sim adoram ser fotografadas e andavam sempre atrás de mim. Eu não estava interessada nelas pelo facto de serem menores. Tudo isto aconteceu em 2020 em plena pandemia. Quando tinha aceitação, no final, já comia com eles e ofereciam-me café. Só não fiquei lá a dormir porque era complicado. É muito escuro e há muitos cães selvagens. Disseram-me para não ficar à noite porque os animais não me conhecem. Voltava pela manhã cedo. Trabalhava até à hora do almoço e depois a luz fica muito forte e fazia muito calor. Regressava por volta das 16 horas e ficava até ao pôr do sol.

Do contacto que teve, concorda com o preconceito que os ciganos não se quererem integrar na sociedade?
É muito complicado. De facto, apercebi-me que no Algarve, e falo com conhecimento de causa, há bastante racismo, desconfiança e medo por parte dos ciganos. E, também é verdade que os ciganos são sempre postos à margem. Em muitas lojas há sapos à porta para os afugentar.

Isso funciona?
Funciona. Eles têm mesmo pânico de sapos. É um sinónimo de desgraça. É uma coisa mesmo supersticiosa e séria. Os sapos, mesmo que sejam de porcelana, eles não gostam. Só me apercebi disto por causa do filme da Leonor Teles, Balada de um Batráquio.

Que mais viu?
Quando me perdia e perguntava a alguém onde era o Cerro do Bruxo ou o Monte João Preto, as pessoas ficavam a olhar para mim e perguntavam se eu queria mesmo ir lá e se não tinha medo. Diziam para ter cuidado com os assaltos. Há, de facto, esta noção de que os ciganos são pessoas perigosas, que roubam e tudo o mais. Por parte deles, o que vi? Vi que vivem em condições surreais, que pensei que já não existissem em Portugal. Eles constroem as barracas com aquilo que recolhem na estrada. São condições inimagináveis. Às vezes têm um único ponto de água, uma pequena fonte onde fazem tudo: lavam a roupa, vão buscar água para beber, é surreal. Nas barracas em que estive havia terra no chão e algumas não tinham teto, mas as coisas estavam imaculadas e limpas, os tachos brilhavam. Estive numa cabana que só tem uma cama para as três crianças. Os pais dormiam num carro. Não havia casa de banho, mas a casa estava imaculada.

Pergunto de novo: na sua opinião, os ciganos não querem adaptar-se à sociedade?
Imagine isto: os pais lavam as crianças de madrugada para estarem limpas e prontas para irem para a escola. Às tantas, têm de atravessar a lama e sujam-se. Chegam à escola com a imagem do menino cigano sujo que não toma banho e que não se lava. Mas a verdade é que as crianças já querem ir à escola! Não digo todas, mas a maior parte gosta de ir, está a aprender a ler e a escrever. As mães fazem questão de as levar, mesmo com todas estas condições precárias! Isto é um sinal que já perceberam que é importante aprender. Inclusive, há pais que já permitem que as raparigas adolescentes continuem os estudos. Há muitas famílias que sonham em ter uma casa. Pessoas da minha geração e mais velhas que não sabem ler nem escrever. Muitas vezes tive de os ajudar a preencher papéis para pedidos de ajuda e de apoio. Ou até as matrículas da escola para o ano seguinte. Sinto que por um lado querem pertencer à sociedade, mas não têm como o fazer. Por outro lado, não se querem incluir porque, à partida, sabem que vai ser muito difícil e penoso. Há ainda o lado de manterem muito as suas tradições, num grupo fechado. Têm uma maneira de viver que é bastante diferente da nossa. A inclusão é complicada, mas acho que é possível. Hoje em dia já temos ciganos e ciganas com cursos superiores e com posições de alto nível. Alguma coisa está a mudar.

Mas a vida continua a ser mais difícil para as raparigas ciganas…
Isso é outra história gigante. Conheci uma rapariga cigana de 14 anos que está no 4º ano a estudar com miúdos que têm seis, sete anos. É uma rapariga crescida, uma mulher feita, como é que ela se sente por frequentar aulas com crianças pequenas? Claramente, o papel da mulher é muito questionável. Elas casam muito cedo. Vi miúdas muito jovens já com bebés. Casam e vão viver com a sogra e acabam por trabalhar para ela e para o marido. Deixam de estudar e muitas ficam até deprimidas porque a sua adolescência acaba por ali. Não quis entrar por aí, nem vi nenhum casamento, mas acho que ainda há, em algumas famílias, a questão de na noite de núpcias, a sogra ou a família do marido ir ver se a rapariga é virgem ou não, se há sangue no lençol. São coisas de países muçulmanos e ainda têm estes rituais.

Até à criação do Alto Comissariado para Minorias Étnicas, pouco se fez…
Não há ainda, por parte dos nossos políticos, uma preocupação em integrar estas pessoas. No Alto do Relógio, que é um terreno gigantesco, corre o boato que vão ser expulsos dali e ninguém lhes diz para onde, nem como. O que é que se vai fazer a famílias com quatro e cinco crianças e bebés? Vão para onde? Fazer o quê? O que vi em Faro, por exemplo, foram pequenas associações, que estão de facto no terreno e fazem o seu melhor para conseguir atender a todos, mas é complicado porque de facto eles têm tradições e questões que são complicadas de integrar. A meu ver, o que já está a dar alguns frutos é a questão da educação, o facto de irem à escola e de aprenderem a ler e a escrever. Quase todos os miúdos ciganos, apesar de todas as dificuldades, têm os seus telemóveis e fazem o mesmo que os outros miúdos: têm redes sociais, trocam fotografias, fazem vídeos, têm Whatsapp. Esta questão de os ciganos não quererem ser incluídos na sociedade é muito dúbia. Uma coisa eu sei: há uma nova geração que vai dar a volta e isso é bom. E isso tem a ver com o facto de irem à escola.

A geração mais nova tem mais vontade de ser integrada?
Estão com vontade sim, estão mais integradas, embora com algumas limitações e depende se têm sorte com os professores. Muitas vezes falaram-me de racismo por parte dos professores, que tomam de ponta por serem ciganos e que ficam desconfiados quando alguma coisa desaparece. E há sempre uma vergonha. Eles não vão convidar os colegas a irem às suas casas porque vivem em barracas sem luz nem água. Se não há condições básicas, é muito difícil haver integração.

Alguma vez foi maltratada? Sentiu medo?
Apesar de aceitarem, não são logo totalmente abertos no início. Há sempre uma desconfiança, um olhar. Tenho muita experiência e sei ler os códigos e ter calma. Até porque eu fotografo em médio formato, em película e levo tempo a preparar tudo. Passava muito mais tempo a conversar do que a fotografar. A fotografia vem sempre depois. Houve uma situação que reparei. Constantemente aparecia a guarda, a cavalo. Dia sim, dia não. Uma vez era porque a égua estava muito próxima da estrada a comer erva, e então, eles tinham de pagar uma multa de 400 euros. Outra vez, estava a fotografar uma família no Alto do Relógio, no meio das alfarrobas, e apareceram dois guardas a cavalo a fazer pressão. As crianças, mal observam a guarda a chegar, avisam logo todos e surge um pânico coletivo que não é normal. É uma pressão psicológica pelo medo, medo de estarem sempre a fazer algo de mal, de errado, nunca é nada de positivo. As crianças ficavam muito nervosas. Não estou a dizer que as autoridades não estavam lá sem razão, mas esta maneira de abordar pessoas que já têm muito pouco, acho que não contribui para nada.

Ficou a ver os ciganos de uma outra forma?
Admiro os ciganos. Adoro a sua cultura. Têm uma relação com a música e tradições interessantes. Há outros que conservam a questão de serem muito ligados à família. São muito carinhosos com os filhos e há um sentido de família, de comunidade, de respeito e de inter-ajuda. Mas também se zangam e aí há facadas e tudo. São tão unidos como também se zangam de faca e alguidar. É tudo muito intenso. Tenho algum fascínio, claro.

O Festival Verão Azul faz bem, na sua opinião, em incluir na programação uma questão controversa e até polémica?
Aí a culpa é minha. Como conhecem o meu trabalho, convidaram-me como artista para fazer uma temática sobre o que quisesse no Algarve. Lancei este desafio porque era de facto o que eu queria fazer e houve logo abertura e interesse. Este é um assunto muito pertinente e atual não só no Algarve como em todo o país. É uma questão que não se fala e que deve ser debatida e falada. Da parte do Festival foi corajoso aceitarem a minha proposta. Para mim, um trabalho artístico tem de ser social, político e contemporâneo. É através da arte que fazemos acordar consciências e cada vez mais. Sobretudo agora depois desta pandemia. Acho que é uma mais-valia para o Festival. Além da exposição, há que criar discussão e conversas.

E após o Festival?
Este trabalho não é para ficar fechado. É para circular, para ser mostrado o mais possível. Até porque, modéstia à parte, acho que está maravilhoso. Tentei fugir, e espero ter conseguido, do fotojornalismo, das imagens clássicas que todos já viram. Tentei explorar um lado cinematográfico, usar a fotografia como pintura. Este é um trabalho de mim para eles, porque o facto de não gostarem de serem expostos e terem-me dado esta permissão é uma grande responsabilidade e não posso quebrar o pacto. Quero mostrar aquilo que vi de melhor. Não posso dizer que uma barraca seja interessante, mas posso tentar mostrar o lado belo de uma coisa que não é bela. Não gosto de explorar o lado decadente. É bom mostrar o que existe, é algo que é preciso ser visto, que não é fácil, mas não está a escarafunchar no que é mau.

Que mais tem em mãos agora?
Há dias, num dos grandes museus de Marselha, inaugurei uma coletiva, na qual participo com um trabalho que fiz antes dos ciganos do Algarve, também na primeira vaga da pandemia, sobre afrodescendentes jovens, que vivem em Lisboa, sobretudo artistas. É um conjunto de retratos. Mais uma vez, um tema que tem a ver com o colonialismo, a afrodescendência. Como é que a segunda e terceira geração pós-colonialismo vivem? Outra questão social e política que vale a pena debater, e que estamos sempre a fugir dela. A fotografia está viva e estou feliz com este trabalho que fiz no Algarve. Acho que devia dar um livro porque tenho muito mais imagens e obviamente numa exposição não dá para mostrar tudo. Decidi imprimir as fotografias em tecido e vou criar estendais como eles têm…

Inauguração «Faro – Oeste»

A exposição de fotografia «Faro-Oeste» de Pauliana Valente Pimentel inaugura hoje, quinta-feira, dia 4 de novembro, às 18h30 no Museu Municipal de Faro (Antigas Carpintarias), no âmbito do Verão Azul – Festival Transdisciplinar de Artes Contemporâneas. Produzido pela associação cultural casaBranca, o Festival Verão Azul tem financiamento da Direção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lagos, contando com coprodução com o Teatro das Figuras de Faro e a Câmara Municipal de Loulé. Decorre até dia 20 de novembro.

Pauliana Valente Pimentel.

A autora

Pauliana Valente Pimentel (Lisboa, 1975) vive em Lisboa e trabalha entre vários países. Como artista e fotógrafa freelancer, faz trabalhos de fotorreportagem desde 1999 para diversos jornais e revistas portuguesas e estrangeiras, bem como exposições individuais e coletivas. Também realizou diversos filmes e em 2015 recebeu o prémio de Artes Visuais, do melhor trabalho fotográfico do ano, «The Passenger» pela Sociedade Portuguesa de Autores. Parte da sua obra pertence a colecionadores privados e institucionais, tais como Fundação Calouste Gulbenkian, Partex, Fundação EDP e Novo Banco.

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