Ordem dos Médicos não sabe como a Pediatria «ainda funciona» em Faro

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Alexandre Lourenço, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, disse hoje «não saber» como é que a urgência de Pediatria do Hospital de Faro «ainda funciona».

Depois de um encontro com os profissionais de saúde que trabalham na unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), Alexandre Lourenço traçou um péssimo diagnóstico aos jornalistas.

«O que mais me preocupa é que já estivemos cá há dois anos, com situações catastróficas no Algarve, em que grávidas eram transferidas dos hospitais e crianças que estavam à espera de assistência e, neste momento, passado dois anos e uma pandemia, acho que ainda estamos pior», disse.

«Neste momento, as escalas de urgência de Pediatria e de Ginecologia e Obstetrícia são preenchidas com muitos sacrifícios dos poucos especialistas que ainda podem fazer serviço de urgência. Por exemplo, na Pediatria temos apenas três especialistas com idade inferior a 55 anos. Por isso, socorre-se de horas extra de colegas que se multiplicam para fazer múltiplos bancos para impedir que o Hospital de Faro não preste assistência à sua população, sobretudo às crianças do sul do país», denunciou.

«Temos, por exemplo, em dezembro, dois médicos que vão fazer os dois, entre eles, 19 noites. Isto significa, que estes médicos há muito que ultrapassaram o limite. Não podem estar com as suas famílias, não podem ter outra vida além da urgência. O que urge é resolver o problema da urgência e da saúde materno-infantil do Algarve, que se arrastam e que são semelhantes na origem a muitos dos problemas que temos nas várias especialidades em vários hospitais», disse.

Questionado sobre o que pode ser feito para aliviar a pressão dos clínicos, Alexandre Lourenço fez um diagnóstico há muito conhecido pelos algarvios.

«Há médicos. O serviço de Pediatria tem três internos de especialidade de cada ano, mas não os consegue reter. Eles acabam a especialidade e vão-se embora» do Algarve.

«O que urge fazer é criar condições que permitam reter estes médicos. Dar-lhes uma proposta e uma atividade, uma carreira, dar-lhes a possibilidade de serem remunerados pelo trabalho que fazem a mais e pela sua qualificação. É muito importante permitir que estes especialistas, que na Pediatria depois têm várias subespecialidades, possam fazer e ter um projeto profissional».

Na opinião do presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, contudo, «neste momento, com urgências atrás de urgências e com as condições gerais que as administrações hospitalares e os diretores de serviço têm para proporcionar, não é possível» fixar os profissionais de saúde.

«É preciso mudar as leis. É preciso colocar, por exemplo, o PIB para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal nos níveis médios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Estamos dois por cento abaixo dos níveis médios da OCDE consecutivamente desde 2011. Desde o tempo da Troika que continuamos na mesma. É preciso que os partidos políticos e os representantes, de uma vez por todas, tenham como máxima a possibilidade de melhorarem o SNS. E isso passa por fortalecê-lo. Todos eles assumirem, em conjunto nos seus programas eleitorais, que vão dar mais dinheiro, mais organização e mais autonomia aos hospitais e aos serviços para resolverem os problemas de saúde em Portugal».

Lourenço não tem dúvidas que a Urgência de Pediatria do Hospital de Faro corre risco de encerrar.

«Não sei é como é que ainda consegue funcionar. Há risco. Por exemplo, se os médicos que têm mais de 55 anos deixarem de fazer urgências, deixamos de ter médicos residentes especialistas no hospital e teremos de continuar a contratar fora».

Aliás, é o que já acontece no serviço de Ginecologia que «contrata 60 por cento em tarefas fora do hospital e isso não é possível fazer-se. Este risco é iminente não só neste hospital como noutros. Mas neste hospital tem uma importância maior, porque está a 300 quilómetros dos hospitais que o podem substituir. Por isso, quando algo acontece no CHUA, não temos outro remédio se não transferir para Lisboa. E não podemos transferir para Lisboa crianças ou grávidas em situações de urgência», disse.

Na reunião, o dirigente viu «vários médicos a dizerem que querem continuar a lutar por este hospital», mas também «uma sensação e uma emoção que já vivi nos outros, e é a mesma, não há diferença. As pessoas estão cansadas e continuam a lutar. Todos querem continuar a lutar, mas dizem que não aguentam muito mais. Há um risco enorme» do pessoal médico pedir a demissão, cenário que deixaria os utentes do CHUA, neste caso, famílias e crianças, sem outra alternativa que recorrer à saúde privada.

«Fala-se disso, há colegas que levantam essa hipótese, se não houver medidas centrais que permitam este e outros hospitais terem instrumentos para combater estes problemas, nomeadamente o problema da urgência. Vejo vontade de se manterem a lutar por este hospital, mas já ultrapassámos o limite há muito tempo», voltou a frisar aos jornalistas.

«O problema resolve-se nos Centros de Saúde e nos Cuidados Continuados, porque na Pediatria mais de 80 por cento das situações podiam ser resolvidas ao nível da consulta. Por isso, é preciso reforçar essas consultas, reforçar os outros locais onde podemos tratar os doentes. Ninguém quer estar 10 horas à espera no serviço ao frio, durante a noite, nos meses de inverno. E isso vai-se repetir. Já aconteceu no passado, vai acontecer de novo, e temos todos, sociedade, médicos e enfermeiros, de lutar para que isso não aconteça mais», previu.

«Estamo-nos a aproximar do momento em que as decisões que não tomámos, podem ter um preço muito importante a pagar», como é o caso da fuga para o privado.

«Os profissionais têm saído paulatina e lentamente. O problema não é eles saírem, é dizerem que já não querem voltar porque encontram condições e uma capacidade de exercer Medicina, que antigamente existia nos hospitais públicos, e que agora começa a aparecer nos privados. Não sei se é esse o caminho que queremos seguir, mas o que queremos certamente é ter uma Medicina de qualidade para todos os portugueses», comparou.

Problemas na Ginecologia e Obstetrícia

Se a Pediatria em Faro está em maus lençóis, «a Obstetrícia não tem escalas suficientes. Tenho aqui bastantes internos, quer de Ginecologia quer de Pediatria, a fazerem urgências, mas queixam-se do apoio que têm numa Urgência com poucos médicos e poucos especialistas. É muito mau».

Por isso, «questionam se a qualidade da sua formação é a mais adequada. Os colegas da especialidade já visitaram o hospital por estas situações, continuam a emitir recomendações e têm sempre o cuidado de fazer com que não se perca a idoneidade. Se não, vamos entrar num ciclo que não conseguimos mais interromper».

O número de partos no CHUA é dividido entre a maternidade de Faro e a de Portimão, todavia, «o número de profissionais que temos para estas duas maternidades era suficiente para garantir o funcionamento de uma. Percebemos que se têm de manter dois polos, porque o Algarve é muito grande e não pode apenas ter um. Por isso, o que sabemos é que na Obstetrícia precisamos de reforçar estes quadros e de manter mais especialistas não tarefeiros. Mas especialistas qualificados para manter estes dois polos em funcionamento com qualidade. No passado, já tivemos necessidade de encerrar um e transferir grávidas, momentaneamente, durante alguns fins de semana. Não queremos que isso se repita».

Por fim, o presidente da região sul da Ordem dos Médicos considera que o Ministério da Saúde «que está há seis anos em função, já devia ter feito a transformação do sistema. Estamos a meio de um processo eleitoral. É o momento para que todos os partidos e todas as forças políticas e sociais se entendam em relação a que saúde querem para os portugueses», concluiu aos jornalistas.