Oficina de talhe do Neolítico médio descoberta em Lagos

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Utensílios de sílex com cerca de 6500 anos, encontrados na Ameijeira (Gafaria), ainda cortam como se fossem acabados de talhar. Arqueólogos acreditam ter descoberto o que resta de uma indústria lítica e de um possível assentamento habitacional do Neolítico médio, um período ainda pouco conhecido.

À primeira vista, as peças até podem parecer primitivas, mas a verdade é que ainda funcionam, quase seis milénios e meio depois de terem sido cuidadosamente esculpidas em sílex de boa qualidade. Houve até quem se tivesse cortado durante as escavações na Ameijeira, em Lagos, segundo revela ao barlavento Patrícia Monteiro, arqueóloga da ERA Arqueologia.

«Na verdade, este sítio arqueológico já tinha sido referenciado em finais dos anos 1990, como uma possível oficina de talhe atribuível ao Neolítico antigo. As primeiras sondagens tinham como objetivo tentar perceber onde é que estava o sítio e com o que é que íamos lidar. Conseguimos descartar uma área em que praticamente não apareceu nada e outra área em que a densidade material era bastante elevada, mas em deposição secundária. Significa isto que teria existido um sítio original, mas com os processos que vão ocorrendo ao longo do tempo», os vestígios acabaram por se afastar para outro local, embora não muito longe.

Núcleos em sílex da Pré-história recente recolhidos no sítio da Gafaria, em Lagos. A partir deles foram retiradas lâminas e/ou lamelas que serviram para a produção de instrumentos de pedra lascada usados por comunidades que ali habitaram há vários milhares de anos, durante o Neolítico médio.

O achado apareceu no âmbito do acompanhamento arqueológico de uma nova urbanização. Os trabalhos de campo decorreram em três fases.

«Fizemos um primeiro diagnóstico em junho, julho e agosto de 2020, e depois as escavações entre outubro do ano passado e fevereiro de 2021», recorda.

«O que se encontrou foi sobretudo um conjunto de líticos, produtos e restos de talhe. Estamos a falar das primeiras comunidades do megalitismo, altura em que começamos a ter os primeiros vestígios de uma prática agrícola inicial», acrescenta a arqueóloga Eliana Correia, também da delegação do Algarve da ERA Arqueologia.

«Ou seja, essas comunidades recolhiam blocos de sílex, dos quais fariam uma primeira debitagem [lascamento], e tiravam o córtex para produzir peças. Este era um sítio onde se fazia esse trabalho» de produção daquilo que, provavelmente, seriam partes de ferramentas agrícolas, teoriza Patrícia Monteiro.

Apesar do que os arqueólogos já esperavam descobrir, os resultados acabaram por surpreender a equipa.

«Estas novas escavações permitiram trazer muito mais. Numa análise preliminar, encontrámos aquilo a que nós denominamos de utensílios, e fragmentos de cerâmica» que também deram pistas mais claras sobre o contexto e idade do local.

«Exatamente. O que nos aponta para Neolítico médio, neste caso, é a cerâmica é lisa que encontrámos. É o contrário do que acontecia no Neolítico antigo, em que a cerâmica era extremamente decorada. No Neolítico médio é muito típico uma cerâmica sem decoração. Descobrimos vestígios, embora muito incipientes, de possíveis estruturas. Isto é, algumas concentrações de argila com evidências de fogo ou de contacto com o fogo e uma pequena estrutura com preenchimento de carvões. Ou seja, uma ligação a uma atividade relacionada com a combustão», esclarece, o que poderá indicar que o sítio não era apenas uma oficina de talhe, mas poderia ter tido mais funções.

À data desta entrevista, a equipa da ERA Arqueologia já tinha identificado um total de 6945 peças e o inventário ainda estava longe de terminar.

«É uma enorme quantidade de materiais que nos revelam que o talhe não terá sido a única atividade ali. Há a possibilidade de estarmos perante, nas imediações, na presença de um assentamento, um espaço habitacional» de uma comunidade do Neolítico Médio.

Segundo as arqueólogas, este contexto histórico, entre a segunda metade do quinto milénio e a segunda metade do quarto milénio, refere-se a uma época de transição.

«Já não é um acampamento temporário como no Paleolítico, mas também não é uma aldeia como vem a ser, por exemplo, na Idade do Ferro. Estamos a falar num pequeno povoado, num assentamento», embora não haja, para há «evidências claras».

De onde veio o sílex?

Na Ameijeira foi feita uma escavação de grandes dimensões com quase 500 metros quadrados. O objetivo dos arqueólogos foi recuperar o máximo de material possível para estudo futuro. Uma análise mais detalhada às peças poderá confirmar se teriam uso agrícola.

«Em princípio sim. Provavelmente, algumas até seriam sobretudo para o corte de cereais. É arriscado dizer», acrescenta Eliana Correia.

A verdade é que as arqueólogas têm em mãos vários núcleos de sílex dos quais os artesãos do Neolítico extraiam peças alongadas e afiadas.

Patrícia Monteiro e Rita Dias, da equipa da ERA Algarve, durante a análise de espólios arqueológicos recolhidos na escavação arqueológica em Lagos.

«Encontrámos milhares. É quase como se fossem pequenas facas. Na altura, um colega nosso encontrou uma peça muito afiada e uma lâmina antiga de barbear. São duas peças de função de corte», compara.

Interessará perceber, por exemplo, «de onde vieram estas matérias-primas que podem não ser locais. A verdade é que não conhecemos atualmente no Algarve, nenhum afloramento de sílex de boa qualidade de talhe. Não significa que naquela altura não possa ter existido um muito bom que possa ter sido explorado exaustivamente e que deixou de existir», aponta Eliana Correia.

«Outra característica que os materiais têm é que são extremamente frescos. Colegas nossos até se cortaram às vezes neste sílex», acrescenta.

Daí a pergunta: de onde veio? A Estremadura é uma hipótese em cima da mesa e «cria outras teorias e implicações para percebermos como se moviam estas populações. Será que houve uma rede de mobilidade, uma rota por onde essas matérias-primas circulavam no território? No fundo, o que é muito interessante nesta coleção é a sua dimensão e o potencial que poderá vir a ter mesmo para o conhecimento do Neolítico médio».

«Na Pré-história não há normalização das técnicas como acontece em períodos posteriores. Os paralelos nesta época são quase sempre regionais, para não dizer locais» e em termos de quantidade, o sítio da Ameijeira, do que se sabe, só encontra paralelo com o Menir da Caramujeira», em Lagoa, «em que vimos algumas semelhanças do conjunto».

Em termos de atributos tecnológicos, as arqueólogas não têm dúvidas. Em muitas peças é bem evidente o denticulado, o pormenor esculpido ao detalhe.

«Estamos a falar de bom material e estes artesãos sabiam o que estavam a fazer e para o que estavam a fazer. Se, no Neolítico antigo, a caça e a recoleção eram as bases da economia, no Neolítico médio, o que produziam era muito dirigido para a ceifa, corte de cereais, e também para a pastorícia. Estamos a falar da primeira manipulação da natureza pelo homem, do controlo da paisagem», conclui.

Arqueólogos sabem «pouco» sobre o Neolítico médio

Segundo Eliana Correia, arqueóloga da ERA Arqueologia, «o Neolítico médio ainda está mal conhecido. O Neolítico antigo já se conhece bem. O Neolítico final também. Mas ainda existe um lapso intermédio. O Neolítico médio tem a ver sobretudo com o megalistismo e os contextos funerários que conhecemos. Contextos habitacionais não se conhecem muitos». A arqueóloga compara o sítio da Ameijeira com Castelo de Linho, em Silves, no interior algarvio.

«Se corresponder a um assentamento, talvez seja inovador no sentido de ser num sítio de costa, que é uma coisa muito mais típica, se calhar, do Neolítico antigo. Uma das questões interessantes no Algarve e no Barlavento, é como é que as populações do Neolítico antigo, populações exógenas terão chegado, e contactado com as comunidades de caçadores recoletores. Temos alguns sítios datados do Neolítico antigo que refletem esses contactos que ainda são um desafio de investigação. Mas para o Neolítico médio diria até que é uma coisa geral para o país inteiro, acaba por ser uma altura que em termos de assentamentos e habitats não temos ainda tanto conhecimento. Daí a importância» do que agora se descobriu em Lagos.

Espólio será entregue ao Museu de Lagos

A descoberta é oportuna até porque a Câmara Municipal de Lagos anunciou a instalação de um núcleo arqueológico no novo Museu Municipal Dr. José Formosinho.

Neste momento, a equipa da ERA Arqueologia está a preparar um breve artigo científico com uma apresentação do sítio da Ameijeira (Gafaria) e uma análise preliminar aos materiais.

No entanto, «o nosso objetivo é fazer a entrega dos materiais ao Museu e continuar com a reserva científica dos mesmos para num futuro próximo podermos, já com um objetivo definido de investigação, tentar perceber que populações eram estas, como é que elas se enquadravam no que é a ocupação do Neolítico que já se conhece no Barlavento algarvio. Tentar perceber os novos dados», explica a a arqueóloga Patrícia Monteiro.

Questionada sobre se as peças teriam lugar no futuro núcleo de arqueologia, a resposta não podia ser mais assertiva. «Sim, sobretudo num discurso museológico diacrónico, que recue até ao tempo dos habitantes mais antigos de Lagos. Fará todo o sentido, pois trata-se de uma das mais antigas evidências de ocupação do concelho. Não destacaria uma peça em particular, mas o conjunto que traduz o aquilo a que chamamos a cadeia operatória. É quase certo que são de produção local», diz. «Da nossa parte temos todo o interesse e disponibilidade para que tal aconteça»